quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Duas sugestões de leitura em língua portuguesa: «No teu deserto» e «Cão como Nós»




Aqui registo mais duas sugestões de leitura, de obras de ficção, em língua portuguesa. Apesar deste blogue não ter a pretensão de ser um espaço de crítica literária, ultimamente não tenho resistido em partilhar convosco as minhas leituras, até porque me têm suscitado interesse e vontade de reflectir um pouco sobre elas.
«No teu deserto», é a última obra editada do escritor, também jornalista e ex-advogado Miguel Sousa Tavares. Um autor que tenho vindo a descobrir com agrado, embora deva referir que foi pessoa que nunca me tinha suscitado qualquer interesse, antes de o ler. Com o «Equador» descobri o autor que me fez lembrar o Eça nas suas descrições, que me levou a revisitar o Chiado de finais do século XIX e viajar até S. Tomé e Príncipe. Com o «Rio das Flores», embora num registo um pouco mais cansativo, acompanhei a história da família Flores do Alentejo ao Brasil.

Mas, este pequeno livro, que é como o autor o designa, quase um romance, a mim agradou-me muito, sobretudo pelo seu tom poético. Talvez porque seja escrito na primeira palavra do singular a duas vozes, uma real, outra imaginária. Porque descreva uma expedição ao deserto sub-sahariano e a descoberta de um sentimento entre duas pessoas com mais de 15 anos de diferença, que tinha tudo para não dar certo. Talvez porque seja uma lembrança de um amor que só teve razão de existir no contexto daquela viagem e daquela aventura, talvez porque a mulher a quem ele dedica o livro já não esteja entre nós, o que torna toda a descrição muito mais nostálgica, atolada em memórias e lembranças de um passado com 22 anos. Talvez afinal, porque me fez recordar os meus próprios 20 anos...

« (No fim tu morres. No fim do livro, tu morres. Assim mesmo, como se morre nos romances: sem razão, a benefício apenas da história que se quis contar. Assim tu morres e eu conto.)»

Por outro lado, é uma literatura de viagem, que descreve contratempos e desventuras burocráticas em países árabes, a história de um jornalista de 36 anos, no auge da vida, que quer fazer uma reportagem televisiva e captar os melhores momentos da expedição, acompanhado de uma rapariga de 21anos. Ao longo da sua leitura, sentimo-nos a embarcar também na viagem, arrastados pela aventura e pela presença quase sagrada do deserto, onde o “nada”, o “silêncio” e a “solidão” podem levar-nos a momentos de contemplação absoluta .

«Na verdade, o deserto não existe: se tudo à volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou pelo contrário, o absoluto. Não há cidades, não há mar, não há rios, não há sequer árvores ou animais. Não há música, nem ruído, nem som algum, excepto o do vento de areia quando se vai levantando aos poucos- e esse é assustador.(...) No deserto, não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio».
Estas palavras do escritor, filho de uma das melhores poetisas portuguesas do séc. XX, (Sophia de Melo Breyner), exalam um aroma balsâmico, evocando quase uma espécie de oração com a natureza. Na minha opinião, trata-se de um livro que apetece ler de uma só vez, sem parar, mas que ao mesmo tempo não apetece deixar.


O outro livro «Cão como nós», de Manuel Alegre, é um livro mais antigo, editado em 2002, pelo menos a edição que li é desse ano. É um registo completamente diferente, embora tenha em comum com o livro anterior as palavras poéticas e a dedicatória a um amor ausente, embora desta vez seja sobre a história de um cão, o Kurika, que partilhou a vida do poeta e da sua família durante alguns anos e que após a sua morte se tornou uma ausência e uma recordação, um vazio transformado em memória, que decerto emocionará os apaixonados, como eu, por animais. Quem não gostar de cães, desde já lhe digo que este livro não é para si.

O interessante neste apontamento poético é que Manuel Alegre refere-se ao Kurika, como um cão que não queria ser cão, com temperamento, com carácter e rebeldia, que queria estar sempre presente no quotidiano da sua família, levando-o a considerar que ele era “cão como nós”. «O cão imita-nos a todos, tudo o que ele faz é para que se repare nele e se lhe dê mais carinho. Não é por ser cão que tem menos sentimentos. Cão como nós, pensei. Mas preferi calar-me. A minha filha era igual a mim, igual ao cão, igual aos outros.».
O livro termina com um poema, que aqui transcrevo:
Boas leituras!


Cão como nós

Como nós eras altivo
Fiel mas como nós
Desobediente.
Gostavas de estar connosco a sós
Mas não cativo
E sempre presente-ausente
Como nós.
Cão que não querias
Ser cão
E não lambias
A mão
E não respondias à voz.
Cão
Como nós.

Lisboa, 22 de Fevereiro de 2002

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Cante

á dias no amontoado dos meus papéis descobri este poema, daquele que é para mim um dos meus poetas preferidos, Manuel Alegre.

Lembrei-me dos dias em que o meu universo se chamava “Alentejo” e “Feijó” e da importância que a Antropologia tinha então nos meus dias... belos tempos esses! Chama-se «O Cante», o poema:



O Cante

«O cante alentejano é outro som

É voz que se constrói como instrumento.

Mas não é cante sem- é cante com.

O cante Alentejano é mais de dentro.

Voz do avesso quase gesso quase cal

Unha no branco: esse é o ritmo.

O Cante Alentejano é em espiral

De logaritmo em logaritmo.»


Manuel Alegre

domingo, 15 de novembro de 2009

Exposições no Museu Berardo – emoções à flor da pele

«Uma voz alcança alguém na escuridão. Imaginar», Samuel Beckett, Companhia

A minha última visita ao Museu Berardo, ficou arcada por fortes emoções. Desloquei-me ao CCB com um duplo objectivo, por um lado levantar bilhetes para uma actividade intitulada «Chá de histórias» que se irá realizar nesta instituição no dia 6 de Dezembro, e por outro lado, ver a exposição «Amália: coração independente».


Quando me deslocava para a exposição decidi entrar na sala ao lado, aproveitando para ver «Silêncios», com organização de Marin Karmitz. A experiência não poderia ter sido mais assustadora, só semelhante à que tive nos tempos idos da «Casa do Terror», na Feira Popular. Foi a primeira vez que dei comigo em gritos abafados no meio de um museu e procurando a saída apavorada.
Os corredores eram ermos, escuros e labirínticos, as salas apenas com uma luz ténue ou com um foco fraco, fazendo aumentar o suspense ao entrarmos. A primeira sala que visitei provocou-me alguma curiosidade, já que ao entrar deparamos com um espaço repleto de livros, causando algum impacto no visitante. Até aí pensei que cada sala seria um pouco uma surpresa, e não estava enganada…Ao sair, voltei ao corredor e dirigi-me para outro espaço. Na entrada, a legenda dizia: «Tadeusz Kantor, Enfants à leurs banc d’ecoliers pour la piéce la classe morte, 1989». O título da obra pareceu-me estranho, mas mesmo assim decidi entrar e descobrir o que me esperava. Quando me introduzi na sala, dei um pulo. Na penumbra vislumbrei um grupo de crianças, feitas de cera, sentadas nos bancos de madeira antigos da escola. Vestidos de negro, contrastavam com a tez pálida dos rostos…aquelas crianças pareciam saidinhas de um filme de terror! Perfeitamente assustadoras.


Como se não bastasse, quando caminhava nos corredores, apareciam de repente, saídos no meio da escuridão, os vigilantes, como se fossem aparições de outro mundo (aqui os substitutos das personagens horripilantes da «Casa do Terror»). Não resisti muitas vezes a pequenos gritos, acompanhados de «ai que susto!». Se não estivesse sozinha na exposição talvez me desse para rir, mas assim, foi mesmo para assustar.
Pior foi mesmo quando entrei noutra divisão e deparei com várias gabardinas pretas penduradas no ar, parecendo que vestiam um corpo humano, mas sem membros. Ao passar por elas, o sensor ligou-se e dispararam vozes… essa foi a gota de água. Rapidamente procurei a saída, mas o caminho era labiríntico…se a pretensão da exposição era causar emoções fortes, atingiram o objectivo em pleno comigo. Quando cheguei à entrada, comentei com a rapariga que estava na recepção da exposição o efeito da mesma em mim, e ela concordou que a maior parte das pessoas sai impressionada, pelo que ela disse que possivelmente irão fazer um estudo sobre o impacto da exposição nos visitantes.
Com o pulso ainda um pouco acelerado, dirigi-me à exposição «Amália: coração independente». Para quem pensava que ia ver apenas os corações construídos pela artista plástica Joana Vasconcelos, foi bastante interessante descobrir que o seu conteúdo era vasto, documentando o percurso pessoal e artístico de Amália, através de fotografias, excertos de filmes protagonizados pela artista, registos sonoros, vestuário, jóias, discos, testemunhos, etc.
Ao longo da exposição, Amália ecoa dentro de nós, bate no nosso coração o seu trinado eloquente. Arrepia olhá-la, sentir o seu semblante carregado, ditado de dor e sofrimento. De onde lhe terá vindo a fatalidade, o fado que trazia dentro dela? Mulher diva, mulher povo, mulher poetisa e cantadeira, o seu olhar seduz e encanta, mas é triste, quando nos detemos nos seus retratos, expressões captadas pelo instante fotográfico que imortaliza o seu sentir. Mulher heróica, mulher destino, força motriz de uma nação, amada, odiada, chora a cantar o fado de um Portugal que pouco sorri para o mundo.
Ao sentirmos a energia que emana desta Amália que ouvimos, percebemos que esta vibração que nos envolve e nos remexe as entranhas é sinal que o seu espírito continua vivo dentro de nós. Esta exposição, tal como a que se apresenta no Museu da Electricidade, também do Museu Berardo, ou no Panteão Nacional, entre outras manifestações culturais em volta do seu nome, só vem provar que a frase de João Tordo, argumentista do filme «Amália», e com que acaba o mesmo, tem cada vez mais sentido "Dizem que morreu em 1999... Enganam-se".

«Aquela que nos cantou morreu há 10 anos. Esta exposição celebra a sua vida, a sua obra, a sua imagem, a sua voz, o seu mito. Devolve-nos Amália para a reconhecermos. Revela-nos Amália para a redescobrirmos.
(…) Em Amália, a voz é já imagem e a imagem ainda é voz. Ouvimo-la e vemo-la.» (folheto da exposição).

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Leituras antropológicas

Nas minhas últimas leituras antropológicas inclui duas obras, que gostaria de partilhar convosco, porque considerei que ambas me levaram a conhecer um pouco melhor a realidade etnográfica de duas regiões do país: Montejunto e a região fronteiriça de Santana de Cambas, no concelho de Mértola, através dos relatos e testemunhos do contrabando. Estou a referir-me concretamente ao livro «Montejunto: Imaginários e Celebrações de uma Serra», de autoria de Paulo Ferreira da Costa, um antropólogo entusiasta pelas questões do património imaterial, que já desempenhou funções no Museu Nacional de Etnologia, encontrando-se presentemente a trabalhar no Instituto dos Museus e Conservação. O outro livro que me mereceu atenção foi o primeiro número dos «Cadernos do Museu do Contrabando», com artigos de Miguel Rego, Luís Filipe Maçarico, Maria Dulce Antunes Simões e Antonio Rodríguez Guillén.


Em relação ao livro do Paulo Costa, posso dizer que foi uma descoberta para mim, pois desconhecia este seu interesse etnográfico sobre a zona Oeste, e em concreto pela Serra de Montejunto. Posso dizer que o que me motivou à sua leitura foi o facto de há poucos anos começar a ir para a Serra de Montejunto acampar com amigos e de ter descoberto aí algumas grutas e um certo interesse por espeleologia, através da minha amiga Cláudia Alcaso. Neste sentido, foi com curiosidade que o li e descobri todo um universo do imaginário popular de lendas e tradições orais das gentes da serra de Montejunto, relacionadas com as personagens míticas das Mouras Encantadas, Lobisomens e bruxas, bem como fiquei a conhecer as principais festividades e celebrações , entre as quais se encontram os cantos de inverno e as romagens de Verão associadas a cultos religiosos.

Quanto aos «Cadernos do Museu do Contrabando», considero que se trata de uma meritória iniciativa deste tão recente museu, mantendo viva a memória de tempos marcados pela miséria e pela necessidade de recorrer a essa forma de economia paralela, por vezes a única fonte de sustento de muitas famílias, como era o contrabando. Revela, nesta perspectiva, aspectos sintéticos de pesquisas desenvolvidas por cientistas sociais que analisaram historica e antropologicamente esta realidade vivida pelas gentes raianas durante o Estado Novo, embora apresentem enfoques diferentes. Neste sentido, Miguel Rego apresenta um artigo sobre o papel da polícia privada da Mina de S. Domingos no combate ao contrabando, enquanto Luís Filipe Maçarico, baseando-se na recolha de depoimentos que deram origem ao livro «Memórias do Contrabando em Santana de Cambas», reproduz os discursos dos seus principais intervenientes na primeira pessoa do singular. Nestas histórias de vida recolhidas pelo antropólogo revivem-se os percursos, os itinerários, os caminhos da angústia e do medo. Maria Dulce Antunes Simões dá primazia ao caso do contrabando em Barrancos, realçando o modo como este também beneficiou as classes sociais mais abastadas. Por último, gostaria de referir o artigo de autoria de Antonio Rodríguez Guillén, no qual deu enfoque ao contrabando do outro lado da fronteira, na Serra de Aroche, referindo os preparativos dos grupos de contrabandistas, os canais de distribuição e armazenamento, os guarda civis, as prisões e os interrogatórios, entre outros aspectos relacionados com o contrabando.

São duas sugestões de leitura que aqui deixo ficar para quem se interessa por estas temáticas etnográficas, que embora bastante díspares, nos ajudam a conhecer um bocadinho deste Portugal, que não é feito só de Lisboa, de paisagem urbana e de centros comerciais...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

«O solista»




Num destes dias fui ao cinema. Escolhi ver o filme «O Solista», e não me arrependi. A temática é centrada num assunto marginal da nossa sociedade ocidental, a vida dos Sem-Abrigo, neste caso concreto na cidade norte-americana de Los Angeles, onde existem cerca de 90 mil pessoas nesta condição.

Curiosamente, este é um filme que cruza questões apontadas no documentário de Pedro Neves, «Os Esquecidos», que aqui fiz referência num dos posts anteriores. É uma realidade que ninguém quer ver, e que poucos têm coragem para ajudar.

Em « O Solista» o sem-abrigo é também um génio musical e um esquizofrénico sem relações sociais ou familiares. O único a dar-lhe a mão é um jornalista solitário, que primeiro vê nele matéria para alimentar a sua coluna semanal, começando aos poucos a perceber que ele é mais do que um furo jornalístico, ele é o único amigo que tem, a única pessoa que o faz ainda ter fé na vida, comovendo-se com o seu estado de graça quando este toca um excerto musical. A amizade que nasce entre estas duas personagens é comovente, pois raras são as pessoas que se preocupam tanto com um sem-abrigo como aquele jornalista, chegando a estar deitado com ele, no espaço urbano que este ocupa para pernoitar.

Trata-se de um filme com uma notável banda sonora, com momentos de extrema beleza e poesia, demonstrando que o poder da amizade pode mover montanhas. É ao mesmo tempo um retrato cru da realidade, exibindo a mendicidade, o submundo da droga, da violência, em todo o seu esplendor. É um filme para reflectir sobre o caminho que estamos a tomar, pois quanto mais desenvolvidas são as sociedades, maiores fenómenos de marginalização e pobreza começam a exisitir, fazendo aumentar o fosso entre as pessoas e a distância entre os seus mundos.