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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

«Histórias & Memórias fotográficas» no Seixal


Encontra-se a ser desenvolvido o  Projeto «Histórias & Memórias fotográficas», pelo Ecomuseu Municipal do Seixal, através do seu Centro de Documentação e Informação, que tem como objetivo a organização de uma campanha de doações e empréstimos de fotografias antigas, e a documentação de outras imagens antigas das coleções documentais do museu.
 Por isso se tem fotos antigas lá em casa, sabe as histórias que elas contam, ou conhece pessoas que as possam ter e documentar contactem com o Centro de Documentação e Informação do EMS para empréstimo ou cedência das suas imagens, que serão digitalizadas e posteriormente devolvidas.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Lançamento de «Muitas Coisas e um Pássaro», de Joaquim Pais de Brito



No próximo dia 15 de dezembro realiza-se o lançamento do livro Muitas Coisas e um Pássaro, de Joaquim Pais de Brito, na Livraria Ferin, pelas 18h30, com apresentação da professora de Antropologia Rosa Maria Perez.
Neste livro, o antropólogo Joaquim Pais de Brito, professor emérito de Antropologia do ISCTE-IUL e diretor do Museu Nacional de Etnologia entre 1993 e 2015,  aborda o seu percurso profissional, a partir de cinco motivos: um desenho, uma imagem, um texto, um objeto e um som, percorrendo temas ligados ao teatro,  à literatura,  à etnografia, aos museus, a exposições, aos alunos, refletindo sobre o Portugal rural e urbano, e as particularidades que um antropólogo encontra no trabalho de campo, como um cantar do carro de bois, ou o fado...Um livro, que não sendo de memórias, retrata o percurso de uma vida dedicada à Antropologia, aos museus e às especificidades dos objetos, enquanto agentes de memória. Uma espécie de arqueologia da sua vida, que contribui para a história da Antropologia em Portugal.

O cantar do Carro
«[...] Em Rio de Onor[...] Fui com uma família ao campo carregar um carro de nabos.Muito pesado, bem cheio, era preciso subir uma valeta ou arreto para o caminho e eu ajudei a empurrá-lo e então sou tocado fisicamente pelo barulho  que fazia o eixo do carro. O eixo de madeira é solidário com as rodas, move-se com as rodas e todo o peso do carro assenta no eixo e o atrito produz um som de uma estridência como música eletrónica. », Joaquim Pais de Brito

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Colóquio sobre o Cante Alentejano no Cine Teatro Academia Almadense

Decorreu no dia 26 de novembro, em Almada, no Cine Teatro da Academia Almadense um Colóquio sobre o Cante Alentejano, organizado pelas Cantadeiras de Essência Alentejana, e integrado nas comemorações do 3º aniversário da patrimonialização do Cante Alentejano pela UNESCO. Nele participaram Ana Machado, a moderadora do debate, Luís Maçarico, Dulce Simões e Manuel Martins, do grupo "Em cantos do Alentejo". 

Enquanto moderadora do debate, incentivei a que se pense o cante alentejano não apenas à luz do urge pensar o cante alentejano não apenas à luz do passado, mas do presente e do futuro, criando estruturas para que o mesmo seja potenciador de sustentabilidade, económica e culturalmente. Uma das possibilidades, que já se verifica no Alentejo é aproximar o cante do ensino, para poder ser transmitido aos mais novos, podendo ser criados novos temas, mais coadunáveis com a vida do presente, e reforçar a sua visibilidade nas redes sociais e nos meios de comunicação social.Após o reconhecimento do cante alentejano como património imaterial da humanidade é tempo então para proceder à recolha e análise documental e caraterização desta expressão performativa, de encetar estudos e investigações relacionadas com o Cante na Área Metropolitana de Lisboa, para que o mesmo possa ser registado e documentado, enquanto se mantiver vivo nestes territórios. 
Luís Maçarico refletiu sobre os novos caminhos do cante e os perigos da sua mercantilização, podendo converter-se num produto demasiado turístico correndo o risco de perder a sua genuinidade no futuro.Nesse sentido, apelou à união dos grupos e à cumplicidade dos mesmos em torno da defesa desse património, lutando com veracidade e empenho, para que o mesmo não seja desvirtuado e se mantenha a emoção e o sentimento com que é cantado.
Dulce Simões apresentou uma comunicação que percorreu o contexto histórico do cante alentejano, desde os finais do séc. XIX aos dias de hoje, pós reconhecimento da UNESCO, referindo as suas origens, as suas raízes e o modo como foi institucionalizado pelo Estado Novo, em espetáculos de palco e concursos que enfatizaram a estética do cante. Enquanto o cante performativo apelava ao discurso da identidade nacional, o cante que se ouvia nos campos e nas tabernas, tinha um tom mais interventivo, tendo sido inclusive proibido fora de horas e perseguido pela GNR.
O terceiro interveniente, Manuel Martins, referiu a sua experiência enquanto cantador no grupo "Em Cantos do Alentejo" e como defensor da cultura alentejana na Margem sul do Tejo, sendo também vice-presidente da Casa do Alentejo.








Luís Maçarico declamando poesia

A poetisa Rosa Dias 

III Congresso do Bombo em Amarante


Nos dias 24, 25 e 26 de novembro realizou-se em Amarante o III Congresso do Bombo, onde se discutiram aspetos ligados à cultura e tradição do bombo, nomeadamente na zona do Douro, em Amarante e no Fundão. Participaram grupos musicais do bombo, etnomusicólogos, músicos, e outros interessados na preservação e salvaguarda da prática do bombo.





Grupo Feminino de bombo, «Rosas de Santa Maria de Jazente»






Rui Júnior, organizador dos Tocá a Rufar e Salwa Castelo-Branco, etnomusicóloga

Grupo de Bombos de Lavacolhos, Fundão

sexta-feira, 24 de novembro de 2017



No dia 29 de novembro realiza-se no Museu Nacional de Etnologia uma sessão dedicada a Victor Bandeira, um dos responsáveis pela recolha da vasta coleção  de objetos deste museu, nomeadamente da Amazónia, e um nome incontornável na história desta instituição museológica. A conversa decorre no no âmbito da exposição «De Regresso à Luz». Participam na iniciativa Alexandra Lucas Coelho, Raquel Henriques da Silva e Rita Tomé.
Antes da sessão há uma entrada livre à exposição.
A sessão terá lugar na Biblioteca do Museu, pelas 18h30, com a presença de Victor Bandeira.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Moda do Bombo em Lavacolhos - registos visuais no passado e presente


Moda do Bombo em Lavacolhos, concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco, recolhida por Michel Giacometti, uma prática musical e perfomativa com tradição nesta região, desde o século XIX, que se mantém e se preserva. Uma prática em vias de poder a vir a ser património imaterial. Dois registos visuais da mesma tradição, no passado e no presente.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

III Congresso do Bombo- Amarante

III Congresso do Bombo- Amarante

24, 25 e 26 de novembro 2017

É já este fim de semana que se realiza o III Congresso do Bombo, na Casa de Artes, em Amarante. Com a organização dos Tocá a Rufar, estarão reunidos neste encontro grupos de bombo, pessoas dedicadas ao seu estudo, que refletirão sobre a importância deste instrumento na cultura musical portuguesa e sobre a necessidade de o tornar património Imaterial.


Cante Alentejano: 3 anos de Património Imaterial da Humanidade


Este domingo vamos celebrar 3 anos do Património Imaterial do Cante Alentejano, e esta iniciativa será uma forma de reforçar a importância de salvaguardar este legado, tal como a candidatura à UNESCO preconizava. Vai ser em Almada, no Cineteatro da Academia Almadense e promete ser uma tarde animada, com um debate que se pretende dinâmico e possa trazer algumas questões importantes sobre o cante alentejano 3 anos depois de ser considerado património Imaterial da Humanidade.
Lá estarei na moderação do debate. Conto também com a tua presença!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Masai- Quénia

Nas sociedades possuidoras de gado, o homem quer ter o maior número possível de filhos varões para que trabalhem quando ele já for velho, pois os filhos pertencem à linhagem do pai.
Entre os masais, que vivem entre o Quénia e a Tanzânia , ao contrair matrimónio, a mulher abandona o lar paterno e muda-se para o domicílio do marido, que, por sua vez, teve de pagar ao pai da noiva o preço de duas vacas e outras duas cabeças de gado menor. Os masais não têm limite de esposas, ainda que na prática este esteja determinado pelo número de vacas que o homem possui, que devem proporcionar às suas mulheres todo o leite de que elas necessitem para si e para os seus filhos.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Os Sherpas do Nepal


O seu matrimónio é monógamo mas podem encontrar-se casos de dois tipos de poligamia: poliginia e poliandria. Se a mulher tiver dois maridos isso pode considerar-se como uma conquista feminina, mas no caso dos Sherpas não se trata de um caso de independência mas sim de um interesse social: praticava-se a poliandria – pelo menos até 1983, data em que foi abolida- para evitar a fragmentação da terra e manter intacta a propriedade do clã familiar.
Outra das características que diferencia a sociedade sherpa é a naturalidade com que aceitam a sexualidade pré-matrimonial. Os jovens sherpas mantêm relações sexuais durante a celebração das festividades, que podem ser muitas ao longo do ano. O natural é que as jovens recebam em sua casa, com o consentimento dos pais, a visita nocturna de algum acompanhante. Também é frequente que as adolescentes tenham relações com vários pretendentes. Esta espontaneidade para desfrutar o sexo contribui para que o facto de se ter uma filha solteira não seja uma vergonha ou uma desonra entre os sherpas, é algo que não afecta as perspectivas de um futuro casamento. Contudo, esta liberdade cessa quando se contrai matrimónio definitivamente. Os sherpas solucionam quase todas as zangas com dinheiro. Quando uma viúva não deseja casar-se com o irmão do seu marido e quer ficar independente da sua família política paga o changri-thou-wu, que significa “reintegração do prelo da cerveja consumida na cerimónia da petição da mão”. Também é com dinheiro que se solucionam os adultérios. O esposo infiel paga uma multa. O divórcio é pacífico e obtém-se por um curioso ritual: o marido agarra a ponta de uma corda, enquanto a família da noiva segura na outra ponta. A ruptura da corda simboliza o fim do matrimónio. Se o marido não esteve de acordo com o divórcio, o aspirante a segundo marido da sua mulher paga uma compensação e o casamento dissolve-se assim.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Rituais de Boda

INDIA



Na Índia, por exemplo, o pai da noiva deve oferecer ao noivo e seus familiares grandes quantidades de dinheiro, jóias, televisores e outros objectos de valor. É o dote , destinado a cobrir os custos para manter a futura esposa e que pode conduzir um pai à ruína, se este tiver várias filhas para casar. Este facto está a provocar graves problemas sociais. Um deles é o aborto selectivo de fêmeas, já que muitas grávidas de meninas preferem abortar até terem um rapaz, para não se verem repelidas pelos seus maridos.

Shiava Raja Kumwar, presidente da Câmara do povoado de Sangla e pai de seis filhas, comentou com toda a naturalidade que aos homens de religião hindu lhes ficava muito caro ter filhas porque o costume e a tradição obrigam o pai a pagar o dote: “ Se não o fizer os vizinhos diriam que não tenho dinheiro para as manter. Estou disposto a pagar o dote a qualquer preço, mas compreendo que os homens em geral não queiram ter raparigas para não diminuírem o património familiar, enquanto que os filhos, quando se casam, atraem dinheiro a casa.”

As mulheres indianas aceitam sem nenhuma rebeldia os casamentos combinados de antemão. A própria filha de Shiava Raja Kumwar confirma este costume: “ As mulheres seguem a tradição e aceitam os matrimónios arranjados pelos pais, pois se escolherem o seu caminho individual a família e a sociedade não as vê com bons olhos. Além disso, se uma mulher se casar por amor e se tiver problemas com o marido, os pais não voltam a querê-la em casa nem se responsabilizam por as manter. Um drama maior é o facto de que na Índia muitas mulheres estão a ser assassinadas por problemas relacionados com o dote. Segundo as estatísticas, uma mulher morre diariamente em Deli convertida em archote humano pelo próprio esposo. Como o pagamento do dote pode ser combinado a prazo, quando a família da noiva não pode cumprir o estipulado, o marido começa a maltratá-la até que finalmente o querosene da cozinha “provoca” um acidente caseiro simulado. O viúvo pode então voltar a casar e aspirar a novo dote...

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Homenagem a Jill Dias




Para homenagear Jill Dias e divulgar a sua obra e arquivo - e no âmbito do projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia: "Jill Rosemary Dias: acervo documental, bibliográfico e fotográfico" - realizar-se-á, no dia 17 e 18 de Fevereiro na Fundação Calouste Gulbenkian um colóquio internacional "As lições de Jill Dias. Antropologia, História, África e Academia".O Colóquio será aberto.
Mais informações em: http://www.cria.org.pt

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O Povo – encontros com uma realidade idealizada

Após o 25 de Abril, a nova ideologia de Esquerda dedicou-se também ao estudo do povo e à divulgação e preservação das suas tradições. O povo transformou-se numa entidade mítica, redentora, ao qual se devia levar a cultura, os conhecimentos por ele produzido.
“ Temos obrigação [ afirmou José Mário Branco] de ir às raízes culturais do povo português, pegar nelas, trabalhá-las muito e devolvê-las ao povo com os seus conteúdos avançados para a frente e inovando aquilo aquilo que tivermos de inovar em função dos interesses da luta. A questão é esta: nós não temos que nos inssurgir contra o vira; temos de nos insurgir contra o populismo que, para mim, é pegar nas formas adulteradas da arte popular e devolvê-las ao povo(...) Nestes casos, o que é que estamos a dar ao povo? Estamos a dar ao povo abortos que a burguesia fez com a cultura, em vez de se estar a dar aquilo que lhe pertence e que lhe tiraram.”
Podemos constatar, que esta ideologia muito diferente da do Estado Novo se aproximava em alguns pontos do discurso da construção da Nação de Salazar, na medida em que o povo continuava a ser alvo de um ensinamento, sendo esse conhecimento transmitido pelas elites culturais - pela burguesia no estado Novo, e pelas elites intelectuais de Esquerda, no pós 25 de Abril. Uma espécie de ideal romantizado do “bom selvagem” continuava a reflectir-se no “povo”, o qual permanecia em estado puro e atrasado.

Neste contexto, Michel Giacometti apelou para o nascimento de uma cultura nacional e para o estabelecimento de condições que favorecessem esse desenvolvimento. Para isso seria necessário, segundo as suas palavras, que deixasse de “subsistir a subalternização social e cultural de vastas camadas da nossa população” , existindo um sentimento identitário mais forte que conferisse ao folclore uma expressão nacional, e não um “refúgio da criatividade popular”.

O povo é assim o ponto de referência de cantores e músicos, ditos de intervenção, como é o caso de José Freitas Branco, José Afonso, Vitorino, José Barata Moura, José Carlos Ary dos santos, entre muitos outros.

José Afonso, afirmou que preferia “cantar canções de folclore a partir de uma recolha tão conscienciosa e documentada quanto possível, e só esporadicamente tentaria musicar um ou outro poeta...”
O desejo desta elite de esquerda é deste modo, recolher as bases da cultura popular e devolvê-la ao povo, de forma a que este dê valor ao que lhe pertence e com este desejo partem pelo país em busca de um povo etnográfico, de uma realidade idealizada.

Foram várias as iniciativas que se efectuam neste período revolucionário, de recolha e divulgação da cultura popular, principalmente no campo musical. Uma das iniciativas foi a do ALMANAQUE- Grupo de Recolha e Divulgação da Música Popular da Juventude Musical Portuguesa, surgido em 1975, aquando da cisão do antigo Coro da Juventude Musical Portuguesa, que teve como finalidade divulgar “ a verdadeira música popular portuguesa”, através de recolhas directas no campo. Segundo depoimentos registados na época o seu objectivo era acabar com “ a prostituição da música popular”, denunciar as adulterações, divulgar o verdadeiro folclore “em prol da cultura popular”.
A cultura popular torna-se assim, o leitmotiv de uma militância cultural, e a expressão pura da “portugalidade”.

Para além do grupo Almanaque, outros grupos surgem com os mesmos objectivos. É neste contexto que surge o P.T.C (PLANO TRABALHO E CULTURA), coordenado por Michel Giacometti, no âmbito do Serviço Cívico Estudantil, cuja finalidade era construir um Museu do Trabalho, onde o povo tivesse um papel de destaque, e pudesse ser representado, tal como ele era, testemunhando a vida e a luta do povo.
No Verão de 1975 reuniram-se 124 jovens estudantes pré-universitários, com o objectivo de uma recolha nacional de tradições populares, incluindo objectos de cultura material, cantos e danças, instrumentos musicais, literatura oral, medicina popular, bem como campanhas de educação sanitária, programas de animação sócio-cultural entre outros. Ao todo foram formadas 32 brigadas, nas quais os jovens, agrupados em equipas de quatro elementos, permaneciam cerca de 3 semanas em cada lugar previsto.
Tratou-se da maior “ Missão Etnográfica” alguma vez realizada em Portugal, na qual os jovens na presença das massas populares “in loco” tomaram contacto directo com o povo e com a cultura rural, através do canto ou colaborando nos trabalhos agrícolas. Partiam com uma ideia de povo que nem sempre encontravam, debatendo-se com muitas dificuldades no terreno, nomeadamente as logísticas, não sendo muitas vezes fácil a sua actuação. Uma das vozes anónimas presentes nesta acção definiu a sua experiência do seguinte modo:
“ O SCE não interessa a ninguém, quer dizer, poderá interessar, relativamente ao meu caso, e eu acho que sim, a uma valorização pessoal que eu acho mesmo que se tem, porque eu, por exemplo é a primeira vez que estou numa aldeia sem luz, sem água canalizada, sem instalações sanitárias, sem nada daquilo que temos em casa, portanto, penso(...) que só nesse ponto, valorização pessoal, é que se poderá ter algum proveito, mas não para as populações em que estamos, para nós próprios, só assim, mais nada.”

Deste encontro com o povo, surgiu o acervo etnográfico que deu origem à colecção do Museu do trabalho, com cerca de 1200 peças, que viria a ser inaugurado em Setúbal. Este museu veio segundo as palavras de Giacometti, preencher uma lacuna deixada pela política museográfica do Estado Novo e surgiu como uma crítica cultural.

Giacometti, é deste modo, um nome que não pode ser dissociado deste período conturbado e agitado que Portugal viveu, reflectindo sobre a nossa cultura de uma forma apaixonada, começando como um colector solitário e transformando-se num colector colectivo com uma militância cultural importante e destacada .Com a sua pesquisa pôs em causa toda uma herança salazarista e renovou o universo camponês. Juntamente com Lopes Graça, e outros intervenientes, proporcionou uma leitura mais reivindicativa do Povo Português.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A importância da Esquerda Popular na Revalorização da Música Tradicional, no Pós-25 de Abril

Com o 25 de Abril de 1974 operou-se no país um conjunto de modificações, de efervescências políticas e militâncias, que acabam por influenciar também o estudo da Cultura popular, existindo grandes transformações neste âmbito.
O período revolucionário que se seguiu foi uma contra imagem do Estado Novo. Há um mergulho redentor no povo e assiste-se a uma atitude política da cultura popular orientada para o futuro, para a transformação profunda do regime.
Dois dos nomes mais importantes, nesta viragem política no estudo da Cultura Popular, nomeadamente na música tradicional, foram os de Fernando Lopes Graça, e Michel Giacometti.


Michel Giacometti é um intelectual de esquerda, corso, que veio para Portugal, em 1959,captar os sons e as melodias do nosso povo rural, tendo percorrido o país inteiro de microfones na mão.[1] A pesquisa da música tradicional em Portugal durante a ditadura pouco se fez e a existente serviu sobretudo fins políticos, daí que os poucos investigadores nesta área defendessem a existência de uma cultura tradicional decadente.
“ (...) Os estudos da nossa música tradicional não poderiam escapar à situação em que se encontram os estudos da totalidade gnoseológica de que fazem parte. Assim, também aqui o que até agora foi realizado entre nós não ultrapassou a fase da etnografia musical (...)” [2]

Giacometti, veio revolucionar tudo o que neste âmbito se tinha feito anteriormente, e ainda no regime de Salazar, desafiou a ideologia reinante, utilizando tecnologias pouco habituais e procurando um povo, que poucos conheciam existir.
Em 1959, mostrou as primeiras gravações que efectuou em Trás -os Montes, a Fernando Lopes Graça, e decidiu permanecer em Portugal a investigar, pois encontrara uma realidade etnográfica completamente desconhecida.
Esse trabalho viria a mostrar como a política folclorizante tinha idealizado um povo, tendo descoberto lógicas diferentes das preconizadas pelo regime. Segundo este etnomusicólogo, a política cultural oficial que promovia os ranchos folclóricos “era uma maneira de ter na mão organizações populares que podiam ter outro sentido e que assim estavam limitadas a cantar e a dançar um “folclore” que já à partida era deturpado. É por isso que se recolhermos as letras cantadas pelos ranchos folclóricos, vemos que são letras castradas, porque não há dúvidas que o povo a exprimir-se à vontade teria cantado à vontade. Mas o cacique, o chefe do grupo dizia “vocês não podem aparecer assim no festival...”, não só no aspecto social e político eram cortadas, mas também aquelas que eram um bocadinho “apimentadas”.[3]

Do árduo trabalho de Giacometti surgiu o “Cancioneiro Popular Português”, o qual contou com a colaboração de Fernando Lopes Graça, tendo sido concluído em 1981.Para a realização deste cancioneiro Michel Giacometti analisou cerca de 7000 espécimes musicais, sendo cerca de 3000 resultado da sua recolha directa.
Com esta obra Giacometti pretendeu “restituir ao povo português o que lhe pertence de uma herança legítima, nem sempre avaliada justamente como um dos mais preciosos bens do património comum”.[4]
Esta colecção de cantares portugueses revela assim um povo que se assume, que vai abandonando aos poucos os fantasmas do passado, e que se torna mais espontâneo e liberto.
Estão presentes no Cancioneiro canções de todo o país, mesmo das localidades mais remotas, incluindo canções de berço, de morte, de noivado, de festas e de arraiais, de amor e mal dizer, religiosas e de trabalho. Eram, sobretudo os cantos de trabalho, que fascinavam Giacometti, dando a conhecer uma cultura popular assente nas tarefas rurais (sementeira, ceifa, varejo da azeitona, espadelada do linho, etc) , e um canto polifónico que testemunha a solidariedade colectiva.

Nesta perspectiva, a Esquerda põe em causa a geografia simbólica do Estado Novo, descobrindo-se regiões musicais que não se coadunam com as habituais divisões da geografia humana. Diferentes regiões, como o Alentejo ou o Minho, podem estar bem mais próximas em termos musicais do que se pensava, quer pelos ritmos como pelas temáticas expressas nos seus cantos. Esse canto descoberto por Giacometti reforça a ligação do homem rural à terra,aos seus ritos e rituais, ao mundo profano e religioso.


[1] Michel Giacometti, nasceu em Ajaccio (Córsega)em 1929, foi poeta, crítico de arte, actor e director de uma companhia teatral. Fez o curso de Letras e Etnografia e organiza uma missão internacional de estudos do folclore das ilhas do Mediterrâneo em 1956.Morre em Portugal em 1990, deixando na Etnografia Portuguesa, um valioso espólio.
[2] João Ranita Nazaré, Música Tradicional Portuguesa – Cantares do Baixo Alentejo, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1979, p.15
[3] Michel Giacometti, in Voz do Povo, de 25/ 04/ 77
[4] Michel Giacometti, Fernando Lopes Graça (colaborador) – Cancioneiro Popular Português , Círculo de Leitores, 1981, p. 5

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Alpha é um filme que conta uma história que se terá passado na Europa, há cerca de 20.000 anos, no Paleolítico Superior, durante a Era do...