O anthropos é um espaço de reflexão, de pausa e de abertura para os diálogos do pensamento... para a poesia que exala das palavras, para o imaginário que nos delicia e nos transporta à infância, para a literatura, para as viagens... para o lúdico... para as causas reais pelas quais nos devemos afirmar. Convido-o desde já a participar nesta minha primeira aventura bloggista e espero que seja divertido!!
O homem deixou
sua mão na parede
das cavernas
para que tentássemos
decifrar seu coração,
ainda não sabia
que outras mãos
um dia descobririam
mundos,
inventariam máquinas,
abririam as paredes
do céu.
Que nossas mãos
sobre as suas,
nesse interminável,
nesse alfabeto
de genealogias,
não se cansem
de fabricar amor.
Roseana Murray
Poemas para metrônomo e vento, Ed. Penalux
Eu não disse que a poesia dela é linda? Fiquei rendida!
Partilho hoje aqui no blogue uma poesia dedicada a
Campo Maior, dita pela grande poetisa Rosa Dias. Imagens captadas em 2012, na
Casa do Alentejo, por Ana e Catarina Machado, para um curso de verão, de
Registo Oral, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
A poesia de Rosa Dias
tem como principal mote o Alentejo, com particular enfoque Campo Maior, de onde
é oriunda. Os seus poemas são como retratos de paisagens, havendo quem lhe
chame mesmo de “poetisa paisagista”, pois Rosa Dias ilustra os seus poemas com
vivas pinceladas de cores, cheiros e sonoridades. Tudo na sua poesia é
sensorial, como a autora que os escreve. Ao lê-la facilmente nos transpomos
para um Alentejo pintalgado de flores, cegonhas e searas verdes, de casas
branquinhas pela cal, com cortinas de riscas e janelas de ferro forjado.
Ouvimos as animadas saias, o som das castanholas e o toque da pandeireta, os
cantes da mocidade, rodopiando no baile até ser dia, sem parar. Provamos
deliciosas iguarias como a cericaia, a broinha e tortilhas, saboreamos um
gaspacho e um prato de migas, bebemos um café de “sculatera” e aquecemos os pés
sobre as braseiras de uma camilha. Recuamos a um tempo passado repleto de
memórias e lembranças familiares da Rosa ainda menina.
Neste
sentido, para a Rosa Dias se o Alentejo é paisagem, é também tradição,
descrevendo-nos com rigor a arte de um povo, os seus hábitos e costumes,
realizando, como o afirmou Luís Maçarico, uma Etnografia da Memória através da
sua poesia.
Ao lembrar
os tempos de outrora, dá-nos a conhecer assim um modo de vida passado, uma vida
alicerçada pelos trabalhos árduos do campo, pelo convívio dos serões em
família, “em que se repousava a fadiga”. Retoma ditos e modos de falar de
antigamente, descreve as festas de Campo Maior, com as suas flores coloridas
que fazem lembrar um jardim, e enaltece a expressão de arte deste povo. «Chegam
floridas as festas, trazendo a cor, o bulício» e a vida a Campo Maior. Nas
ruas, cheira a flores e a café torrado, e soam as animadas saias que põem o
povo a cantar.
Nos seus
poemas homenageia-se também a força e valor do homem alentejano, o seu saber
empírico que contrasta com os conhecimentos das cátedras, conhecimento gravado
nas mãos de trabalho que semeiam e colhem o pão e tratam a terra dura.
Enaltece-se a coragem das ceifeiras nas suas difíceis condições de vida,
trabalhando sob um sol tórrido, escondendo a dor e o sofrimento numa cantiga, e
denuncia-se este triste fadário das gentes do Alentejo, em tempos que já lá vão,
porque hoje o tempo é de mudança, “hoje o fado é outro”, como nos diz a Rosa.
Apesar de
não ter tido tempo para estudar mais do que a escolaridade obrigatória quando
era menina, a poesia de Rosa Dias não se podia aprender, senão na vida. Nada do
que escreve se aprenderia numa cartilha, nem nos manuais de literatura. A sua
sensibilidade, o seu olhar apurado, a sua experiência de vida traduz-se em
vários apontamentos poéticos, insurgindo-se contra as injustiças, apregoando
valores de solidariedade e fraternidade, gritando as verdades que não consegue
calar.
A sua poesia
é assim também um modo de afirmação das suas crenças, do seu desejo de
liberdade, de expressar o que é, e o que sente, sem amarras, nem restrições. É
a voz de uma mulher que sabe o que quer e sabe agarrar as oportunidades, como
nos demonstra no seu poema «Eu quero»: “ Eu quero soltar este grito sufocado/
Molhar meu rosto com a lágrima da alegria/Dizer o verso pelo tempo aprisionado/
E gargalhar por enfim chegar o dia”.
Cai a noite no Alentejo, Cai a noite devagar, Cai a noite no Alentejo Pouco a pouco com vagar, As horas perdem-se no tempo E os campos cão ficando mais sozinhos. Cai a noite no Alentejo Cai a noite devagar No céu um manto rosado Parece a planície abraçar. Solitude, ermo, deserto, campos sem ter fim, É assim meu Alentejo Que canta só para mim!
Enquanto as palavras fermentam na cabeça...deixo ficar um poema para esta tarde de Verão do poeta Pessoa:
No entardecer dos dias de Verão, às vezes, Ainda que não haja brisa nenhuma, parece Que passa, um momento, uma leve brisa Mas as árvores permanecem imóveis Em todas as folhas das suas folhas E os nossos sentidos tiveram uma ilusão, Tiveram a ilusão do que lhes agradaria... Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem! Fôssemos nós como devíamos ser E não haveria em nós necessidade de ilusão Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida E nem repararmos para que há sentidos ... "