domingo, 31 de janeiro de 2010

Exposições em foco

Deixo-vos hoje uma dica sobre uma exposição que vi há uns meses atrás, mas ainda estará aberta ao público até ao dia 11 de Abril. Trata-se da exposição «Índia- Mito, Sensualidade e Ficção», patente no Sintra Museu de Arte Moderna Colecção Berardo. A exposição apresenta três núcleos temáticos, que têm em comum a cultura indiana.

No primeiro grupo podemos encontrar uma fotobiografia de Mahatma Gandhi intitulada «A minha vida é a minha mensagem», apresentada pelo museu já citado em colaboração com La Casa Encendida e a Gandhi Server Foundation. Esta mostra é composta por 60 fotografias, sobre a vida pública e privada de Gandhi, desde os seus sete anos, até ao seu trágico assassinato em Nova Deli. Além das fotografias podemos encontrar também textos originais, citações e alguns documentários, assim como uma reprodução do seu quarto na casa Birla, em cujo jardim foi assassinado, assim como cartas para Tolstoi e Hitler.

O segundo núcleo expositivo muito interessante apresenta a modernidade indiana através de três gerações familiares: Umrao Sing Sher-Gil, amrita Sher Gil, Vivian Sundaram e Navina Sundaram.

Desta forma estabelece-se a relação entre as pinturas de Amrita Sher-Gil e as fotografias de seu pai, Umrao Singh Sher-Gil, um dos fundadores da fotografia na Índia. As obras destes artistas são retomadas nas foto-montagens de Vivian Sunduram, sobrinho de Amrita, neto de Umrao. Neste núcleo torna-se interessante descobrir o que é montagem e o que não é, assemelhando-se quase a um jogo. Eu, que fiz a visita começando pelas montagens, tendo só visto posteriormente os originais, diverti-me a verificar o que parecia inventado nas fotografias, só no fim é que tudo fez sentido, quando descobri as imagens originais. Nada que nós hoje não possamos fazer com as nossas fotografias antigas recorrendo ao Photoshop, mas o resultado foi muito engraçado.

Por fim o último núcleo expositivo é composto por peças da colecção Berardo, antiguidades indianas com referências claras ao culto hindu (pequenas estatuetas, baixos relevos em madeira) e uma série de fotografias documentais de Juan Bécquer, dos anos 50 e 60, que nos revelam uma Índia mítica e imponente.

Se for a Sintra, já sabe, não perca esta exposição!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Feira da Ladra enquanto espaço colectivo

A Feira da Ladra é um espaço que se constrói simbolicamente em actos contínuos em cada terça e sábado.Nos restantes dias, o espaço que ocupa é um lugar quase destinado a parque de estacionamento sem grande intensidade colectiva, onde o espaço público é seguramente, apenas um lugar de passagem para quem ali trabalha ou reside.
É enquanto Feira da Ladra, que este espaço se transforma e ganha vida, tornando-se o Campo de Santa Clara num verdadeiro pólo centralizador da cidade, atraindo e catalizando “multidões”. Quem a visita desconhece, quase sempre, o verdadeiro espaço físico que a rodeia, ao ponto de se surpreender quando por ali passa em dias em que não há feira. É pois um lugar antropológico que se reaviva e esmorece constantemente, conforme os dias da semana.

As sociabilidades

Em dia de feira, há algo no seu ambiente que nos faz esquecer que estamos em Lisboa. O retrato que dela podemos tirar dá-nos conta de uma rede de sociabilidades muito intensa, quer entre os vendedores uns com os outros, através do convívio que estabelecem ao longo do tempo, quer no tipo de relação que se estabelece entre estes e os compradores.
A lógica do citadino que passa friamente sem se tocar, aqui não parece fazer sentido, embora o anonimato se faça sentir, pois nem todos os indivíduos que visitam a feira se conhecem. Porém, existe algo que apela à relação, nem que seja pelo simples facto que muitos dos produtos são regateados.

«Os clientes vêm ter connosco devido a uma tradição, uma certa amizade que já se interpõe, uma certa confiança. Nós temos de fazer um esforço que as lojas normalmente não fazem. Grande parte das pessoas vêm aqui e precisam de uns ouvidos para as escutar, precisam de desabafar e na loja há sempre aquele limite, aquela distância.» (um vendedor de roupa)

Um outro dos aspectos interessantes desta feira é que há lugar para pessoas de todas as ideologias, cores, raças ou credos, desde ciganos, sul-americanos, africanos, heavy metals, punks, reggaes, vanguardas, hippies, fadistas, gente de classe alta e baixa. Enfim, uma grande mistura de estilos que reflectem o percurso de vida de cada um.
A Feira da Ladra é, assim, um verdadeiro encontro de culturas e tradições, por outro lado, é um espaço onde as diferenças se assumem e afirmam.

Os conflitos

Ao contrário do que se possa pensar, os conflitos são também, um dos aspectos que caracterizam um lugar antropológico, na medida em que evidenciam o poder do controlo social existente e avivam as relações entre os indivíduos.
A Feira da Ladra é também um lugar de conflitos. Muitos deles passam-se entre os vendedores, se bem que nunca atinjam proporções graves, devendo-se sobretudo a invejas ou intrigas, resultantes de alguma concorrência entre eles.
Outro foco de conflitos verifica-se muitas vezes entre os fiscais e os feirantes. Estes casos incidem geralmente entre os jovens e entre os vendedores que não possuem licença vender. Quando os casos tomam proporções mais sérias, a polícia intervém.
Outro foco constante de conflito tem a ver com os roubos que ali se praticam, pois a feira, tal como o próprio nome indicia, é um dos pontos da cidade mãos conhecido pelos negócios ilícitos que ali se promovem e onde se procura desfazer de mercadorias, provavelmente roubadas. Assim, muitas são as vendas de material roubado e muitos os proprietários que a ela acorrem na esperança de reaver os seus pertences furtados ou desaparecidos.
Podemos ver assim que, se por um lado, este espaço promove o encontro, o diálogo e as sociabilidades “positivas”, este é também um espaço em que se convive com o engano, surgindo por vezes situações inclusive de violência e de actuação policial.

A FEIRA DA LADRA: UM LUGAR ANTROPOLÓGICO


Dando seguimento aos posts anteriores retomo a temática da Feira da Ladra e da sua importância enquanto lugar antropológico. O texto que passo a transcrever já tem alguns anos, é datado de 1996, mas considero que ainda tem bastante pertinência e não se encontra ainda muito desactualizado, é inspirado sobretudo no autor Marc Augé.

1. A Definição de um lugar antropológico

Os lugares são elementos fundamentais do espaço que nos rodeia. São superfícies transformadas pelo homem, adquirindo um sentido e um significado, na medida que os indivíduos que os habitam lhes imprimem algo de si e os tornam “palco” de relações colectivas e de sentimentos partilhados. Só assim, os lugares deixam de ser um espaço abstracto e adquirem uma linguagem e um meio de expressão entre os indivíduos.
Falamos, pois, da construção do lugar antropológico. Segundo Marc Augé (1), autor que aprofundou o estudo sobre esta temática, estes lugares são tradicionais, produzindo nos seus habitantes um efeito de identificação de si próprios, onde existe uma memória colectiva que se (re)actualiza constantemente.
Neste sentido, como o próprio Marc Augé o definiu, os lugares antropológicos são:

«…[uma] construção simbólica do espaço que, por si só, não poderia dar conta das vicissitudes e das contradições da vida social, mas à qual se referem todos aqueles a quem ela atribui um lugar, por mais humilde e modesto que seja.» (2)

Por outro lado, são lugares que se pretendem identitários, relacionais e históricos.

«O lugar é (…) histórico, na medida em que conjugando identidade e relação, se define por uma estabilidade mínima, e desde que os que nele vivem possam reconhecer pontos de referência que não têm de ser obrigatoriamente objectos de conhecimento.” (3)

Ao não negar a presença do “outro”e ao rever nele, muitos dos padrões e moldes culturais em que foi criado, o indivíduo que “habita” o lugar antropológico autoprotege-se da perda da identidade e da solidão dos não-lugares, isto é, lugares desprovidos de investimento humano.
Vejamos agora , em breves linhas, o modo como as feiras têm actuado como lugares de convívio e de reunião, ao longo dos tempos, sendo um dos lugares antropológicos mais antigos da nossa história.

O contexto relacional das feiras

Não se sabe ao certo a época em que surgiram as primeiras feiras e mercados, embora se pense que fossem fenómenos económicos-sociais conhecidos pelos Gregos e Romanos. Aparecendo na história das mais remotas civilizações, estas derivariam, seguramente, da necessidade de troca dos artigos essenciais à vida.
Em Portugal, as primeiras referências às feiras encontram-se em documentos legislativos, datados dos primeiros anos da nacionalidade.

«Nascidas da necessidade de promover a troca de produtos entre o homem do campo e o da cidade, elas representam o ponto onde se concentrou a vida mercantil duma época em que a circulação das pessoas e das mercadorias era dificultada pela falta de comunicações, pela pouca segurança das jornadas e pelo excesso de portagens e peagens. » (4)

Desde aí, as feiras serviam não só um fim económico, mas representavam também um papel importante do ponto de vista social e cultural, permitindo a partir da reunião, a oportunidade da população se expandir.

«Era nas feiras que se obtinham notícias do que se passava pelo “mundo”, do resultado das colheitas das regiões circunvizinhas e de tantos outros assuntos que (…) são a base do cavaquear do Povo.» (5)

Afastados fisicamente, os indivíduos viam nesses momentos ocasião para se reunirem e trocarem notícias e boatos quer do exterior, quer da própria comunidade a que pertenciam.
As feiras e os mercados da Idade Média representavam, nesta perspectiva, o papel que hoje é desempenhado pelos mass media, ligando e aproximando os indivíduos do mundo exterior e dos acontecimentos mundanos mais marcantes.
Contudo, “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, o mundo ele próprio evoluiu e muitas das características essenciais das feiras foram-se subvertendo, pela revolução urbana que transformou todos os conceitos de vizinhança e de mercado. Os conceitos de feira/mercado que na Idade Média eram indissociáveis distinguem-se, evoluindo os mercados no sentido de se tornarem quase só centros de abastecimento de produtos alimentares e de primeira necessidade, perdendo estes os aspectos lúdicos e sociais a eles associados, que pelo contrário, continuam a caracterizar as feiras. Estas, apesar de “decaídas do seu antigo esplendor em consequência da maior facilidade de comunicações” (6), são ainda uma “curiosa e útil instituição.” (7) Prova disso será a Feira da Ladra, que mesmo situada em tecido urbano, continua a marcar uma forma de convivencialidade muito própria.


Notas
(1) Augé, Marc – Não Lugares: Introdução a uma Antropologia da Sobremodernidade, Venda Nova: Bertrand, 1994
(2) Op. Cit. p. 58
(3) Op. Cit. p.61
(4) Rau, Virginia – Subsídios para o estudo das Feiras Medievais Portuguesas, Lisboa: Bertrand, 1945, p.9
(5) Op cit. p.29
(6) Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira – Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Limitada, 1945, p.38
(7) Ibid. p. 38

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A origem etimológica do termo Feira da Ladra

A origem etimológica do termo Feira da Ladra e as suas contradições



A origem que está por detrás do seu nome tem sido alvo de várias teorias, não se tendo chegado a uma conclusão definitiva. Todas as hipóteses parecem ser portadoras de sentido, quando analisadas isoladamente, porém a verdadeira razão permanece desconhecida.
O arqueólogo e olisipógrafo, Augusto Vieira da Silva, apresenta uma versão curiosa baseada no facto de existir normalmente uma ligação entre os locais e os nomes, alcunhas ou profissões dos que neles viviam ou os frequentavam. Assim sugere que a origem desta denominação proviesse de uma alcunha de uma das personalidades da dita feira.
Contudo, mais verosímil parece uma outra hipótese que defende a associação do nome da feira ao tipo de negócio que aí ainda existe. Não esqueçamos que muitos dos objectos são já usados, derivando muitas vezes de roubos. 3
Este nome pode também dever-se ao tempo em que a feira esteve localizada no Rossio. Muitos Pregadores, à semelhança de Frei António do Rosário, apelidavam-na de “Ladra”, já que estava na origem de muitos desvarios e causa de muitos pecados. 4
Outros investigadores adiantam que a raiz etimológica venha de “lada”, o que segundo Pinho Leal, significaria no português antigo “margem de rio” porque, segundo ele, esta feira teria estado no século XII às portas do mar (Ribeira Velha), sobre a margem direita do Tejo.
Esta teoria suscitou novamente polémica, tendo sido discutida largamente em quatro números do Jornal do Comércio.
Contudo, Alberto Pimentel refuta esta teoria. Segundo ele, a Feira da Ladra nunca esteve na margem do Tejo, sendo a feira que lá se realizava de bens de primeira necessidade, nada tendo a ver com a que se realizava no Rossio às Terças-Feiras.
Outra perspectiva é a de Henrique O’Neill que defende que “Ladra” poderia ser uma assimilação de “lázaro” ou “lazarento”, “miserável”. Por outro lado, o nome poderia ter relação directa com uma feira muito importante em Paris, chamada Saint Ladre, ou ainda poderia derivar do piolho “ladro”, insecto que aparece junto às velharias, muito comuns neste tipo de feira.
Torna-se difícil saber qual destas hipóteses será a mais adequada, uma vez que todas parecem peças importantes do puzzle, conferindo juntas uma totalidade coerente: a verdadeira Feira da Ladra.

3 Cf. José Ribeiro Guimarães, “ Feira da Ladra” in: Jornal do Comércio, nº 6284, Lisboa, 16/10/1874, p.1

4 Cf. Frei António Rosário, Feyra Mystica , 1691

Feira da Ladra : A história de uma feira sem idade

Vou dedicar os próximos posts à feira da Ladra, situada no Campo de Santa Clara, em Lisboa, por ter sido um dos meus terrenos antropológicos, onde fiz o meu trabalho de licenciatura em Antropologia, na Faculdade de Ciências Sociais Humanas, no ano lectivo de 1995/1996. Para que o trabalho não ganhe traças e teias de aranha, vou arejá-lo partilhando convosco algumas partes do mesmo. Espero que fiquem entusiasmados e que vão passear até lá! É um lugar sem idade!


Formação da Feira da Ladra e percurso histórico

A Feira da Ladra, tão típica e pitoresca da cidade de Lisboa, ao contrário do que se possa pensar num primeiro instante, não é um fenómeno contemporâneo, o seu percurso histórico é longo e sem dúvida notável, sendo decerto a mais antiga feira que, ainda hoje, se realiza com bastante vivacidade, no concelho de Lisboa.
A sua origem remonta à fundação da nacionalidade, aos primórdios da monarquia, tendo acompanhado o crescimento e a formação da cidade de Lisboa.
Pensa-se que tenha tido início entre 1185 e 1223. O seu nome não era ainda “Ladra” mas “Mercado Franco de Lisboa”. A sua primeira localização foi junto ao Castelo de S.Jorge, na muralha sul, no que então tinha o nome de Chão da Feira. Ester mercado fazia-se apenas num dia indicado da semana, à Terça feira.
Em 1430, a feira passou a efectuar-se no Rossio e aí permaneceu durante os séculos XVI e XVII e metade do século XVIII.
Em 1809, a feira é transferida do Rossio para a Praça da Alegria, pelo Edital de Novembro de 1809, em virtude do terramoto de 1755, já que o Rossio foi sujeito a obras de reconstrução, tendo ficado os locais indisponiveis com Os entulhos e os trabalhos de reedificação.
No entanto, com o crescimento da feira, os feirantes foram aumentando aos poucos as delimitações inicialmente tomadas, chegando por sua iniciativa até ao Palácio do Cadaval. Tal situação provocou no Marquês de castelo Melhor fervorosos protestos, apresentando constantes reclamações à Câmara.
A 2 de Fevereiro de 1823, a Câmara decide trnsferir a feira para o Campo de Sant’Ana, mas perante a oposição dos feirantes e sob a condição destes não ultrapassarem a esquina da Calçada da Glória, estas mudanças acabam por não se realizar, tendo permanecido em Sant’Ana apenas cinco meses.
Em Abril de 1804, a transferência acaba por ser inevitável devido às obras do alargamento do Passeio público, onde se efectuava a feira.

Fixando-se a feira no Campo de Sant’Ana, permitiu-se que funcionasse todos os dias.Com o decorrer do tempo, esta passou a efectuar-se só às terças-feiras.
A Feira da Ladra permanece no Campo de Sant’Ana quarenta e sete anos, até que por deliberação camarária de 19 de Dezembro de 1881 e do edital de 23 de Fevereiro de 1882, foi transferida para o Campo de Santa Clara.
A resolução foi mal recebida, uma vez mais, por parte dos feirantes fazendo-se desde logo sentir protestos já que se tratava de uma zona, na altura, pouco acessivel ao consumidor comum.
Atendida a reclamação no dia 18 de Abril do mesmo ano, voltaram ao antigo lugar.
A 1 de Julho de 1882, a Feira da ladra acabaria por se instalar definitivamente no Campo de santa Clara. Este facto levou a que muitos dos seus frequentadores mudassem, devido à forte oposição que a mudança ocasionou.No entanto, o rápido crescimento da cidade proporcionou o aflorescimento dos seus consumidores habituais num curto espaço de tempo.
O funcionamento da feira em santa Clara era somente às Terças-feiras, como já vinha sendo hábito nos locais anteriores por onde passou. Só a partir de Novembro de 1903 foi conferido o Sábado como mais um dia de feira (facto que ainda hoje se mantém).
Com o passar dos tempos, esta feira foi perdendo as características que a assemelhavam aos mercados (existiam cada vez menos produtos alimentares à venda) passando a concentrar-se sobretudo no negócio de artigos velhos e usados.

As mentes mais conservadoras não viam com bons olhos este tipo de comércio,alegando que se tratava de uma extravagância exagerada, um autêntico “oceano de lixo”.
A tendência da venda dos objectos usados intensificou-se de tal maneira que se passou a utilizar o Mercado de Santa Clara, inaugurado em 1877, unicamente como ponto de venda obrigatório de géneros alimentares (carnes, peixes e produtos hortícolas).
Em 1920 e até 1935, a Feira da Ladra era uma coisa diminuta, não abragendo mais do que uns escassos metros quadrados, junto ao Arco de S.Vicente.
Com o decorrer dos anos, a feira continuou a ser conhecida, até perto dos anos 70, como a feira ads velharias.
Nos dias de hoje, apesar do “velho” ainda estar presente e ter o seu valor, concorre com o comércio do “novo”.
O percurso histórico da feira da Ladra está cronologica e sumariamente delineado até aos nossos dias, sendo este marcado pela transição e mobilidade espacial.
Em cada período histórico delimitada a um espaço único, esta feira adquiriu uma popularidade justificada uma vez que para além de testemunho vivo de várias mentalidades, ela partilhou vivências e particularidades com os múltiplos locais em que se instalou.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Receita de Ano Novo




Em véspera de ano novo, deixo aqui ficar um poema enviado por uma amiga minha de Carlos Drummond de Andrade. Chama-se Receita de Ano Novo.
Votos de um próspero e feliz ano de 2010!!!

«Para você ganhar belíssimo Ano Novo


cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,

Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido

(mal vivido ou talvez sem sentido)

para você ganhar um ano

não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,

mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,

novo

até no coração das coisas menos percebidas

(a começar pelo seu interior)

novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,

mas com ele se come, se passeia,

se ama, se compreende, se trabalha,

você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,

não precisa expedir nem receber mensagens

(planta recebe mensagens?

passa telegramas?).

Não precisa fazer lista de boas intenções

para arquivá-las na gaveta.

Não precisa chorar de arrependido

pelas besteiras consumadas

nem parvamente acreditar

que por decreto da esperança

a partir de janeiro as coisas mudem

e seja tudo claridade, recompensa,

justiça entre os homens e as nações,

liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,

direitos respeitados, começando

pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um ano-novo

que mereça este nome,

você, meu caro, tem de merecê-lo,

tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,

mas tente, experimente, consciente.

É dentro de você que o Ano Novo

cochila e espera desde sempre.»


Carlos Drummond, Dezembro/1997

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

É Natal

Nos últimos dias tem sido pouco o tempo para aqui escrever, apesar dos tópicos se irem amontoando em cima da secretária... É tempo de Natal, das correrias, das almoçaradas e jantaradas, do bom convívio entre os amigos. Com toda esta azáfama tem-me faltado tempo para escrever, mas ainda assim, não queria deixar de vos desejar um Feliz Natal e um excelente 2010. Espero que continuem a ler o meu blogue e a fazerem os vossos comentários que são sempre preciosos para quem está aqui deste lado. Afinal um blogue é como uma garrafa com uma mensagem que se lança ao mar, nunca se sabe quem lê e o que pensa sobre o que leu... Deste lado, eu espero continuar a partilhar convosco ideias, projectos, actividades que faça. Divirtam-se e aproveitem a vida! Fiquem bem!


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Ano do Pensamento Mágico: uma peça a não perder


«Sentam-se para jantar, e a vida como a conhecem termina».


No Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio, está em cena mais uma peça que prima pela qualidade, pelo rigor e pelo profissionalismo, quer de Eunice Muñoz, actriz consagrada no panorama português, quer do encenador Diogo Infante, que tem estado a fazer um excelente trabalho na direcção artística do TNDM II, apresentando peças interessantes, revitalizando o público do teatro, incentivando a partilha de conhecimento e o acesso mais personalizado com os espectadores.
A peça «O Ano do Pensamento Mágico», é de autoria de Joan Didion, a qual adaptou o seu romance verídico ao teatro. Fê-lo pensando que ela nunca seria representada noutras línguas, além do inglês, sendo Vanessa Redgrave a actriz que deu vida à história, em Nova e Iorque e Londres. Mas, eis que a peça ganhou novas asas e chegou ao nosso país, através de Diogo Infante, que com o intuito de dar a Eunice Munõz um papel que honrasse o seu talento, assistiu a várias peças em Londres, entre as quais esta, acabando por decidir que a mesma teria um enorme impacto na carreira da actriz. E não se enganou.
A história da peça e do romance com o mesmo nome é de uma brutalidade emocional que arrepia, sendo difícil de digerir. Na hora e um quarto que o espectáculo demora, são tantos os pensamentos que nos atravessam, tantos os apertos no peito, as lágrimas que quase nos saltam, ou escorrem mesmo...que não é fácil desligarmo-nos do que vimos e ouvimos quando saímos do teatro.

Eunice sentada numa poltrona no meio do palco, com um cenário por detrás completamente abstracto, que muitos poderão dizer que são as veias do coração, ou cerébros, ou árvores, prende-nos por completo com as palavras. Conta-nos uma história que começa no dia 30 de Dezembro de 2003. Joan Didion e o seu marido John entravam em casa depois de visitar a filha Quintana, a qual se encontrava internada com uma infecção generalizada. Joan e John sentavam-se para jantar e num ápice John morre de ataque cardíaco. A partir daí a história vai evoluindo dando conta dos futuros episódios clínicos da filha Quintana, de 25 anos, a qual vem a falecer em 2005. Durante aquele espaço de tempo Joan vive aquilo a que ela chamou de «pensamento do ano mágico», entrando num mundo só dela, por muitos considerado quase louco, continuando à espera que o marido regresse, evitando por isso dar os seus sapatos. Nas palavras de Joan, a ideia deste pensamento mágico terá sido retirada de manuais de Antropologia que leu, onde certas culturas acreditam no mesmo. Naquela altura da sua vida, o pensamento mágico foi a única percepção que agarrou Joan à vida.
E ali no teatro, naquela envolvência do palco, Eunice revive a vida desta escritora norte-americana. Dizendo-nos no fim que é preciso desistir dos nossos mortos, para que possamos viver, que é preciso deixá-los ir... Mas não é fácil!
Este texto é de tal forma forte, que a própria actriz confessa ter tido alguma dificuldade em pegar nele, porque faz doer, porque mexe com as memórias pessoais, contudo a dada altura ela levou-o a cabo, com uma extrema racionalidade e controle para que fosse ela a tomar conta do texto e não a situação inversa. Confesso que a dada altura da peça, senti exactamente o mesmo, que era preciso ver a representação racionalmente, caso contrário sairia completamente transtornada da mesma.
No fim da peça, tivemos ainda um momento de debate com a actriz, com o encenador Diogo Infante, com o João Gil que fez a música que intercalava os vários momentos dramáticos, e com o Miguel Seabra, responsável pela iluminação.
O público respondeu activamente ao repto, fez várias perguntas e comentários, e no fim, acho que a equipa técnica saiu mais rica, porque auscultou as emoções dos espectadores e a forma como a peça os tocou.
O auge veio mesmo a seguir quando consegui um autografo, um beijo e um abraço apertado daquela que é actualmente a melhor actriz portuguesa de teatro. Obrigada Eunice por ser quem é!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Duas sugestões de leitura em língua portuguesa: «No teu deserto» e «Cão como Nós»




Aqui registo mais duas sugestões de leitura, de obras de ficção, em língua portuguesa. Apesar deste blogue não ter a pretensão de ser um espaço de crítica literária, ultimamente não tenho resistido em partilhar convosco as minhas leituras, até porque me têm suscitado interesse e vontade de reflectir um pouco sobre elas.
«No teu deserto», é a última obra editada do escritor, também jornalista e ex-advogado Miguel Sousa Tavares. Um autor que tenho vindo a descobrir com agrado, embora deva referir que foi pessoa que nunca me tinha suscitado qualquer interesse, antes de o ler. Com o «Equador» descobri o autor que me fez lembrar o Eça nas suas descrições, que me levou a revisitar o Chiado de finais do século XIX e viajar até S. Tomé e Príncipe. Com o «Rio das Flores», embora num registo um pouco mais cansativo, acompanhei a história da família Flores do Alentejo ao Brasil.

Mas, este pequeno livro, que é como o autor o designa, quase um romance, a mim agradou-me muito, sobretudo pelo seu tom poético. Talvez porque seja escrito na primeira palavra do singular a duas vozes, uma real, outra imaginária. Porque descreva uma expedição ao deserto sub-sahariano e a descoberta de um sentimento entre duas pessoas com mais de 15 anos de diferença, que tinha tudo para não dar certo. Talvez porque seja uma lembrança de um amor que só teve razão de existir no contexto daquela viagem e daquela aventura, talvez porque a mulher a quem ele dedica o livro já não esteja entre nós, o que torna toda a descrição muito mais nostálgica, atolada em memórias e lembranças de um passado com 22 anos. Talvez afinal, porque me fez recordar os meus próprios 20 anos...

« (No fim tu morres. No fim do livro, tu morres. Assim mesmo, como se morre nos romances: sem razão, a benefício apenas da história que se quis contar. Assim tu morres e eu conto.)»

Por outro lado, é uma literatura de viagem, que descreve contratempos e desventuras burocráticas em países árabes, a história de um jornalista de 36 anos, no auge da vida, que quer fazer uma reportagem televisiva e captar os melhores momentos da expedição, acompanhado de uma rapariga de 21anos. Ao longo da sua leitura, sentimo-nos a embarcar também na viagem, arrastados pela aventura e pela presença quase sagrada do deserto, onde o “nada”, o “silêncio” e a “solidão” podem levar-nos a momentos de contemplação absoluta .

«Na verdade, o deserto não existe: se tudo à volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos- e esse é assustador.(...) No deserto, não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio».
Estas palavras do escritor, filho de uma das melhores poetisas portuguesas do séc. XX, (Sophia de Melo Breyner), exalam um aroma balsâmico, evocando quase uma espécie de oração com a natureza. Na minha opinião, trata-se de um livro que apetece ler de uma só vez, sem parar, mas que ao mesmo tempo não apetece deixar.


O outro livro «Cão como nós», de Manuel Alegre, é um livro mais antigo, editado em 2002, pelo menos a edição que li é desse ano. É um registo completamente diferente, embora tenha em comum com o livro anterior as palavras poéticas e a dedicatória a um amor ausente, embora desta vez seja sobre a história de um cão, o Kurika, que partilhou a vida do poeta e da sua família durante alguns anos e que após a sua morte se tornou uma ausência e uma recordação, um vazio transformado em memória, que decerto emocionará os apaixonados, como eu, por animais. Quem não gostar de cães, desde já lhe digo que este livro não é para si.

O interessante neste apontamento poético é que Manuel Alegre refere-se ao Kurika, como um cão que não queria ser cão, com temperamento, com carácter e rebeldia, que queria estar sempre presente no quotidiano da sua família, levando-o a considerar que ele era “cão como nós”. «O cão imita-nos a todos, tudo o que ele faz é para que se repare nele e se lhe dê mais carinho. Não é por ser cão que tem menos sentimentos. Cão como nós, pensei. Mas preferi calar-me. A minha filha era igual a mim, igual ao cão, igual aos outros.».
O livro termina com um poema, que aqui transcrevo:
Boas leituras!


Cão como nós

Como nós eras altivo
Fiel mas como nós
Desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
Mas não cativo
E sempre presente-ausente
Como nós.
Cão que não querias
Ser cão
E não lambias
A mão
E não respondias à voz.
Cão
Como nós.

Lisboa, 22 de Fevereiro de 2002

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Cante

á dias no amontoado dos meus papéis descobri este poema, daquele que é para mim um dos meus poetas preferidos, Manuel Alegre.

Lembrei-me dos dias em que o meu universo se chamava “Alentejo” e “Feijó” e da importância que a Antropologia tinha então nos meus dias... belos tempos esses! Chama-se «O Cante», o poema:



O Cante

«O cante alentejano é outro som

É voz que se constrói como instrumento.

Mas não é cante sem- é cante com.

O cante Alentejano é mais de dentro.

Voz do avesso quase gesso quase cal

Unha no branco: esse é o ritmo.

O Cante Alentejano é em espiral

De logaritmo em logaritmo.»


Manuel Alegre

Alpha: a história de uma amizade que sobrevive há milénios

Alpha é um filme que conta uma história que se terá passado na Europa, há cerca de 20.000 anos, no Paleolítico Superior, durante a Era do...