terça-feira, 1 de janeiro de 2008

1º Dia do ano

Assusta-me cada vez mais pensar na terceira idade, saber que caminho para lá, como de resto toda a minha geração, sem grandes expectativas de protecção social, de amparo, ou assistência familiar.
Preocupa-me sobretudo, quando me deito e quando ao adormeceu oiço os gemidos da minha vizinha de baixo de 96 anos, que vive sozinha com uma empregada com quase a mesma idade do que ela e completamente surda.
Nesta primeira noite do ano, algo se passou de diferente. Depois de uma noite bem passada no Atlântico com os Gatos Fedorentos, de muita animação e de muito poucas horas de sono, acordei subitamente. Achei estranho o porquê daquele inesperado despertar, pois nada me tinha levado a isso. Deitada na cama, questionei o motivo, mas a verdade é que passado alguns minutos eu acabei por perceber. Foi algo quase sobrenatural, confesso, como se me respondessem à minha pergunta e à minha inquietação. Não tardou a ouvir um estrondo e depois desse um gemido em escala crescente, um grito de ajuda que ecoou por todo o prédio. Numa fracção de segundos eu percebi tudo o que acontecera, a minha vizinha idosa acabara de cair da cama e eu ali impotente, sem saber o que fazer, e se fosse tudo produto da minha imaginação, e se não fosse mais do que o habitual suplício que oiço com pesar ao longo dos últimos meses? Mas, não, eu sabia que não podia ficar parada, os gritos de ajuda batiam cada vez mais dentro da minha consciência. Corri ao quarto da minha mãe, expliquei-lhe a situação e acorremos ao andar de baixo a bater à porta insistentemente. Do outro lado, apenas o desespero se ouvia e nós ali sem saber o que fazer. A outra senhora dormia sem ouvir nada… A única solução era ir tentar acordar alguém que pudesse chamar o filho dela e viesse acudi-la rapidamente.
A ajuda só chegou mais de meia hora depois, pois este vive longe. E mesmo assim não foi fácil, teve de arrombar a tranca, que as fechava por dentro, teve de ter sangue frio, para ouvir a mãe implorar para que a salvassem.
Quando entrámos o cenário era mesmo aterrador, a senhora deitada no chão, cheia de sangue, sem forças, pálida, a tremer de frio…. O 112 não tardou a chegar para a socorrer.
Confesso que esta situação me deu a volta ao estômago, não esperava acordar com ela àquela hora da manhã, mas mais do que isso, fez-me pensar que eu não quero acabar assim… Que vida esta para a maioria dos nossos idosos, em que a maioria dos filhos não pode tomar conta dos pais…O que seria daquela senhora, se não houvesse ninguém que desse o sinal de alerta? Quantos e quantos não vivem na mais completa solidão, sem a menor réstia de esperança, de carinho de consolo?
Confesso que esta cena me comoveu e se eu aqui a partilho é apenas porque acho que não podemos ficar indiferentes a este tipo de situação, temos de ser responsáveis, de agir, de ajudar, quando ouvimos o apelo. Na verdade, chocou-me a apatia dos meus vizinhos que praticamente não compareceram à chamada, não vi praticamente ninguém vir á porta, e se havia barulho no prédio, Meu Deus!
Regressei à cama, mais tranquila, pelo menos tinha cumprido a minha missão, aquela que me fizera acordar!

3 comentários:

Joao Teodosio disse...

História triste essa que contas, mas também bonita. Afinal no prédio ainda há alguém que acorda com os gemidos de alguém que sofre e é célere a prestar ajuda. E esse alguém foste tu.
Beijitos e que tenhas o melhor ano do mundo que bem mereces.

oasis dossonhos disse...

venho saudar-te,amiga.
bj
luís

Anónimo disse...

Olá Amiga,

Parabéns pelo teu gesto !!!
Realmente és um ser humano fantástico...
Tenho muito orgulho em ser tua amiga...

beijos
sandra