terça-feira, 23 de novembro de 2010

O discurso “Folclorizante” do Estado Novo


Os próximos posts deste blog irão dedicar-se ao estudo da música enquanto expressão da cultura popular, dando a conhecer quais os discursos existentes no antes e depois de Abril de 1974 em relação à música popular portuguesa e quais os nomes que se destacaram dentro dessa pesquisa musical.


Durante o Estado Novo, existe um discurso que implementa ao País uma construção da “portugalidade” tradicional e conservadora, assente nas características genuínas de cada região, o que confere a Portugal uma espécie de “manta de retalhos”, onde cada região teria uma cultura muito própria, com tradições e costumes peculiares. Jorge Dias é quem afirma “ A cultura nacional é um curioso fenómeno do espírito colectivo e resulta da combinação de muitos elementos.”[1]
Essa diversidade regional, geográfica, social e cultural assenta, no entanto, em características comuns, definindo no seu todo o povo português, que é visto, essencialmente, como sendo rural, caracterizado pela brandura de costumes, um misto de sonhador e homem de acção ,imaginativo, bondoso, alegre, trabalhador.

A cultura nacional é reforçada com este discurso, justificando o nascimento de grupos folclóricos, e a reinvenção de elementos que conferem uma memória nacional mais forte. A política oficial do folclorismo procurava assim, uma projecção do povo estilizado, rudimentar e tradicional, como uma visão estagnada no tempo, em que prevalecia um olhar metafórico sobre uma realidade que não existia e que se procurava perpetuar. Esta folclorização permitia reforçar o aparelho de propaganda do regime, que difundia a ideologia do povo rural e dos brandos costumes.
É dentro deste contexto que surge a FNAT (Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho) precursora da actual INATEL- com um gabinete de folclore, cujas atribuições era conceder subsídios, visitar os grupos já formados, dar-lhes apoio na sua divulgação e produzir relatórios sobre os ranchos folclóricos. A FNAT foi copiada do “Oppera doppo Lavoro” do fascismo italiano, que tinha no seu 1º artigo dos estatutos “fazer esquecer aos trabalhadores a obsessão da diferença entre ricos e pobres.”



Face a esta política, existem vozes que assumem uma posição contrária, apesar da opressão do regime, insurgindo-se contra o folclore tal como ele é organizado. Falo, sobretudo, do compositor Fernando Lopes Graça, conotado com o Partido Comunista Português, que sempre teve uma visão muito crítica sobre o folclore no Estado Novo. Para ele, a música folclórica definia-se como “ a música que está sujeita ao processo de transmissão oral. É produto de evolução e acha-se dependente de circunstâncias de continuidade, variação e selecção”. Nesta definição expressa no V Congresso Internacional do International Folk Council, nos primeiros anos da década de 50, foram excluídas as ideias de imitação, influência, dando um corpo próprio à música folclórica. Para Fernando Lopes Graça as espontâneas e autênticas manifestações do povo, não se coadunavam com o folclore oficial, na medida, em que se tratavam de “criações artificiosas, produtos daquela já anunciada folclorite aguda(...) Os ranchos folclóricos são folclore organizado, e já se deixa ver que folclore organizado é folclore deturpado – deturpação em que há um misto de ingenuidade, de cálculo, de parvoinha competição regionalista ou bairrista”. [2]
O verdadeiro sentido do Folclore consiste no que ele tem de verdadeiro e no que pode contribuir para o conhecimento etnográfico de um povo e não no que ele tem de adulterado, servindo funções propagandísticas O folclore é, no fundo, um capítulo de etnografia e, implicitamente da antropologia – portanto um modo de conhecimento do homem nas suas manifestações artísticas, literárias e culturais tradicionais”.[3]


Para Lopes Graça o folclore do regime tinha uma função, a de fachada política, de cartaz turístico, inundando a rádio, os restaurantes. O folclore ao sair do seu contexto cultural e ser exorbitado de uma forma contínua e constante altera o seu sentido, tornando-se “um puro negócio, pura especulação comercial.”
Lopes Graça idealiza um folclore espontâneo, de formação natural e livre. Para ele só esse é verdadeiro, porque é um testemunho real de uma sociedade que existe, reflectindo os factores económicos, sociológicos, políticos, éticos, etc. Este é um folclore que só se encontra junto das populações rurais, onde ainda não chegaram influências exteriores capazes de deteriorar a força da música popular.
“ (...) há que ir aí para ter a surpresa e a aventura de encontrar uma música popular forte e sadia, agreste por vezes, outras vezes tosca (...) frequentemente de uma simples mas penetrante poesia, rica de aspectos, variada de formas e sempre profundamente enraizada no solo.”[4]

O Nacionalismo defendido pelo Estado Novo estendia-se, deste modo, também à música. Segundo o compositor Lopes Graça, isso constituía um grande obstáculo para a evolução musical portuguesa, servindo apenas para reforçar a ilusão da “felicidade nacional”, sendo vazia em conteúdo e nula como forma superior de arte. A canção popular portuguesa reflectia assim a vida no campo, as tradições, os costumes, a vida quotidiana, os sentimentos (o amor e a saudade), apresentando uma linguagem acessível, com melodias suaves que entravam no ouvido com facilidade. O fado, canção nacional do regime reforçou esta ideologia, do que é ser português.


[1] Jorge Dias, O essencial sobre os Elementos Fundamentais da Cultura Portuguesa , Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1995
[2] Fernando Lopes Graça – Obras Literárias- A música Portuguesa e os seus problemas – Edições Cosmo, Lisboa, 1973, p.256
[3] Fernando Lopes Graça- A Canção Popular Portuguesa – Publicações Europa América – 1974, p.14
[4] Ibidem. p. 41

domingo, 14 de novembro de 2010

« O céu que nos Protege», de Paul Bowles



Na última Feira do Livro em Lisboa, ao percorrer a banca da editora Assírio e Alvim, deparei-me com um livro que me chamou à atenção. O seu nome era «O céu que nos Protege», de autoria de Paul Bowles. Recém-chegada na altura de uma viagem a Marrocos e fascinada pelo deserto e suas aventuras aquele livro, com camelos na capa, sussurou-me ao ouvido:«Leva-me!». Perdoem-me a ignorância, mas a verdade é que nunca tinha ouvido falar do livro e pouco sabia sobre o seu autor, apesar de afinal não ser assim tão verdade!
Quando comecei a ler as primeiras páginas, foi com estranheza que percebi que aquilo que lera,não me soava a novo, eu ia jurar que já eu tinha visto aquelas cenas antes…num filme! E com o evoluir da acção eu verifiquei que era verdade, aquele era o livro do fantástico filme «Um chá no deserto», em inglês «The Sheltering Sky», do realizador Bertolucci, com as magníficas interpretações de Debra Winger e John Malkovich.
Concluída a sua leitura não resisti a rever o filme novamente. E o impacto foi muito melhor…descobri um filme fascinante que não foge muito ao enredo do livro, com uma ou outra diferença na adaptação. O livro é denso, com uma linguagem por vezes um pouco filosófica, com carência de descrições abundantes. Mas, as personagens são muito melhor apreendidas no livro que no filme.
O enrredo narra-nos a história de um casal em permanente viagem, como eles dizem não são turistas, são viajantes, e por isso andam sempre em busca de algo mais. Através do Norte de África, pelas vastas paisagens de Marrocos, até ao deserto, o caminho faz-se de incertezas, acabando por as personagens se perderem completamente. Não se trata de uma história fácil, comum, vulgar. É essa deambulação das personagens, sobretudo de Port e de Kit, que nos arrastam para dentro da história fazendo de nós espectadores da sua vida e da sua ausência. No filme a envolvência torna-se ainda maior, tendo um grande impacto a excelente banda sonora que o percorre, de autoria de Ryuchi Sakamoto.
No filme, o narrador é o próprio Bowles, o autor do livro. E o fim acaba com um dos parágrafos que mais gostei na obra, que nos faz ficar a pensar em como somos breves neste mundo e como tudo o que julgamos garantido tem um prazo limitado. Faz-nos pensar em como é bom aproveitar o que temos e sugar tudo o que a vida tem para nos dar! Uma excelente obra!
«A morte vem sempre a caminho mas o facto de não sabermos quando chegará parece afastar a natureza finita da vida. É essa terrível precisão que odiamos tanto. Mas, como não sabemos, pensamos que a vida é um poço inesgotável. No entanto, tudo acontece apenas um certo número de vezes, na verdade um número muito reduzido. Quantas vezes mais recordarás uma certa tarde da tua infância, uma tarde que é, tão profundamente, uma parte do teu ser que nem podes conceber a vida sem ela? Talvez mais quatro ou cinco vezes. Talvez nem tanto. Quantas vezes mais contemplarás a lua cheia a erguer-se? Talvez vinte. E, no entanto, tudo parece ilimitado». In: «O céu que nos Protege», de Paul Bowles

Dia dos Prodígios


«Ninguém se liberta de nada se não quiser libertar-se»



Foi levada à cena a peça «O Dia dos Prodígios», inspirado no romance de autoria de Lídia Jorge, publicado em 1979, no Teatro da Trindade, tendo sido hoje o último dia de exibição. Excelente interpretação dos actores, cenário fantástico e uma história que sendo simples nos relembra o Portugal rural e interior da serra algarvia nos anos 60/70. A peça foi encenada por Cucha Carvalheiro e teve no seu elenco actores como Carlos Paulo, Maria Emília Correia, Cristina Cavalinhos, Diogo Morgado, Filomena Cautela, Lucinda Loureiro, Luís Lucas e Teresa Faria, entre outros.

A acção passa-se na terra de Vilamaninhos no Algarve e relata-nos a aventura da aldeia no dia em que a aldeia vê uma serpente a voar... Desde aí, a aldeia nunca mais foi a mesma!

http://www.youtube.com/watch?v=QwNUdHFmiig
Não tenho vindo ao blogue, o tempo escasseia, repartido com tantas actividades paralelas...o tempo voa do nosso controle e contudo, ele passa e foge-nos das mãos. Com a vida mais agitada do que o habitual é normal que não sobre tanto tempo para escrever, mas logo que possa quero retomar a actividade normal de bloguista aqui no Anthropos, pois o que não faltam são temas para apresentar aqui e para reflectir. Conto com vocês aí do outro lado, para continuarem a ler os meus posts e contribuírem com os vossos comentários, porque isto só faz sentido se alguém ler...
Vamos esperar por tempos melhores!

Cai a noite no Alentejo


Cai a noite no Alentejo,
Cai a noite devagar,
Cai a noite no Alentejo
Pouco a pouco com vagar,
As horas perdem-se no tempo
E os campos cão ficando mais sozinhos.
Cai a noite no Alentejo
Cai a noite devagar
No céu um manto rosado
Parece a planície abraçar.
Solitude, ermo, deserto, campos sem ter fim,
É assim meu Alentejo
Que canta só para mim!

De Beja para Lisboa
Setembro 2007

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Comemorações da República: 100 anos depois da implantação



Vivemos tempos difíceis no nosso país, tal como há já 150 anos, 100 anos se viviam, ou mesmo mais… A história repete-se, os processos duplicam-se, os personagens, esses mudaram. Se reflectirmos com atenção, acabamos por perceber que na história do país, pouca coisa muda, são ciclos que se alternam e nunca saímos do mesmo. O período da República, repleto de governos e governantes que caíam sucessivamente, demonstra bem essa instabilidade tão tipicamente lusa… Celebrar 100 anos de República é também celebrar o país que temos… Mas, pessimismos à parte, é um período histórico sem dúvida interessante e que ainda é um pouco desconhecido para a maioria da população. É essa vertente histórica e pedagógica que acho que devemos aproveitar destas comemorações dos 100 anos de República.
Nesse âmbito sugiro a quem ainda não viu as Exposições evocativas da República, patentes na Coordoaria Nacional, e as duas temáticas na Praça do Comércio, e que participe no programa das comemorações, que apresenta diferentes alternativas.



2 de Outubro >
10h00Exposições à Noite (abertas até à meia-noite)Terreiro do Paço e Cordoaria Nacional
10h30Lisboa da Revolução - Visita guiada com o Prof. Doutor Fernando RosasPartida: Miradouro do Alto do Parque Eduardo VII
11h00Autocarro do Centenário (famílias e público em geral)Partida: Praça do Município
14h00O Balão da República Voos cativosTerreiro do Paço
15h00Música Nas Praças (até às 23h00)Ruínas do Carmo, Largo do Carmo, Pateo Siza Vieira, Rossio
15h00Autocarro do Centenário (famílias e público em geral)Partida: Praça do Município
16h00Inauguração da Exposição: Percursos, Conquistas e Derrotas das Mulheres na I RepúblicaBiblioteca Museu República Resistência - Espaço Cidade Universitária
17h00Concerto pela Banda da ArmadaPraça do Império - Belém
18h00Inauguração da Exposição: Leal da Câmara - Caricaturista da RepúblicaHemeroteca Municipal de Lisboa
21h00Incrível Tasca Móvel – A Tasca das Tascas celebra a RepúblicaRossio
21h30Espectáculo multimédiaTerreiro do Paço
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3 de Outubro >
10h00Exposições à Noite (abertas até à meia-noite)Terreiro do Paço e Cordoaria Nacional
11h00Autocarro do Centenário (famílias e público em geral)Partida: Praça do Município
14h00O Balão da República Voos cativosTerreiro do Paço
15h00Autocarro do Centenário (famílias e público em geral)Partida: Praça do Município
15h30A República de EléctricoTerreiro do Paço
16h00Dona Branca, de Alfredo KeilTeatro Nacional de S. Carlos
16h30Inauguração da Exposição: A República de EléctricoMuseu da Carris
17h00Lisboa da Revolução - Visita Guiada com o Prof. Doutor António ReisPartida: Quartel de Campo de Ourique (actual Actual Escola do Serviço de Saúde Militar)
21h00Incrível Tasca Móvel – A Tasca das Tascas celebra a RepúblicaRossio
21h30Espectáculo multimédiaTerreiro do Paço
23h59Espectáculo multimédiaTerreiro do Paço
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4 de Outubro >
0h00Portugal a Banhos 2010, de Joana Vasconcelos (hora a definir)Terreiro do Paço
9h00Cerimónias Comemorativas em LouresLoures
9h00Cerimónias Comemorativas na Margem SulMargem Sul
10h00Exposições à Noite (abertas até à meia-noite)Terreiro do Paço e Cordoaria Nacional
16h00Inauguração da Exposição: Ministros da Justiça na I República – Rostos e legadosPraça do Comércio, Ministério da Justiça - Espaço Justiça
19h00O Balão da República Voos cativosAlameda D. Afonso Henriques
21h00Concerto Comemorativo do Centenário da RepúblicaCentro Cultural de Belém
21h30Grande Baile da República. 100 anos é muito tempoAlameda D. Afonso Henriques, Fonte Luminosa
21h30Espectáculo multimédiaTerreiro do Paço
21h45Extração da Lotaria Comemorativa do Centenário da RepúblicaEmissão RTP 1
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5 de Outubro >
8h45Partida da Corrida e Caminhada da RepúblicaTerreiro do Paço
10h00Início das Cerimónias Oficiais, Chegada do Presidente da RepúblicaPraça do Município
10h00Exposições à Noite (abertas até à meia-noite)Terreiro do Paço
10h05Os Bigodes na Res PublicaPraça do Município
10h30Cerimónia do Hastear da Bandeira ao som de A Portuguesa tocado pela banda da Guarda Nacional Republicana, em uníssono nacionalPraça do Município
10h40Intervenções do Presidente da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, do Primeiro-Ministro e do Presidente da RepúblicaPraça do Município
11h20Impressões do Centenário - impressão das mãos de 100 criançasPraça do Município
11h30Regata do CentenárioPadrão dos Descobrimentos, Belém
12h00Inauguração de 100 Escolas em simultâneo nacionalTodo o país
12h00Cerimónia de Homenagem ao Presidente António José de Almeida seguida de Romagem ao Cemitério do Alto de S. João
13h30Inauguração do Centro de Investigação ChampalimaudZona Ribeirinha de Pedrouços
14h00O Balão da República Voos cativosTerreiro do Paço
14h00Danças e TradiçõesTerreiro do Paço
14h00RepublicArteTerreiro do Paço
15h00Animação no Terreiro do Paço com ateliers de parkour, esgrima artística, ginástica acrobática e Bicicleta da RepúblicaTerreiro do Paço
16h00Lançamento do livro: Relatórios da Revolução de 5 de OutubroPaços do Concelho - Sala do Arquivo
16h00Dona Branca, de Alfredo KeilTeatro Nacional de S. Carlos
16h00Render Solene da GuardaPalácio de Belém
17h00100 minis, 100 anos de RepúblicaCordoaria Nacional
17h00Inauguração da Exposição: EU FUI UMA TESTEMUNHA – O 5 de Outubro em LisboaPaços do Concelho – Galeria de Exposições
21h00O Dia dos Prodígios, de Lídia JorgeINATEL - Teatro da Trindade
21h30Espectáculo multimédiaTerreiro do Paço

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

22 anos depois



Um poema da minha amiga e poetisa Rosa Dias, para assinalar este dia fatídico, um dos mais tristes da minha vida, em que vi o Chiado arder e quase perder a casa, e tudo o que tinha, pois vivia nessa altura em pleno coração da baixa da cidade. Que esse dia nunca mais se repita!



Lisboa fez-me chorar
Mil novecentos e oitenta e oito
A vinte cinco de Agosto
Perdemos todos um pouco
Sofreu Lisboa um desgosto
A parte mais importante
De encanto e comercial
Foi destruida p'lo fogo
Que fez chorar Portugal
Ai essa rua do Carmo
Jamais voltará a ter
O encanto natural
Que o fogo lhe fez perder
Rua Garrett quem diria
Que um dia te via assim
Eu vi o Camões chorar
Podes crer que foi por ti
Ao cimo da rua Garrett
Ouvi um soluçar rouco
Era a Brasileira chorando
Por viver num mundo louco
Rua nova do Almada
Braço esquerdo do Chiado
Ouvi a velhinha calçada
Chorar baixinho o seu fado
O Bairro Alto pressentiu
O que se estava a passar
Pegou na guitarra e fugiu
P'rá Mouraria a chorar
Mouraria pôs o xaile
E como louca correndo
Foi direitinha ao Castelo
Sem crer no que estava vendo
E eu olhei e vi o Marquês
Tristonho e angustiado
Por lhe terem destruido
O Pombalino Chiado
D. José lá mais em baixo
Dizia nesse momento
Mais ruínas para Lisboa
Juntar às do seu Convento
Os pombinhos do Rossio
Com grande emoção sentida
Voaram rente ao Chiado
Num adeus de despedida
Até o nosso turista
Não resistiu e chorou
por ver a desolação
Em que Lisboa ficou
O Tejo tão revoltado
Por ver Lisboa chorar
Afogou o seu desgosto
Nas verdes ondas do mar
E até o Cristo Rei
Mudou sua penitência
Ergueu os braços aos céus
Pedindo a Deus clemência
Todos perdemos um pouco
Neste fogo abrasador
Não houve olhar português
Que não chorasse de dor
Destruiu postos de emprego
Destruiu tanta beleza
Feriu a sensibilidade
Desta gente portuguesa
Lisboa ficou de luto
Já a saudade domina
P'la perda irreparavel
Desta Baixa Pombalina.

Rosa Dias

domingo, 15 de agosto de 2010

15 de Agosto em Lisboa

Todos os anos por esta altura costumo deixar aqui algumas impressões sobre os meus passeios por Lisboa. Na verdade, apesar de ser uma lisboeta de “gema” e de palmilhar muitos dos seus caminhos, em Agosto, a cidade apetece e sabe melhor, só nesta ocasião ponho em dia certos percursos, descanso o olhar em pormenores em que a pressa do quotidiano não permite parar.
Neste dia 15 de Agosto, o objectivo era ir ver a exposição «Corpo – Estado, Medicina, e Sociedade no Tempo da I República»,no Torreão Nascente do Terreiro do Paço já que no domingo anterior tinha ido ver a outra exposição « Viajar. Viajantes e Turistas à Descoberta de Portugal no Tempo da Primeira República», no Torreão Poente - de qual aliás gostei muito porque aborda o tema da viagem, dos primeiros turistas estrangeiros em Portugal e do nascimento do lazer entre os portugueses, das praias, das termas, do ritual de viajar e partir de casa, dos meios de transporte utilizados na época.

Ao chegar ao Terreiro de Paço tive a oportunidade de ver no Tejo algumas embarcações tradicionais, que se juntavam possivelmente para integrar a regata do «Atlântico Azul», entre as quais lá ia o bote de fragata «Baía do Seixal», sempre tão gracioso a navegar no Tejo…


A exposição «Corpo – Estado, Medicina, e Sociedade no Tempo da I República» é bem mais pequena do que as anteriores que já vi, inseridas nas comemorações da Proclamação da República, mas igualmente interessante, por retratar a história da medicina em Portugal no séc. XX, exibindo instrumentos médicos, fotografias, e até cenas um pouco macabras, de filmes antigos que nos mostram operações feitas na década de 10/20, horripilantes, em que os pacientes praticamente não têm anestesia, e são verdadeiramente esquartejados de forma brutal. Apesar de um documento precioso, não recomendo para quem tem o estômago sensível. No geral, é uma exposição mais especializada do que as restantes, mas vale a pena visitar.
À tarde, depois de uma boa açorda de camarão na Portugália, o objectivo era ver uma outra exposição no Carmo, também sobre a República, mas alusiva à educação, no Palácio Valadares, tal como vinha anunciado na Agenda Cultural. Mas, o nº32, como vinha publicado não corresponde ao Palácio Valadares, mas sim à Guarda Nacional Republicana, e o mesmo, que em tempos foi a Escola Secundária Veiga Beirão, onde andei do 7º ao 9º ano, estava fechado, sem quaisquer indícios de exposição. Ainda fui perguntar à GNR, se sabiam de alguma coisa, mas coitados dos militares ficaram a olhar para mim embasbacados.
Resultado, não vi a tal exposição sobre a educação, mas deixei-me ficar a saborear uma magnífica esplanada no Rossio, a pôr a conversa em dia, que sabe sempre tão bem. Por coincidência, apanhei ainda o final da última etapa da Volta a Portugal em bicicleta, no Rossio, a qual foi durante muitos anos um ponto alto das minhas férias de verão, entretendo-me a seguir com curiosidade o percurso do Joaquim Gomes, esse célebre corredor.
Um dia bem passado para desanuviar do stress.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Poesia numa tarde de verão


Enquanto as palavras fermentam na cabeça...deixo ficar um poema para esta tarde de Verão do poeta Pessoa:


No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ... "

Fernando Pessoa

sábado, 7 de agosto de 2010

Almada by night

Vestígios fotográficos de uma caminhada noctuna entre Cacilhas e o Ginjal. Noite quente com bonitas vistas sobre o rio, com a ponte iluminada, e na outra margem a cidade cintilando, com a magia de uma noite de verão. Pelo caminho, muitas esplanadas, restaurantes giros e interessantes, copos de vinho branco e petiscos. Um Ginjal encalhado entre ruínas, abandonos e recantos a lembrar as ilhas gregas. Valeu a pena, foi uma noite diferente...a dar a corda aos sapatos!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Poesia para lembrar o deserto da Tunísia

Este é um momento de pausa, uma espécie de stand by na minha actividade bloguista e no meu gosto pelas palavras e pela descoberta, que tenho procurado partilhar aqui sempre que posso. Não tarda passará esse período, mas neste momento não há quase espaço para mais nada...Em breve, espero voltar a carregar este blog com mais colorido e mais actualidades. Para já deixo ficar um poema do Luís Maçarico que me faz lembrar de um país maravilhoso: a Tunísia.

LONGE

Tudo me diz que estou longe
Mas não é verdade!
O deserto sempre foi o lugar
Da minha infância!
Por isso, na direcção dos oásis
Saboreio o silêncio.
Procuro uma romã que supere
As palavras em doçura
E claridade. Não estou longe!
Esta poeira é envolvente!


De tão cru, o sol apaga lembranças
E germina esquecimentos.
O meu destino, são os incontáveis
Grãos que semeiam o Nada.
Este horizonte infinito de ilusões
O céu de areia de certas tardes.


Estou longe, dizem-me alguns
Sinais. Mas é tão perto, a minha
Casa: Poema futuro, luminosa
Oliveira, manhã desejada!



Luís Filipe Maçarico

Alpha: a história de uma amizade que sobrevive há milénios

Alpha é um filme que conta uma história que se terá passado na Europa, há cerca de 20.000 anos, no Paleolítico Superior, durante a Era do...