domingo, 20 de fevereiro de 2011

«Diários Gráficos em Almada – Não somos desenhadores Perfeitos» - exposição no Museu da Cidade de Almada

Trata-se de uma exposição notável. A mostra apresenta trabalhos de 30 autores diferentes, que têm em comum o gosto pelo desenho, embora com formações e percursos profissionais muito distintos, integrando desde médicos, arquitectos, professores, designers, artistas plásticos, geólogos e antropólogos, entre outros.
Dizem que não são desenhadores perfeitos, mas estes diários gráficos são verdadeiras obras de arte! Cadernos de viagem, de registo diário, de apontamentos de observação da paisagem, de pensamentos íntimos ou divagações, de desabafo de experiências e vivências, estes cadernos são mais do que um acessório prático de uso quotidiano, eles são para muitos dos artistas representados um vício, sem o qual não passam. Um caderno dá origem a outro, e outro e outro…
Tal como a palavra, o desenho é aqui forma de expressão que diariamente fixa o pensamento do autor. Podem não ser desenhos perfeitos, mas são únicos e irrepetíveis, têm valor de testemunho. Acompanham os autores como uma segunda pele, uma forma de memória dos espaços e lugares.
Gostei sobretudo da forma como a exposição se apresenta, organizada por autores e com os cadernos arrumados em gavetas. Para Eduardo Salavisa, comissário da exposição , esta dimensão permite « realçar o lado pessoal e íntimo desse objecto que foi concebido, pela sua forma e estrutura para ser visto só pelo próprio e a quem ele quiser mostrar». Neste sentido, ao abrirmos cada gaveta, deparamo-nos com o desconhecido, com a surpresa do que vamos encontrar e entramos numa relação muito pessoal e intimista com o autor descobrindo objectos que são muito seus e que nos vão sendo revelados através da nossa procura. Por outro lado, reforça o simbolismo das obras que se deixam “escondidas na gaveta”, que não são normalmente exibidas ou publicadas. Aqui é o visitante que toma a decisão de revelar e tornar visível esses objectos recatados.
A exposição encontra-se patente ao público até dia 16 de Abril.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Oficina SerSentir no CCB

Sábado dia 12 de Fevereiro, ocorreu mais uma notável oficina no CCB, inserida no Modo de Aparição das Artes, no Espaço da Fábrica das Artes. Desta vez foi uma oficina de ilustração e literatura ministrada por dois nomes célebres nesta área, sobretudo no norte do país, onde é mais fácil encontrar trabalhos seus, falo de Gémeo Luís e Eugénio Roda. O primeiro é ilustrador, e o segundo escreve os seus livros.
Nesta oficina, foi possível transformar sacos pretos do lixo em obras de ilustração... a experiência foi interessante e apesar de não ter tido resultados brilhantes na minha obra de arte, acho que o mais interessante foi mesmo o processo criativo que os dois autores nos transmitiram, assim como o seu entusiasmo contagiante...Um dia muito bem passado!



RTP - ORLANDO RIBEIRO

RTP - ORLANDO RIBEIRO

Orlando Ribeiro e os estudos olisiponenses


Foi professor universitário, nasceu em Lisboa em 16 de Fevereiro de 1911. Estudou nas Faculdades de Letras e de Ciências e no Instituto Superior Técnico de Lisboa, tendo-se licenciado em História e Geografia. Entre as muitas actividades que ocupou em vida, foi leitor de português na Sorbonne em 1937-1940, director e organizador dos Centros de Estudos Geográficos da Universidade de Coimbra e de Lisboa.
Foi discípulo de José Leite Vasconcelos, tendo ajudado na compilação dos volumes póstumos da obra “Etnografia Portuguesa”.
Destacam-se as suas obras mais importantes: Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico (1967 e Atitude e Explicação em Geografia, de 1960, entre muitas outras.

No artigo “ Evolução e Perspectivas dos Estudos Olisiponenses” – Lição inaugural da cadeira de “Estudos Olisiponenses” da Universidade de Lisboa, Orlando Ribeiro elabora uma breve síntese sobre os estudos mais importantes que se foram fazendo desde o século XV até à actualidade sobre a cidade de Lisboa, apontando o seu carácter pouco rigoroso e objectivo, por serem ou demasiado técnicos ou demasiado amadores, não dando uma noção real e concreta da cidade.

Este texto é datado de 1945, década em que houve a institucionalização dos Estudos Olisiponenses na Universidade de Lisboa.
Para Orlando Ribeiro, esta área do conhecimento não é uma ciência feita, mas uma matéria sobre a qual professores e estudantes poderiam debater, investigar e chegar a novas conclusões. Esta nova disciplina seria integrada na área da Geografia Humana.

Os estudos de Geografia urbana em Portugal tinham-se iniciado antes, em meados dos anos vinte, com Amorim Girão, com o estudo das cidades de Viseu e Coimbra, e Mendes Corrêa, que tinha instituído a Geografia no Porto, e que se começara a interessar por estudos relativos à cidade do Porto.
São trabalhos bastante importantes, mas que não ganham ainda muito destaque num País essencialmente rural, onde as cidades parecem pouco relevantes.
É depois da estadia de Orlando Ribeiro em Paris, que o autor se começa a dedicar ao estudo das cidades, nomeadamente à cidade de Lisboa e ao modo como esta vai alterando a sua paisagem e estrutura com o crescimento que começa a revelar.

A definição de cidade para orlando Ribeiro, é marcada pela forte presença humana na natureza. Trata-se de uma forma de civilização moderna, um organismo vivo, que contrasta do campo pelo pulsar acelerado da vida e pelo processo de mudança e transformação.

A cidade de Lisboa é vista como uma cidade com um crescimento exponencial, a qual sofre modificações profundas, alastrando as suas periferias e expulsando do seu centro a população que aí vivia. A cidade torna-se segundo as suas palavras, demasiado moderna e ruidosa, deixando de existirem espaços de lazer, em virtude do progresso.
A cidade vê assim, aumentar o número de residências, e as indústrias que se localizam junto ao estuário do Tejo e na Margem Sul.
Lisboa, é uma cidade onde se começa a estar mal, a viver-se “ num ambiente ruidoso e inquieto e afastado da natureza e de uma vida tranquila e ordenada”.

O trabalho e os modos de viver distinguem os vários bairros da cidade e dão-lhe uma autonomia própria, é o caso por exemplo da Madragoa que se associa a varinas e embarcadiços, e que contrasta da Lapa, pela aristocracia que aloja.

Os arredores, assumem um papel muito importante na cidade, tendo a ver com três factores: residencial, industrial e de veraneio (ex. Estoril, Cascais).

Orlando Ribeiro reconhece que o estudo de uma cidade, como a de Lisboa, abarcaria outros assuntos do que os tratados por ele, principalmente os de cariz sociológico, como é o caso da vida espiritual, da expressão artística, ao seu reflexo na literatura e no pensamento do país.

Nos anos 50, as cidades são integradas no campo da Geografia cultural, começando a existir ligações com a Antropologia, a Etnologia e a Sociologia. Começa-se a dar importância aos pormenores e vivências citadinas, começando a existir um conhecimento directo dos espaços urbanos. Estudam-se os bairros típicos, onde o convívio e a interdependência entre os seus habitantes são uma constante e alarga-se o interesse pelas periferias, como espaços que se constroem para fazer face às necessidades de crescimento das cidades, e nas quais as redes de interdependência se vão perdendo, transformando-se em pólos dormitórios.


Entre 1966 e 1972 Os estudos das cidades ocupam muito Orlando Ribeiro, o que coincide com o boom de Geografia urbana Portuguesa durante a década de 60.
O interesse do autor decairá um pouco nos começos dos anos 70, interessando-se novamente nos anos 80, que ficarão marcados pelos trabalhos que desenvolveu em Évora e Toledo.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Homenagem a Jill Dias




Para homenagear Jill Dias e divulgar a sua obra e arquivo - e no âmbito do projecto financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia: "Jill Rosemary Dias: acervo documental, bibliográfico e fotográfico" - realizar-se-á, no dia 17 e 18 de Fevereiro na Fundação Calouste Gulbenkian um colóquio internacional "As lições de Jill Dias. Antropologia, História, África e Academia".O Colóquio será aberto.
Mais informações em: http://www.cria.org.pt

domingo, 30 de janeiro de 2011

Visita ao Moinho de Papel- Leiria

Iniciaram-se hoje um ciclo de visitas denominadas «No Trilho dos Moinhos», promovidas pelo Ecomuseu Municipal do Seixal, tendo sido a primeira ao Moinho de Papel em Leiria.
Este moinho foi construído no séc. XV, por autorização de D. João I a Gonçalo Lourenço de Gomide, escrivão do rei. Surgiu em 1411 e foi aqui que se produziu o primeiro papel português (o papel foi inventado pelos chineses no séc. III d.C.) tendo como matéria prima o trapo. Foi também moinho de cereais, mas acabou por ficar fortemente ligado à produção de papel.


Em 1999, a Câmara Municipal adquiriu o edifício do moinho que se encontrava bastante degradado, e a partir de 2003, iniciou as escavações arqueológicas para comprovar que se tratava do moinho original. A partir daí o moinho foi recuperado, graças a apoios europeus, tendo sido aberto ao público como espaço museológico em Setembro de 2009.
A arquitectura do projecto de remodelação esteve a cargo de Siza Vieira, e contou com o projecto museológico de António Nabais.







quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um Feliz 2011 para todos


Vésperas de ano novo…os mesmos gestos de sempre… renovam-se os votos de felicidade junto dos amigos, entopem-se as redes móveis com mensagens carregadas de frases feitas, quase sempre impessoais e repetidas vezes sem conta, ultimam-se as compras para a ceia de reveillon, numa azáfama aos supermercados que arrepia, correm-se as lojas em busca de uma toilette especial, se a noite for de gala…Procura-se uma festa freneticamente, na ânsia do divertimento…porque passagem de ano requer festa e felicidade! E por todos estes motivos temos de estar sempre felizes no dia 31 de Dezembro. É por isso que detesto as passagens de ano. Se pudesse passava directamente para o dia 1 de Janeiro sem passar pelo dia 31, embora eu como todos os mortais proceda aos mesmos rituais mundanos…Mas, não sei há sempre qualquer coisa que me agoniza nesse dia, talvez a pressão para estar exultante, a rejubilar de alegria ou o peso de sentir que não alcancei algumas das metas estabelecidas para o ano que termina. Mas tudo isso faz parte do processo!
Talvez o que me agrade mais nesta coisa da passagem de ano seja a promessa de mudança do costume. Nesta altura todos nós ansiamos por poder mudar alguma coisa na nossa vida e se possível para melhor. Brindemos a essa mudança positiva que nos move e nos faz acreditar que ela é possível, ainda que tenhamos tudo contra nós, a crise financeira, a falta de valores que nos cerca nos gestos do quotidiano, a carência de recursos, a inércia que nos habita … Que essa mudança nos torne mais solidários, mais conscientes das necessidades do outro à nossa volta, nos faça sentir uma pessoa melhor e mais íntegra, nos traga beleza, estabilidade emocional e económica à nossa vida! Que cada um faça os seus próprios votos de mudança e faça o caminho para os cumprir! Quem não precisar de mudar nada na sua vida considere-se um bem-aventurado… ou então é um irreflectido!
Um feliz 2011 para todos! Que consigamos realizar os nossos ideais e materializar alguns dos nossos sonhos.

domingo, 28 de novembro de 2010

«José e Pilar: um amor acima da condição humana»


«José e Pilar» é um documentário de Miguel Gonçalves Mendes, que acompanha os últimos anos de vida de José Saramago, mostrando-nos um lado mais intimista do escritor e da sua relação com Pilar del Rio. Trata-se de um filme inebriante, especialmente para quem gosta do José Saramago e da sua escrita, um testemunho eterno das suas palavras, que nos mostra um homem inquieto, com sede de vida, cuja única ambição, depois de ter sido prémio Nobel e de ter fama e reconhecimento, era apenas possuir tempo… tempo de vida, que se ia esgotando numa ampulheta compassada…tempo para poder escrever, para poder partilhar momentos com Pilar e sua família. Mostra um Saramago, que embora de semblante sempre um pouco fechado, possuía um sentido de humor acutilante e preciso…um olhar para além dos holofotes, das conferências de imprensa, das palestras e conferências, em que se movia em corrupios incansáveis.
Foi um homem incansável nessa corrida contra o tempo que se esgotava, homem apaixonado com um amor por Pilar acima da condição humana, um amor que se expressava no toque, no carinho, na cumplicidade de um abraço, de uma gargalhada. Neste filme, sentimos esse poderoso sentimento que os unia e que os completava, apesar da diferença de idade deles. O filme começa e acaba com Saramago falando directamente para a câmara, com a paisagem de Lanzarote como cenário, dizendo: «Pilar….encontramo-nos noutro sítio». É assim uma dedicatória a essa mulher que chegou à sua vida aos 63 anos, e que mudou para sempre o curso da mesma.
Neste documentário acompanhamos o processo criativo da construção do livro «Viagem do Elefante», o qual veio a ser interrompido pela doença de Saramago aquando do seu internamento em Lanzarote, até ao seu lançamento mundial em 2008. Assistimos assim a um processo de debilidade e recuperação da saúde do autor, e à primeira referência à ideia ainda embrionária da história do livro «Caim», seu último livro.
Vida recheada de viagens, Saramago é um homem do mundo, desse mundo que ele tanto apregoa que está perdido e que é preciso homens que o tornem melhor e que construam um futuro melhor. Todo o seu idealismo, as suas reflexões sobre a vida e a morte, a sua simplicidade na forma de estar se reflectem nestas imagens. Para mim, além de ser um filme belíssimo tem o valor de nos devolver a vida de José Saramago, nem que seja por breves horas. Ao contrário do que ele acreditava, que depois da sua morte o universo não lembraria a sua existência, nós não o esqueceremos… ficam os livros e as suas palavras!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O Povo – encontros com uma realidade idealizada

Após o 25 de Abril, a nova ideologia de Esquerda dedicou-se também ao estudo do povo e à divulgação e preservação das suas tradições. O povo transformou-se numa entidade mítica, redentora, ao qual se devia levar a cultura, os conhecimentos por ele produzido.
“ Temos obrigação [ afirmou José Mário Branco] de ir às raízes culturais do povo português, pegar nelas, trabalhá-las muito e devolvê-las ao povo com os seus conteúdos avançados para a frente e inovando aquilo aquilo que tivermos de inovar em função dos interesses da luta. A questão é esta: nós não temos que nos inssurgir contra o vira; temos de nos insurgir contra o populismo que, para mim, é pegar nas formas adulteradas da arte popular e devolvê-las ao povo(...) Nestes casos, o que é que estamos a dar ao povo? Estamos a dar ao povo abortos que a burguesia fez com a cultura, em vez de se estar a dar aquilo que lhe pertence e que lhe tiraram.”
Podemos constatar, que esta ideologia muito diferente da do Estado Novo se aproximava em alguns pontos do discurso da construção da Nação de Salazar, na medida em que o povo continuava a ser alvo de um ensinamento, sendo esse conhecimento transmitido pelas elites culturais - pela burguesia no estado Novo, e pelas elites intelectuais de Esquerda, no pós 25 de Abril. Uma espécie de ideal romantizado do “bom selvagem” continuava a reflectir-se no “povo”, o qual permanecia em estado puro e atrasado.

Neste contexto, Michel Giacometti apelou para o nascimento de uma cultura nacional e para o estabelecimento de condições que favorecessem esse desenvolvimento. Para isso seria necessário, segundo as suas palavras, que deixasse de “subsistir a subalternização social e cultural de vastas camadas da nossa população” , existindo um sentimento identitário mais forte que conferisse ao folclore uma expressão nacional, e não um “refúgio da criatividade popular”.

O povo é assim o ponto de referência de cantores e músicos, ditos de intervenção, como é o caso de José Freitas Branco, José Afonso, Vitorino, José Barata Moura, José Carlos Ary dos santos, entre muitos outros.

José Afonso, afirmou que preferia “cantar canções de folclore a partir de uma recolha tão conscienciosa e documentada quanto possível, e só esporadicamente tentaria musicar um ou outro poeta...”
O desejo desta elite de esquerda é deste modo, recolher as bases da cultura popular e devolvê-la ao povo, de forma a que este dê valor ao que lhe pertence e com este desejo partem pelo país em busca de um povo etnográfico, de uma realidade idealizada.

Foram várias as iniciativas que se efectuam neste período revolucionário, de recolha e divulgação da cultura popular, principalmente no campo musical. Uma das iniciativas foi a do ALMANAQUE- Grupo de Recolha e Divulgação da Música Popular da Juventude Musical Portuguesa, surgido em 1975, aquando da cisão do antigo Coro da Juventude Musical Portuguesa, que teve como finalidade divulgar “ a verdadeira música popular portuguesa”, através de recolhas directas no campo. Segundo depoimentos registados na época o seu objectivo era acabar com “ a prostituição da música popular”, denunciar as adulterações, divulgar o verdadeiro folclore “em prol da cultura popular”.
A cultura popular torna-se assim, o leitmotiv de uma militância cultural, e a expressão pura da “portugalidade”.

Para além do grupo Almanaque, outros grupos surgem com os mesmos objectivos. É neste contexto que surge o P.T.C (PLANO TRABALHO E CULTURA), coordenado por Michel Giacometti, no âmbito do Serviço Cívico Estudantil, cuja finalidade era construir um Museu do Trabalho, onde o povo tivesse um papel de destaque, e pudesse ser representado, tal como ele era, testemunhando a vida e a luta do povo.
No Verão de 1975 reuniram-se 124 jovens estudantes pré-universitários, com o objectivo de uma recolha nacional de tradições populares, incluindo objectos de cultura material, cantos e danças, instrumentos musicais, literatura oral, medicina popular, bem como campanhas de educação sanitária, programas de animação sócio-cultural entre outros. Ao todo foram formadas 32 brigadas, nas quais os jovens, agrupados em equipas de quatro elementos, permaneciam cerca de 3 semanas em cada lugar previsto.
Tratou-se da maior “ Missão Etnográfica” alguma vez realizada em Portugal, na qual os jovens na presença das massas populares “in loco” tomaram contacto directo com o povo e com a cultura rural, através do canto ou colaborando nos trabalhos agrícolas. Partiam com uma ideia de povo que nem sempre encontravam, debatendo-se com muitas dificuldades no terreno, nomeadamente as logísticas, não sendo muitas vezes fácil a sua actuação. Uma das vozes anónimas presentes nesta acção definiu a sua experiência do seguinte modo:
“ O SCE não interessa a ninguém, quer dizer, poderá interessar, relativamente ao meu caso, e eu acho que sim, a uma valorização pessoal que eu acho mesmo que se tem, porque eu, por exemplo é a primeira vez que estou numa aldeia sem luz, sem água canalizada, sem instalações sanitárias, sem nada daquilo que temos em casa, portanto, penso(...) que só nesse ponto, valorização pessoal, é que se poderá ter algum proveito, mas não para as populações em que estamos, para nós próprios, só assim, mais nada.”

Deste encontro com o povo, surgiu o acervo etnográfico que deu origem à colecção do Museu do trabalho, com cerca de 1200 peças, que viria a ser inaugurado em Setúbal. Este museu veio segundo as palavras de Giacometti, preencher uma lacuna deixada pela política museográfica do Estado Novo e surgiu como uma crítica cultural.

Giacometti, é deste modo, um nome que não pode ser dissociado deste período conturbado e agitado que Portugal viveu, reflectindo sobre a nossa cultura de uma forma apaixonada, começando como um colector solitário e transformando-se num colector colectivo com uma militância cultural importante e destacada .Com a sua pesquisa pôs em causa toda uma herança salazarista e renovou o universo camponês. Juntamente com Lopes Graça, e outros intervenientes, proporcionou uma leitura mais reivindicativa do Povo Português.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A importância da Esquerda Popular na Revalorização da Música Tradicional, no Pós-25 de Abril

Com o 25 de Abril de 1974 operou-se no país um conjunto de modificações, de efervescências políticas e militâncias, que acabam por influenciar também o estudo da Cultura popular, existindo grandes transformações neste âmbito.
O período revolucionário que se seguiu foi uma contra imagem do Estado Novo. Há um mergulho redentor no povo e assiste-se a uma atitude política da cultura popular orientada para o futuro, para a transformação profunda do regime.
Dois dos nomes mais importantes, nesta viragem política no estudo da Cultura Popular, nomeadamente na música tradicional, foram os de Fernando Lopes Graça, e Michel Giacometti.


Michel Giacometti é um intelectual de esquerda, corso, que veio para Portugal, em 1959,captar os sons e as melodias do nosso povo rural, tendo percorrido o país inteiro de microfones na mão.[1] A pesquisa da música tradicional em Portugal durante a ditadura pouco se fez e a existente serviu sobretudo fins políticos, daí que os poucos investigadores nesta área defendessem a existência de uma cultura tradicional decadente.
“ (...) Os estudos da nossa música tradicional não poderiam escapar à situação em que se encontram os estudos da totalidade gnoseológica de que fazem parte. Assim, também aqui o que até agora foi realizado entre nós não ultrapassou a fase da etnografia musical (...)” [2]

Giacometti, veio revolucionar tudo o que neste âmbito se tinha feito anteriormente, e ainda no regime de Salazar, desafiou a ideologia reinante, utilizando tecnologias pouco habituais e procurando um povo, que poucos conheciam existir.
Em 1959, mostrou as primeiras gravações que efectuou em Trás -os Montes, a Fernando Lopes Graça, e decidiu permanecer em Portugal a investigar, pois encontrara uma realidade etnográfica completamente desconhecida.
Esse trabalho viria a mostrar como a política folclorizante tinha idealizado um povo, tendo descoberto lógicas diferentes das preconizadas pelo regime. Segundo este etnomusicólogo, a política cultural oficial que promovia os ranchos folclóricos “era uma maneira de ter na mão organizações populares que podiam ter outro sentido e que assim estavam limitadas a cantar e a dançar um “folclore” que já à partida era deturpado. É por isso que se recolhermos as letras cantadas pelos ranchos folclóricos, vemos que são letras castradas, porque não há dúvidas que o povo a exprimir-se à vontade teria cantado à vontade. Mas o cacique, o chefe do grupo dizia “vocês não podem aparecer assim no festival...”, não só no aspecto social e político eram cortadas, mas também aquelas que eram um bocadinho “apimentadas”.[3]

Do árduo trabalho de Giacometti surgiu o “Cancioneiro Popular Português”, o qual contou com a colaboração de Fernando Lopes Graça, tendo sido concluído em 1981.Para a realização deste cancioneiro Michel Giacometti analisou cerca de 7000 espécimes musicais, sendo cerca de 3000 resultado da sua recolha directa.
Com esta obra Giacometti pretendeu “restituir ao povo português o que lhe pertence de uma herança legítima, nem sempre avaliada justamente como um dos mais preciosos bens do património comum”.[4]
Esta colecção de cantares portugueses revela assim um povo que se assume, que vai abandonando aos poucos os fantasmas do passado, e que se torna mais espontâneo e liberto.
Estão presentes no Cancioneiro canções de todo o país, mesmo das localidades mais remotas, incluindo canções de berço, de morte, de noivado, de festas e de arraiais, de amor e mal dizer, religiosas e de trabalho. Eram, sobretudo os cantos de trabalho, que fascinavam Giacometti, dando a conhecer uma cultura popular assente nas tarefas rurais (sementeira, ceifa, varejo da azeitona, espadelada do linho, etc) , e um canto polifónico que testemunha a solidariedade colectiva.

Nesta perspectiva, a Esquerda põe em causa a geografia simbólica do Estado Novo, descobrindo-se regiões musicais que não se coadunam com as habituais divisões da geografia humana. Diferentes regiões, como o Alentejo ou o Minho, podem estar bem mais próximas em termos musicais do que se pensava, quer pelos ritmos como pelas temáticas expressas nos seus cantos. Esse canto descoberto por Giacometti reforça a ligação do homem rural à terra,aos seus ritos e rituais, ao mundo profano e religioso.


[1] Michel Giacometti, nasceu em Ajaccio (Córsega)em 1929, foi poeta, crítico de arte, actor e director de uma companhia teatral. Fez o curso de Letras e Etnografia e organiza uma missão internacional de estudos do folclore das ilhas do Mediterrâneo em 1956.Morre em Portugal em 1990, deixando na Etnografia Portuguesa, um valioso espólio.
[2] João Ranita Nazaré, Música Tradicional Portuguesa – Cantares do Baixo Alentejo, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1979, p.15
[3] Michel Giacometti, in Voz do Povo, de 25/ 04/ 77
[4] Michel Giacometti, Fernando Lopes Graça (colaborador) – Cancioneiro Popular Português , Círculo de Leitores, 1981, p. 5

Alpha: a história de uma amizade que sobrevive há milénios

Alpha é um filme que conta uma história que se terá passado na Europa, há cerca de 20.000 anos, no Paleolítico Superior, durante a Era do...