domingo, 9 de maio de 2010

6º Dia – Fez

Amanheceu cedo. Enquanto as minhas companheiras de quarto ainda dormem, eu já estou acordada e já tomo notas do diário de viagem dos dias anteriores. Acordo cedo com o barulho e claridade da cidade. Não consigo dormir muito quando estou de férias…
Como não tínhamos ainda hotel marcado e porque não queríamos desperdiçar o nosso dia em Fez, fui com os dois colegas em busca dos hóteis que o rapaz da recepção do hotel nos indicara na noite anterior. Depois de ligarmos para o primeiro da lista, conseguimos logo reserva. Por isso fomos até ao Narjiss oficializar a reserva e voltámos ao Nouzha, para recolher as bagagens e tomarmos o pequeno-almoço, num simpático café em frente ao hotel.
Depois de deixarmos as malas no Narjiss, seguimos de carro para a parte velha da cidade, Fez-el-Bali.

Este núcleo antigo, que remonta ao séc. IX, é encerrado por muralhas defensivas, apresentando no seu interior medinas históricas. É o rio Wadi Fés que separa os dois marcos históricos: o bairro Andaluz para leste e o Bairro Karaouiyne para oeste.
Ao chegar a Fez-el-Bali foi fácil arranjar um arrumador que nos indicou o local onde podíamos estacionar o carro, e que se ofereceu para nos acompanhar. Como já sabíamos que é quase impossível explorar a medina histórica sem ser a pé e com guia, devido ao traçado labiríntico e irregular da mesma, depois de chegarmos a um preço razoável, aceitámos que o homem nos acompanhasse. Qual não foi o nosso espanto, quando o homem saiu a correr para uma das ruas e disse para esperarmos. Passado um ou dois minutos, regressou e trazia um outro consigo. Contou-nos que era seu familiar (não me recordo o grau de parentesco, se é que essa história era verdadeira…) , que ele era guia oficial e que por isso era ele que ia connosco. Apesar do esquema montado, não achei mal, afinal ele era a nossa única garantia para conhecermos a medina o dia todo, sem nos perdermos, a troco de 4 € a cada um de nós. Tendo em conta o emaranhado das ruas e a confusão que nelas reinava, penso que esta foi a melhor opção.

Ao começarmos a seguir o nosso guia, Mohamed, a primeira coisa que ele fez foi sacar de uma gravata que trazia no bolso e de um crachá que o distinguia como guia oficial. Como não sabia fazer o nó na gravata pediu a um de nós que lho fizesse e justificou-se dizendo que os guias têm de andar devidamente apresentados, e realmente ele, de calça, camisa e gravata, distinguia-se dos demais. Outro aspecto que achei bastante curioso, foi ele dizer-nos que nos ia mostrar o bairro andaluz e o de Karaouiyne, e os aspectos mais importantes, e depois se quiséssemos podíamos então fazer compras, mas primeiro dar atenção ao que ele nos dizia e mostrava, porque ele era um guia intelectual….
O Mohamed começou por nos mostrar o bairro andaluz, que sofreu a influência dos mouros expulsos pelos reis católicos de Espanha. À medida que nos entranhávamos no bairro, íamos vendo recantos sombrios, corredores sem luz natural que nos transportavam para becos e ruelas, portas de escadas entreabertas, curvas apertadas. Num instante nos perderíamos ali sem um guia. Sem nos apercebermos bem como, confluímos num mercado local repleto de legumes, de peixe, e produtos hortícolas. As pessoas olhavam para nós, e as crianças saudávamo-nos. Não havia por ali turistas naquela zona do bairro, e por esse aspecto, acabei por me sentir privilegiada por estar a andar numa massa compacta de turistas que segue por todo o lado, sem observar, sem sentir o cheiro das coisas, os sons, e olhar para o modo de vida das pessoas com um pouco mais de atenção. Essa parte para mim foi fantástica, porque me senti mesmo no território deles.

O guia levou-nos a ver a Place el-Seffarine, onde se localizam as oficinas dos caldeireiros e dos trabalhadores do bronze e vimos de fora a fachada da Biblioteca Karaouiyne, do séc. XIV.

Visitámos uma Medersa (estabelecimento cultural e religioso, que funcionava como escola residencial, e que era uma extensão da grande universidade-mesquita), observámos as mesquitas (do lado exterior claro), e entrámos em alguns estabelecimentos comerciais, como lojas de tapetes, de curtumes e peles, bordados, entre outros (lá se foi a intelectualidade do guia…). Nesses locais, tivemos de assistir a uma demonstração dos produtos com a finalidade de nos venderem alguma coisa. A verdade, é que num instante, se não estivéssemos bem mentalizados, acabávamos comprando os tapetes, ou o que fosse mais… A técnica de persuasão deles é quase hipnótica, mas a realidade é que funciona…


O que mais me impressionou na visita foram as fábricas de curtumes, localizadas geralmente junto a cursos de água. O curtimento é uma arte com tradição de milhares de anos. O processo transforma pele de animais em couro macio e que não apodrece. Depois de curtidas, as peles passam para os artesãos as trabalharem.
Quando subimos ao último andar destas lojas de curtumes, podemos admirar e sentir a experiência visual e olfactiva da lavagem das peles, a tal ponto que quem nos conduz ao local, nos dá um pouco de hortelã para cheirarmos, para atenuar a forte fragrância. Trabalham nestas fábricas famílias inteiras, gerações inteiras. Para que o trabalho dê para todos, eles organizam-se e em cada dia da semana trabalha uma família diferente. A pele é limpa com excrementos de pombo, o que torna o ar irrespirável, devido ao amoníaco que é libertado nas fezes. Podemos admirar também as tinas, onde se mergulham as peles, depois de removidos o pêlo e a carne, e as tinturarias, onde se tingem as peles (obtidas a partir de pigmentos naturais de certas plantas e minerais). As peles curtidas são depois penduradas a secar nos terraços da medina.
Fez é realmente uma experiência mirabolante! Perdido numa ruela suja e pouco iluminada, encontrámos um verdadeiro palácio, que seria o local onde iríamos almoçar. O preço não foi muito barato, mas atendendo às condições da medina, e ao facto de termos fome, pareceu que não foi má ideia.


A seguir ao almoço, a visita começou a perder tanto interesse, o guia arrastou-nos de loja em loja, dos conhecidos dele, e rapidamente nos começámos a sentir cansados e fartos de tanto comércio. Ao ver o nosso esmorecimento, o guia ainda tentou negociar connosco um táxi, mas ao ver que não queríamos apanhar táxi, obrigou-nos a percorrer um longo percurso, sempre a bom ritmo (eu até brinquei dizendo que ele parecia mais um personal trainner, que marca o passo da caminhada, sem nunca abrandar). De repente, quando saímos das ruelas, desembocámos num largo, onde se viam várias bancas de venda de roupa, como se tivéssemos entrado na Feira do Relógio, gente e confusão na rua não faltava, mas aquilo já não era tão característico como no interior da medina.


Finalmente, o guia lá nos levou até ao local onde tínhamos deixado o carro e saímos de Fez-el-Bali. Daquilo que vi de Fez, esta foi mesmo a parte melhor e a que valeu mais a pena. A Nouvelle Ville, onde estava localizado o hotel, era uma zona residencial e comercial sem muito interesse.

sábado, 8 de maio de 2010

De Marraquexe a Fez: 5º dia de viagem

A nossa jornada em Marraquexe acabou. Arrumámos as tralhas e eis-nos novamente de mochilas às costas. Tomámos o pequeno-almoço num café da praça, (as panquecas com mel souberam-me ainda melhor do que as primeiras que comi) e dissemos adeus à Praça Djemaa El Fna: Até um dia!
Lá conseguimos, depois de muito andar, arranjar um táxi que nos levou até à AVIS da Av. Mohamed IV, onde iríamos buscar o carro alugado com que seguiríamos viagem.
O dia foi todo passado no carro. O percurso foi muito longo, perto de 450 kms, de Marraquexe a Fez, e as estradas apesar de em bom estado, não permitiam grandes velocidades. Parámos para almoçar em Beni Mellal, onde descobrimos um restaurante muito bonito, com excelentes pizzas e massas, que nos satisfez imenso, cortando um pouco com a rotina das tagines e dos couscous.
A meio da tarde, decidimos que o mais seguro era marcar o hotel, que tínhamos visto na noite anterior na internet, não fosse ser difícil conseguir dormida. Paramos numa pequena localidade, onde um senhor que trabalhava numa mercearia, foi muito prestável a ajudar-nos a conseguir o número certo do Hotel Nouzha, pois o que tínhamos visto na internet, afinal não funcionava. Lá se marcou o hotel pelo telefone e viemos mais descansados, pelo menos tínhamos onde dormir.
Chegamos a Fez já eram nove e tal da noite e ainda tivemos de andar à procura do dito hotel. Depois de termos feito o check-in, apercebemo-nos que só tinham vaga para nós naquela noite, por isso, se quiséssemos dormir as outras duas noites seguintes em Fez, tínhamos de descobrir outras opções. O Nouzha Hotel, apesar de ter apenas 3 estrelas, era muito bom, cabendo-nos a nós meninas uma enorme suite, bastante espaçosa.
Já era tarde, o cansaço do dia acumulava-se, mas ainda assim deambulámos pela parte nova da cidade de Fez, a Nouvelle Ville, em direcção a vários hotéis, em busca de uma reserva, mas a aventura não foi fácil, pois o Rei de Marrocos decidira também vir para Fez, o que tinha feito lotar quase todos os hotéis. Em completo desespero de causa, ainda chegámos a visitar uma pensão residencial, mas assim que entrámos saímos, pois, além de não ter grandes condições, apercebi-me logo que também tinha baratas….impossível.
Resultado, não conseguimos marcar quarto e depois de muito andarmos, perto das 11horas, vencidos pelo cansaço e pela fome, lá nos sentámos no Titanic, para comer uns óptimos hamburgers.
Começava a sentir-me cansada, pela sucessão de noites mal dormidas, acordava sempre muito cedo e frequentemente com o muezzin a meio da noite - chamamento cantado para a oração - uma das cinco orações diárias que faz parte das obrigações de um muçulmano devoto.
Regressámos ao Nouzha Hotel, por sinal muito bom, para as 3 estrelas que tinha. Mas, quando chegou a hora de dormir também não foi fácil, ouvia-se um som de música abafado que não me deixava dormir, talvez de alguma discoteca ou bar ali perto. Deviam ser umas 2h da manhã quando por fim sucumbi ao cansaço.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

3º e 4º dia – A ida ao deserto

No terceiro dia de viagem levantámo-nos muito cedo. Tivemos de ir até à Place 16 Novembre apanhar o mini-bus que nos levaria na excursão a Zagora, e à nossa noite no deserto. Tínhamos decidido a excursão previamente em Portugal, por intermédio do Riad que nos tinha sugerido algumas excursões incluindo esta.
Nesse dia, conhecemos outras pessoas, que tal como nós ambicionavam pela aventura do deserto. Encontravam-se entre elas três brasileiros, dois franceses, nós os cinco aventureiros, e uma mãe e um filho americanos, verdadeiros personagens de sitcom, os quais nos inspiraram durante a restante viagem em Marrocos, pelo absurdo de algumas das suas reacções, mas adiante…
Ao longo do percurso, sempre que havia paisagens dignas de uma fotografia, lá fazíamos uma paragem para admirar as vistas. Mas, a primeira paragem foi para conhecer a ksar de Aït Benhaddou, na margem esquerda do Wadi Mellah, a sul de Marraquexe.


Pelo seu ar imponente e exótico, tive a sensação de estar a viver um filme, do estilo de «Um chá no Deserto» de Bertolluci. Para chegar à ksar tivemos de passar o rio Wadi, o qual mesmo baixo, como corria, ainda nos obrigou a descalçar e a sujar os pés de lama barrenta. Depois da primeira prova superada e de apreciar a paisagem, tivemos de subir a pé até ao topo da aldeia, junto ao antigo celeiro comunitário. A aldeia apresenta um conjunto de kasbahs, de pise ocre, com uma estrutura arquitectónica assente em barro, palha, e excremento de animal. Estas residências desempenharam por muito tempo o papel dos castelos fortificados, sendo lugares de refúgio para pessoas e animais.


Cada recanto daquela aldeia, que parecia perdida no tempo, parecia uma fotografia de uma enciclopédia de Antropologia, recordava-me povos como os «Dogon» e outros que estudara na minha licenciatura.
Depois de uma subida bem íngreme e acentuada, chegámos ao topo, e aí a paisagem era de facto inóspita e avassaladora, era fácil perceber que éramos nós que estávamos fora de contexto naquele lugar, ali onde o tempo parece ter permanecido imutável, correndo vagaroso, como o pequeno curso de água do Wadi.


De caminho para Zagora, a paisagem ia mudando, vendo-se montanhas, oásis cobertos de palmeiral, superfícies áridas e agrestes, desfiladeiros e relevos que pareciam autênticos cortes topográficos.


À medida que avançávamos para sul, a viagem foi-se tornando mais cansativa. Zagora era bem mais longe do que pensara, e o facto de estar muito calor e de passarmos muitas horas seguidas no mini-bus, também não ajudava. Porém, tudo quanto víamos pelo caminho serviu para acrescentar conteúdo à viagem, tendo-me impressionado bastante, o cortejo de bicicletas de jovens estudantes saídos às 18h00 da escola, nas imediações de Zagora, que rumavam em bando para Zagora, desde pequeninos a graúdos, e o percurso era bem longo até à cidade. Tal visão fez-me pensar que aquele povo desde pequeno aprende a «desenrascar-se», não dependendo de terceiros para fazer a sua vida.


O ponto alto do dia coincidiu com o momento em que fomos andar de camelo, depois de chegarmos a Zagora. Mas, nunca tinha pensado que o percurso começasse na estrada, achava que iríamos andar só nas dunas, como fizera antes na Tunísia, mas pelos vistos enganei-me. O percurso até ao acampamento foi longo, cerca de uma hora e meia, e confesso um pouco doloroso. Mas valeu pela experiência e por ver o crepúsculo e o anoitecer a caminho do acampamento em Erg Chegaga. A partir de determinada altura, só tínhamos o luar a iluminar-nos e o cansaço fazia-nos imaginar que em cada foco de luz que vislumbrávamos pudesse ser o acampamento. No céu, as estrelas brilhavam, e nós naquela caravana, com um calor que ainda nos colava no corpo, ansiávamos por encontrar um porto seguro. Um dos nossos colegas de viagem, um dos mais martirizados pelo camelo, estava mesmo em desespero de causa, pois o desconforto era já maior do que a aventura.
Foi então que chegámos ao acampamento. Este possuía uma estrutura circular, com várias tendas em redor todas iguais, e ao centro uma maior, que nos serviria de refeitório/restaurante. Quando chegámos o cansaço do dia inteiro era visível em cada um de nós. Só queríamos era comer e refrescar-nos. A americana que seguia connosco e que trabalhava com crianças no Haiti, depois do terramoto, resolveu dizer que a casa de banho era óptima e que tinha papel e tudo. Eu, ingenuamente acreditei, mas logo percebi que ela era de facto uma optimista por natureza.
A casa de banho ficava numa outra tenda distante e tinha duas sanitas sem autoclismo e um alguidar cheio de água, com um pequeno balde. Eu quando vi aquilo, pensei: «Queres aventura…tens aventura! Com tudo o que ela implica…» Era o deserto que queríamos aí o tínhamos…
Depois de comer mais uma tagine de legumes e algumas laranjas frescas, fomos sentar-nos junto à enorme fogueira que acenderam no exterior do acampamento, para ouvir os tocadores de instrumentos de percussão. Parecia tudo perfeito, não fossem eles só terem tocado duas músicas, assim de uma forma meio ligeira, terem começado a cantar e a dançar, e nos passarem os instrumentos para tocarmos.

Em meio de nada, a magia da noite no deserto desvaneceu-se e as pessoas começaram a ir para as tendas descansar. Bastava mais um pouco de interacção connosco e a noite teria sido mais interessante. Quando me levantei, percebi que era fácil perdermos a orientação para a nossa tenda, pois em formato circular e à noite, eram todas iguais. A tenda não tinha grandes comodidades, além dos colchões e da luz da vela, mas dormi descansada tapada com os cobertores, apesar do vento que soprou com intensidade durante a noite.


Logo cedo, depois do pequeno almoço, também ele singelo, com leite e café e pão duro de véspera, com manteiga, voltámos para o camelo, para fazer o caminho de volta. Desta vez pelo menos já não fomos até tão longe, contrariamente ao que o programa da excursão indicava. Por isso, foi com satisfação que vi, após meia-hora de percurso, que o mini-bus já nos aguardava.


A primeira paragem da manhã foi para beber um chá de menta e seguimos para Ouarzazate. Aí existia uma importante kashbah, mas acabámos por não a visitar, optando por circular pelas lojas em volta da mesma e fazer algumas compras, sobretudo as meninas que fizeram bons negócios e regateios.
O almoço foi num restaurante com terraço e desta vez aproveitei para provar a Tagine de Kefta (mais uma variante de tagine), mas com tomate e carne picada, tipo almôndegas.


No caminho para Marraquexe, passámos pelo exterior de um estúdio de cinema, em Ouarzazate, percorremos vales e montanhas, vimos diferentes tipos de arquitectura, de pessoas e de trajes. A paisagem da montanha do Atlas é sublime, faz-nos sentir pequenos perante a sua imponência. A meio caminho começou a cair uma chuvinha miudinha e a temperatura começou a descer.
Ao entrarmos em Marraquexe, ainda cheirava a terra molhada. Mas desta vez, a entrada na cidade não teve o mesmo impacto que dois dias antes nos causara. Naquele domingo à tarde, na praça acumulava-se já uma densa multidão. Havia gente nos terraços dos restaurantes, nos telhados, parecia decorrer um espectáculo na praça e isso atraíra ainda mais gente do que o habitual. Mas, na verdade aquele caos, para mim, era já organizado. Já não me fez diferença que os carros ou as motas circulassem entre nós, que os grupos folclóricos tocassem e tocassem a troco de uma fotografia e posterior pagamento, que os macacos soltassem para os colos dos turistas, que os encantadores de serpentes tocassem. Passados dois dias aquilo era já a minha realidade naquele local.
Ao jantar voltámos à praça para comer nas banquinhas de comida. No meio daquela gente toda, a comida até parece saber melhor e os preços não ultrapassam os 70 dirahms (equivalente a 7 euros). O que aí me fez confusão foi a pobreza que nos circula, enquanto comemos. Pedintes que nos pedem comida, coma fome estampada nos rostos, a ponto de em actos de desespero, me terem tirado do prato restos de comida ou ossos de frango. Não posso deixar de me impressionar com esta miséria, enquanto nós turistas nos divertimos. Pessoas que têm este tipo de atitude, assemelham-se a animais na luta pela sobrevivência… mas enfim, fiquei triste com esse lado que vi nos dois dias em que jantei na praça.
O resto da noite foi para aproveitar e fazer as últimas compras no souk e aproveitar o espírito de Marraquexe. Como diz Miguel Sousa Tavares, não tenho dúvida que esta é mesmo “a cidade da alegria” e ao que me pareceu também, uma cidade que nunca se cansa, nem dorme.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

De Marraquexe a Tanger: Diário de viagem II


«Cá está outra vez a cidade da alegria» - foi a primeira coisa que pensei. Como é bom voltar a Marraquexe, a mais mágica das cidades do deserto! Devagar, deixamo-nos engolir pela cidade, caminhamos ao lado da multidão, em ruas onde se conquista, metro a metro, o espaço disputado aos peões, burros, carroças, motos, bicicletas, carros. Uma torrente eléctrica de fraca potência filtra a poeira suspensa no ar e caminhamos como se estivéssemos dentro de uma nuvem – de vozes, ruídos, cheiro a lenha queimada. (…) Não deve haver ninguém que fique dentro de casa assim que o Sol se põe: é como se a cidade inteira celebrasse a vida todos os fins do dia.» , Miguel Sousa Tavares, «Sul, viagens»

                                                                           Riad Rahba

O segundo dia de viagem foi todo passado em Marraquexe. Tomámos o pequeno-almoço num cafezinho perto do hotel, onde pude saborear umas apetitosas panquecas marroquinas com mel. As pastelarias exibem abundantes bancas repletas de bolos, o problema é que a maioria deles exibe um amontoado de moscas e abelhas, o que à boa maneira ocidental causa um certo receio.

Depois de um bom pequeno-almoço percorremos a cidade em busca do Museu Dar Si Saïd, mas acabamos por visitar primeiro o Palais Bahia, bastante interessante, sobretudo pela sua arquitectura e pelos jardins e pátios, já que não apresenta recheio ou mobiliário.

                                                                    Palais Bahia

 
Após, a visita encontrámos finalmente o Museu Dar Si Saïd. Este palácio construído no final do séc.XIX, foi convertido em museu em 1932. Entre as suas colecções encontram-se tapetes, armas, cerâmica, trajes e jóias, de grande beleza, pena é que nesse museu desconheçam noções como museologia, museografia ou conservação preventiva. Não devem ter técnicos qualificados, nem ter conhecimento de como se faz uma exposição, ou os cuidados a tomar com os objectos. Não quero ser preconceituosa, mas sim confesso que me fez uma certa confusão ir a um museu e ver as vitrinas todas sujas, com moscas mortas lá dentro, com suportes de esferovite antiquados, má iluminação, e sem contextualização nenhuma dos objectos. Acho que estes pormenores não terão a ver apenas com parcos financiamentos, mas com falta de sensibilidade para pequenos pormenores, que, sim, fazem toda a diferença.

Ao sairmos do museu, deixamo-nos emaranhar no tecido dos souks e deambulámos pelo bairro judaico. No souk comprei chá de menta, para fazer em Portugal e lembrar o sabor de Marrocos, e harissa, especiaria muito picante, feita a partir de uma malagueta, que se encontra no norte de Àfrica. Mas, ao almoço, bastou uma distracção e lá se foi a minha bela compra, deixei ficar as coisas no lugar onde comemos. O que vale é que voltei a comprar mais tarde o mesmo, noutro sítio. O almoço também não foi grande coisa, até porque a omeleta vegetariana que eu e outro companheiro de viagem pedimos, era simplesmente uma omeleta normal… simples!


À tarde com o calor a apertar e sem apetecer ter grandes planos acabei por ficar na esplanada de um café, na Praça Djemaa El Fna, à sombra, com uma brisa leve agradável, saboreando mais um delicioso chá de menta. Matar o tempo, ali me sentia eu. Sem nada para fazer, nada para pensar, nada mais importava ali. As rotinas, o stress, as ansiedades tinham ficado na Europa, ali o que importava era beber o chá, apreciar o ritmo da praça, admirar os turistas que chegavam, o que diziam, o que tinham comprado, desvendar os esquemas de venda que se preparavam entretanto… Ali sentia-me mesmo num mundo à parte, e estava a gostar disso, sem pressas, sem horários a cumprir!

Depois de repousar, demos mais um passeio pelos souks e acabámos por descobrir, num recanto escondido uma venda de antiguidades, a maior parte delas berberes, sendo que muitas poderiam ser mesmo peças de museu, possivelmente as esculturas africanas. Um dos membros do grupo da viagem, que procurava comprar em Marrocos instrumentos musicais, conseguiu ali concretizar duas das suas compras.

Ao fim da tarde, fomos fazer um passeio de “caleche” (charrete) por Marraquexe. Depois de muito negociarmos e de termos empatado o trânsito, porque o homem da caleche decidiu negociar o preço no meio da praça, lá nos decidimos. E ainda bem que o fizemos, pois através deste passeio, descobrimos uma zona nova da cidade, que não tínhamos ainda visto: Gueliz. É aí que se encontram as grandes lojas de marcas internacionais, as grandes cadeias de hotéis, os bares, o casino, o célebre Hotel Mamounia, onde ficou hospedado Winston Churchill entre outros famosos, e os bairros ricos da cidade. Só desta forma descobrimos que Marraquexe tem enormes assimetrias sociais e económicas.

No fim do passeio regressámos à Praça Djemmaa El Fna. Caía a noite e as luzes iluminavam a praça. O movimento intensificara-se e os restaurantes “móveis”, que víramos horas antes a serem transportados e ali montados enchiam-se de gente. No ar, o cheiro a brasa e a grelhados misturava-se com o cheiro da menta e das especiarias.

Jantámos num restaurante da praça e desta vez provei uma Tagine de Frango e um prato de frango com limão. Estava delicioso, apesar do atendimento não ter sido dos melhores. Felizmente, desde que pedimos auxílio a um rapaz na praça, onde comemos no dia anterior, que nos esclareceu como funcionam as gorjetas nos restaurantes, nunca mais passámos vergonhas…

Regressámos ao Riad para nos preparamos e descansarmos para a viagem ao sul que encetaríamos no dia a seguir. Enquanto isso, na praça havia um palco onde actuavam grupos folclóricos, e um pouco por todo lado pequenos grupos se formavam para ver pessoas jogando, dançando, tocando, cantando… Marraquexe é uma cidade que vive intensamente cada momento. Sensação igual só tive em Amesterdão…onde se sente o buliço e o sentimento de liberdade.

terça-feira, 4 de maio de 2010

De Marraquexe a Tanger: Diário de uma viagem - I

A viagem começou a ser preparada com a antecedência de dois meses, planeada cirurgicamente. Marrocos era o destino pensado e desejado, mistura de exotismo e de excentricidade bem às portas de Portugal.

O grupo de viajantes que planeou a viagem, pensou em começar o seu itinerário por Tânger e daí descer por carro até Marraquexe, mas quis o destino e a falta de lugares no avião de 22 de Abril para Tânger, que o percurso tivesse sido o inverso, e ainda bem que assim o veio a ser.

A viagem foi feita na companhia aérea Ibéria, e foi dividida em três voos, Lisboa-Madrid, Madrid-Casablanca e Casablanca-Marraquexe. Apesar de não gostar nada de voar esta era a melhor opção em termos de horários e de preço, e afinal acabou por não custar assim tanto, não fora o facto de ter de me levantar às 4h da manhã.

A aventura começou no exacto momento que pisámos terras de Marraquexe. O primeiro embate começou precisamente quando precisámos arranjar táxi do aeroporto para o centro. Era preciso negociar com o taxista um preço considerado justo e após várias propostas, acabámos por seguir num táxi velho, carregado com as nossas malas e connosco os cinco, completamente espalmados. Logo aí, começámos a sentir o choque cultural e a diferença. Na estrada, aparentemente não havia regras, existiam várias faixas de rodagem em paralelo, em completa anarquia, «tudo ao molho e fé em Deus»… Foi uma sensação brutal, semelhante a jogos de computador, em que vale tudo… mas era aquela a realidade da cidade. Para não bastar, o táxi deixou-nos ficar muito longe do hotel. A ideia dele foi ir ter com um amigo que nos carregasse as malas num carrinho de mão até ao hotel, de modo a que esse pudesse também beneficiar do negócio. Nós, convencidos que o trajecto seria curto, achámos melhor ir a pé… Mas, logo percebemos que numa cidade, sem mapa, nem referências, estávamos nas mãos deles. Assim, percorremos uma distância brutal carregados com os sacos pesadíssimos sem perceber onde ficava o riad onde nos iríamos instalar. Quando chegámos à Praça DJemaa-El- Fna, carregados como íamos, tive a sensação que a multidão de motas e de carros que circulavam, rodavam sempre na minha direcção, num ritmo frenético que não parava. Pareciam obstáculos a ultrapassar. Quando já estávamos perto do hotel, mas com a ideia que estávamos completamente perdidos decidimos perguntar a alguém onde era o Riad Rahba. O rapaz com quem falámos guiou-nos por ruas estreitas e apertadas em voltas e reviravoltas, e finalmente deixou-nos no hotel, a troco de uma simpática gorjeta.

Pensámos que ele de facto nos tinha levado pelo caminho mais fácil, mas cedo percebemos que ele nos tinha levado pelo caminho mais difícil e labiríntico, para que ficássemos mesmo com a ideia de estarmos perdidos. Esta foi a segunda aprendizagem em Marraquexe.

Em seguida, almoçámos num restaurante da praça, no restaurante Chez Chegrouni. Escolhi coscous com frango, os preços eram acessíveis e a comida estava apetitosa. Sentados à mesa no terraço do restaurante, sentíamo-nos a retemperar as forças perdidas à chegada a Marraquexe. Foi tudo muito agradável até pedirmos a conta. O homem que nos atendeu deu-nos um recibo com o preço discriminado e total, mas ia passando pela mesa e vociferando de modo quase imperceptível, que o serviço não estava incluído, mas também não nos adiantou de quanto seria. Ficámos sem saber quanto é que teríamos de pagar a mais, e pagando a soma que indicava no recibo, saímos. Ao fundo do restaurante, o homem estava ofendido connosco e a injuriar-nos, com os outros empregados a olhar-nos de soslaio… Outro problema de comunicação…eles não disseram quanto era o serviço e nós não compreendemos o código cultural.

A tarde foi preenchida com passeios na praça, a ver a mesquita de Koutoubia e a apreciar o ritmo frenético da cidade. É impressionante a quantidade de homens que se vêem sem fazer nada durante o dia, deixando-se ficar nos cafés, ou nos bancos do jardim, entregues ao ócio.

De volta à praça, já se reunia aí muita gente a ouvir os tocadores e dançarinos, os encantadores de serpentes tocando flautas, e os homens passeando macacos que pousavam para as fotos dos turistas.

A Praça Djemma-El-Fna é surpreendente pelo seu movimento, pela energia que dela emana, pelos cheiros intensos que captamos, pela música que entoa constantemente, uma autêntica overdose para os sentidos…Para acabar a noite em beleza, jantámos na praça saborosos pratos marroquinos!

domingo, 18 de abril de 2010

Homenagem a Benjamim

Este post é ainda dedicado ao Encontro de Homenagem a Benjamim Enes Pereira, que se realizou nos últimos dias 17 e 18 de Abril de 2010 na Fundação Calouste Gulbenkian, tendo contado com a presença do homenageado.
Tratou-se de um grande encontro que reuniu um grande número de antropólogos, académicos e especializados em museologia, para falar sobre Antropologia, realçando-se a influência do olhar de Benjmaim Pereira e da sua investigação na compreensão do Portugal rural da segunda metade do século XX.
Sobretudo para os leitores que lêem este blogue no Brasil e não sabem quem foi Benjamim Pereira, devo dizer que fez parte de célebre equipa de antropólogos e etnógrafos composta por Jorge Dias, Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, que deram origem ao Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa. Estes homens, ímpares no seu tempo, calcorrearam o país com um espírito, quase missionário, recolhendo objectos relacionados com a esfera rural do país, documentaram festas e festividades, rituais de sociabilidade, jornadas de trabalho no campo, cantos, cantares e instrumentos musicais, tecnologias tradicionais como a moagem, cadeias operatórias como a do linho e da seda, a arquitectura popular, recolheram dados relativos à gastronomia, ao traje, à economia agrícola e pastoril. Sem a sua recolha, não teríamos a oportunidade de conhecer tão bem a realidade portuguesa dos anos 50 e 60 e a sua cultura material. Do mesmo modo, não teria sido criado o Museu Nacional de Etnologia com as peças e objectos recolhidos pela equipa, não existiria o seu importante arquivo documental e fotográfico, não existiria uma extensa bibliografia dedicada à Etnografia Portuguesa, nem mais tarde, nos anos 80, a colecção da editora D. Quixote, intitulada «Portugal de Perto», (coordenada por um outro grande antropólogo português, de uma outra geração, actual director do museu, Joaquim Pais de Brito).

De uma forma ou outra, todos os que amamos a Antropologia em Portugal, somos devedores a pessoas com esta disponibilidade de entrega a cada projecto de investigação, a cada estudo de caso, a esta aventura de vida, (e que vida recheada de conversas e de trabalho de campo…), o sonho de quem vibra com a partilha do saber etnográfico …

Por todos estes motivos, obrigada Benjamim pelo seu contributo!

segunda-feira, 29 de março de 2010

Aproximações da Subjectividade nos filmes etnográficos

Dentro do filme etnográfico existem alguns factores que permitem uma maior subjectividade e que estão directamente relacionados com a forma do filme, isto é, com os elementos que o compõem. É o caso da voz, das sequências, dos planos, dos takes, do som (música), da cor, dos efeitos especiais e essencialmente do processo de montagem. Os conteúdos, a “mise en scéne” dos personagens, são outros aspectos que podem influenciar o espectador na compreensão do filme. Cabe ao realizador “dosear” essa mesma subjectividade.

Através da voz narrativa, conduz-se o espectador a um sentido preciso, através da forma como fala e como estão organizados os materiais que são apresentados.A voz off, muito utilizada nos filmes etnográficos até à época de 50/60, antes do surgimento do som síncrono, leva-nos constantemente a seguir as direcções que o filme pretende dar, podendo tornar-se, tal como Bill Nichols o afirma, omnisciente e autoritária, encaminhando-se para um reducionismo didáctico. Não podemos esquecer que muitos dos filmes etnográficos realizados nesta época tinham um conteúdo ideológico muito forte, pelo que a voz off, geralmente, reforçava o autoritarismo que o próprio período colonial exigia.

Nesta perspectiva, pode pensar-se que, através da voz que se ouve, é a própria história que nos fala ou a própria realidade que está em causa, embora o que se oiça seja a voz do texto, por vezes tendenciosa, dirigida pelo realizador. Através dela seguimos a descrição exaustiva das acções visualizadas no filme, ou a sua contextualização, mas quase sempre com uma grande rigidez.

Antes do cinema sonoro e da importância da palavra verbalizada, era, sobretudo, a montagem que tinha esse papel manipulativo e permitia abordar a realidade subjectivamente. Apesar de ainda hoje desempenhar um papel importante, a verdade é que este elemento foi essencial na época do mudo. A montagem era “soberana” e a ela cabia sempre a última palavra no que diz respeito à sua significação. Com o cinema sonoro, a montagem tornou-se democrática, actuando em conjunto com a palavra.
A descoberta das inúmeras potencialidades narrativas da montagem, antes mesmo da escola russa, na década de 20, foi feita por David Griffith, que descobriu uma linguagem própria para descrever, contar e dramatizar o mundo. Através da montagem paralela, da montagem “encaixada”, montagem contrastante, montagem rápida e montagem curta, a narrativa nascia no cinema.
Eisenstein, grande cineasta russo, foi dos primeiros a perceber a importância da montagem e a preocupar-se com os efeitos que esta produzia no espectador, no sentido de o transformar, pois o que está em causa não é tanto a captação da realidade por parte da câmara, mas a produção de estímulos nos espectadores. Esses estímulos podem ser subjectivo e por vezes aproveitados no filme etnográfico. O problema do realizador não reside em encontrar o estímulo para evocar uma dada realidade, mas em escolher de uma profusão de estímulos, aqueles que melhor representam a totalidade de uma experiência.

A este propósito gostaria de vos falar de dois exemplos de filmes etnográficos de grande valor, embora não deixem de ser subjectivos: Nannok of the North , de Robert Flaherty e Dead Birds de Robert Gardner.


Nannok of the North, tem sido muito discutido pela sua autenticidade, falsidade, romantismo e qualidades formais. Seguindo os conselhos de David Griffith, no que diz respeito à montagem, Flaherty consegue um considerável efeito subjectivo na estrutura do filme e na forma como aborda a vida de uma família que luta contra a adversidade de um meio físico tão agreste. O próprio tratamento dos detalhes íntimos da vida Inuit não foi esquecido.
Jogando sempre com a tensão dramática e a curiosidade, o realizador absorve a atenção do espectador e envolve-o na trama, colocando-o na expectativa do que vai acontecer na cena seguinte. Num outro trabalho de Flaherty, “ Man of Aran”, rodado na costa da Escócia, o realizador torna a utilizar a dramatização, com o intuito de aprofundar, mais uma vez, o tema da sobrevivência no seu ambiente natural. Utiliza para isso habitantes locais e preocupa-se com todos os pequenos pormenores, incluindo o vestuário, adaptando-o de modo a dramatizar mais a experiência daquelas gentes.

Dead Birds, é um filme de Robert Gardner, realizado em 1961, sobre um ritual guerreiro, entre os Dani da Nova Guiné. Neste filme podemos encontrar uma narração dramatizada, tal como a utilizada por Flaherty. É considerável a montagem paralela, intercalando diferentes acções que parecem acontecer simultaneamente.


Outro dos motivos que podem levar à subjectividade deste filme deve-se ao facto do realizador ter criado personagens, necessidades e problemas que são narradas com muita ficção ocidental. Exemplo disso é a criação de uma relação pai/filho ideal que entrasse em sintonia com os espectadores ocidentais, o que não tem o mesmo significado para os Dani.
A principal subjectividade do filme reside na possibilidade do filme produzir reacções e sentimentos no espectador em relação aos sujeitos retratados, através da encenação que o próprio realizador criou.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Diferentes modos de ver a realidade: O FILME ETNOGRÀFICO


Ao filmar uma outra cultura, uma outra sociedade, o realizador do filme etnográfico, tal como o antropólogo, invade um espaço que não é o seu. Essa situação coloca-lhe riscos, na medida, em que é através do seu “olhar” que a audiência vai compreender essa mesma cultura. A objectividade científica em Antropologia, tem sido de certa forma, contestada exactamente por essas questões inerentes à alteridade. Em primeiro lugar, o antropólogo/realizador é sempre um estranho, que traz consigo padrões culturais bem definidos, por outro lado, destabiliza e cria reacções novas, a partir do momento em que faz impor a sua presença.
Os problemas do etnocentrismo são outro aspecto a analisar, isto porque é difícil analisar o “outro” que é diferente de mim, das minhas maneiras de ser e crer e construir um modelo representativo daquele contexto cultural e transmiti-lo como único e verdadeiro, quando essa verdade depende da minha forma de “olhar”.
Se esta tem sido uma dificuldade sentida pelos Antropólogos em geral, que passam longas estadias entre povos que desconhecem, com o intuito de elaborar monografias escritas, mais sério se torna a nível da Antropologia Visual ao contrário do que se possa pensar.

Ao documentar uma cena em profundidade, o realizador tem a responsabilidade de seleccionar as imagens que lhe parecem mais significativas e que revelam melhor o sentido da cultura abordada.
Assim, ainda que o cineasta do filme etnográfico tenha de escolher as suas imagens, com o mesmo cuidado com que um etnógrafo escolhe as suas palavras num livro de notas, a forma como as imagens são montadas podem produzir resultados mais ambíguos.
Como o defende David MacDougal, a nossa relação como espectadores à narrativa do documentário é mais complexa do que em ficção, já que não lidamos com produtos da imaginação, mas com seres humanos encontrados por um realizador que coexiste com eles historicamente e que nos descreve com base na sua experiência. Por outro lado, o simples facto do filme etnográfico ser dirigido a uma audiência pública mais vasta do que a da literatura antropológica, podendo ser visionado na televisão, em vídeo e noutros meios de circulação, aumenta os riscos da subjectividade.

A partir do momento em que o realizador está entre a sua própria cultura e outra, assumindo o papel de mediador, a função deste é elaborar uma sequencialidade de imagens que estendam a sua compreensão para uma audiência que tem apenas o filme como fonte. É a partir do seu entendimento que influenciará também o nosso “modo de ver”.

Esta tem sido uma questão sempre actual ao longo dos anos, polémica e controversa, que tem fascinado vários cineastas e suscitado várias perspectivas de entendimento: deve ou não o realizador ter um papel activo na construção do seu próprio filme, ou deve apenas registar o que se passa diante da câmara com a máxima objectividade?
Na minha perspectiva, esta é uma questão que, apesar de pertinente acaba por não ter uma resposta definida, porque como tinha referido, a objectividade pura em Antropologia, ou no modo como vemos os outros, é sempre algo questionável. Depende sempre do modo como cada um de nós visualiza os “outros” e o seu mundo.
O modo como eu analiso uma sociedade, enquanto antropóloga não será de certo o mesmo que outro colega de profissão, porque não existem fórmulas certas.

sexta-feira, 19 de março de 2010

A Primavera chega este fim de semana

Apesar do tempo ainda não estar perfeito, a Primavera chega este fim-de- semana, com ela esperemos que chegue também o desejo de renovação, de libertação, e aquele cheirinho a felicidade que tanto precisamos. Deixo-vos com as palavras do Torga carregadas de pureza e de campo...aromatizadas com esse doce aroma da Primavera.
Anunciação
Surdo murmúrio do rio,
a deslizar, pausado, na planura.
Mensageiro moroso
dum recado comprido,
di-lo sem pressa ao alarmado
ouvido dos salgueirais:
a neve derreteu nos píncaros da serra;
o gado berra dentro dos currais,
a lembrar aos zagaiso fim do cativeiro;
anda no ar um perfumado cheiro
a terra revolvida;
o vento emudeceu;
o sol desceu;
a primavera vai chegar, florida.

Miguel Torga

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Filme Etnográfico e a Antropologia

Os próximos posts deste blog serão dedicados à Antropologia Visual. Para tal, irei basear-me num trabalho efectuado em 1998 para a cadeira com o mesmo nome, leccionada por Catarina Alves Costa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa. Espero que possa suscitar algum debate antropológico e algum interesse sobretudo para os estudantes de antropologia que são seguidores deste blogue.

O filme etnográfico é uma das vertentes do documentarismo e está directamente relacionado com a exploração de temas sociais e culturais.
O seu percurso está ligado e determinado, por um lado, à própria evolução do documentarismo, no que diz respeito aos métodos e técnicas nele empregues e, por outro lado, à tradição antropológica que vai influenciando os seus conteúdos e modos de abordagem.
Pode ser entendido como um filme que procura revelar uma sociedade a outra, preocupando-se com a vida física de um povo ou com a sua experiência social. Daí que a maior parte dos filmes etnográficos realizados se interessem muito pelo mundo em “extinção”, pela valorização e preservação do exótico, “viajando” até aos paraísos perdidos das “sociedades primitivas”.

Nesta perspectiva, o filme etnográfico partilha com a Antropologia um interesse comum: o conhecimento de outras culturas e civilizações, de certos aspectos característicos das mesmas (cerimónias, rituais, identidades colectivas), sua compreensão e divulgação.

Desde os primórdios do filme etnográfico que esta ambição de dar a conhecer o desconhecido e desvendar outras realidades foi um imperativo.
Nannok of the North, de Robert Flaherty, realizado em 1922, foi provavelmente o primeiro filme etnográfico a abordar contextos primitivos, nomeadamente a vida tradicional esquimó. Neste filme podemos verificar uma tentativa de observar as atitudes e comportamentos que na figura de Nannok, personagem indígena escolhida, representaria este grupo étnico.

Outra das possibilidades do filme etnográfico, e muito considerada pelos antropólogos, é a utilização da imagem enquanto complemento da teoria.
Foi neste sentido, que a Antropologia Visual, enquanto disciplina académica se desenvolveu (principalmente na América, na Universidade da Califórnia), na medida em que as imagens colhidas no campo ilustravam a realidade que as monografias escritas retratavam.
Todavia, só se pode falar de filme etnográfico quando essas imagens são elaboradas, montadas, de forma a constituírem um todo, deixando de ser um mero material “bruto” que em si corresponderia ao equivalente das notas do diário de campo.
Na escrita, como na imagem, pretende-se a concepção de um “mundo de representações”, uma elaboração de um modelo cultural, embora com leituras diferentes.

O valor do filme reside assim, no facto de poder explorar os vários níveis da experiência humana, com uma simultaneidade que é impossível nos estudos escritos. Numa simples cena, por exemplo é possível observar não só os detalhes físicos de um ritual, mas também o seu sentido psicológico e o seu significado simbólico.
Por outro lado, o filme proporciona o desenvolvimento da Socio-Línguistica e da Cinestesia, abordando aspectos da linguagem não verbal, como os gestos, as atitudes corporais, as posturas, as emoções e permite desvendar aspectos não visuais da cultura, como é o caso dos valores, das crenças e das representações.
Apesar da importância da imagem, o filme não exclui o documento escrito , nem vice-versa, pois, para se compreender o que se observa é necessário que haja um conhecimento prévio, sistematizado, de forma a dar sentido ao que se vê.
No entanto, para muitos autores, entre eles David MacDougall, o filme etnográfico não tem de ser forçosamente antropológico ou realizado em contextos “longínquos”, já que o aspecto intercultural do filme etnográfico não é sempre essencial. Muitos filmes etnográficos podem mesmo abordar as sociedades modernas e industrializadas, reflectindo sobre as nossas próprias “vivências”. O que se torna importante é , essencialmente, o sentido com que os realizadores examinam e retratam aspectos das suas próprias sociedades , de acordo com a forma e contéudo, e que têm paralelo com os utilizados no filme etnográfico. É o caso, por exemplo, de Wieseman ou Rouch, entre muitos outros realizadores, que tentam filmar a sua própria realidade, através de gestos quotidianos dos actores sociais.
Por outro lado, o filme etnográfico pode dividir-se em algumas categorias: imagens em bruto de material etnográfico para investigação; filmes destinados a audiências especializadas e académicas; filmes que destinando-se a uma audiência generalizada, podem englobar-se numa categoria mais geral do documentário; filmes etnográficos para a televisão; filmes educativos, reportagens com interesse antropológico, entre outros.

A definição de filme etnográfico é assim complexa porque permite a criação de fronteiras que, afinal, são arbitrárias. Seja como for, a excessiva generalização da mesma pode ser perigosa, na medida, em que pode confundir o filme que dá conta de padrões culturais com os filmes que se fazem, por exemplo em Hollywood.

Alpha: a história de uma amizade que sobrevive há milénios

Alpha é um filme que conta uma história que se terá passado na Europa, há cerca de 20.000 anos, no Paleolítico Superior, durante a Era do...