terça-feira, 26 de julho de 2011

“Máquinas, objectos e memórias da ruralidade” - Abertura do Museu da Ruralidade

“Máquinas, objectos e memórias da ruralidade” é o nome da exposição que assinalará o início das actividades no Museu da Ruralidade, situado na Praça Zeca Afonso, em Entradas.

Com a abertura ao público destaexposição, a Câmara Municipal de Castro Verde pretende valorizar a natureza deste espaço museológico associando-o, desde logo, aos festejos tradicionais anuais da vila de Entradas, dando-se o natural realce que as manifestações desta natureza têm para a construção da memória colectiva da comunidade, objecto de particular importância para o Museu da Ruralidade.

Procurando que o espaço de exposição albergue uma mescla entre o mostrar e o explicar do funcionamento dos objectos, máquinas ou outros equipamentos de natureza rural, o Museu terá sempre como prioridade salvaguardar, registar e estudar todas as manifestações do imaterial e da oralidade que se realizam no concelho e em alguns locais específicos do Alentejo.

Abertura da Exposição
29 JUL Museu da Ruralidade 18h

Horário do Museu durante as Noites em Santiago 2011
30 e 31 JUL 10h às 22h


http://www.cm-castroverde.pt/cm_castroverde/agenda/detalhe.asp?id=1729

domingo, 24 de julho de 2011

Cante ao Baldão : Uma prática de desafio no Alentejo – um estudo de Maria José Barriga

Este estudo de Maria José Barriga, datado de finais da década de 90, e editado pela Colibri, em 2003, foi realizado no âmbito do sua dissertação de mestrado em Etnomusicologia, e tem como tema central a prática performativa do cante ao baldão.
Confesso que este livro já andava na estante há uma série de anos, mas tal como acontece com dezena deles, ainda não havia tido oportunidade de o ler, e foi com agradável gosto que o li e que descobri as peculiaridades deste cante do Alentejo.
Trata-se de um cante ao desafio que tem expressão nos concelhos de Odemira, Ourique e Castro Verde, sendo cantado por serrenhos (serra) e campaniços (da planície).
Até aos anos 40/50 do séc. XX, o cante ao baldão conheceu um grande florescimento nestes concelhos, diminuindo de atividade entre 1960 e 1980, devido a factores relacionados com a alterações no contexto sócio-económico desta região, denominadamente o abandono da agricultura e a emigração das suas gentes.
Este foi um cante marginalizado pela política cultural do Estado Novo, que viu no cante alentejano a vozes, um mote para a folclorização da região, criando estereótipos e imagens identitárias que camuflavam todos os outros modos de cantar. Neste sentido, como o afirma Maria José Barriga, «o cante alentejano passou a ser o emblema da identidade alentejana no contexto musical» da província do Alentejo, colocando à margem outras práticas musicais como o cante ao baldão « o cante a despique, o cante das gralhas, décimas silvadas, o cante do ladrão do Sado, das modas campaniças, dos balhos acompanhados à harmónica, ao harmónio, ao banjo ou à viola campaniça, as rezas à chuva, a encomendação das almas, ou práticas instrumentais como a do solo da viola campaniça, do banjo ou do tambolrileiro». (palavras de Maria José Barriga)
Após o 25 deAbril, apesar de existir uma profunda revitalização das tradições e da cultura popular, o cante ao baldão mantém-se sem ser referido, sendo a sua existência já quase inexistente na região. Foi sobretudo em meados dos anos 80, através da influência da rádio local Castrense que se começa a revitalizar o cante ao baldão.
Mais tarde surgem os Encontros de Cante ao Baldão, fomentados pela figura de Colaço Guerreiro, a Cooperativa Cortiçol e a Câmara Municipal de Castro Verde, que apresentam os melhores cantadores da região que ainda dominavam a prática performativa, a qual era até aí reservada às “vendas” e a certas celebrações familiares, embora muitas vezes os cantadores o fizessem num quarto interior da casa, pois não era bem aceite na localidade.
Para quem nunca ouviu falar no cante ao baldão, este consiste num cante de desafio, maioritariamente masculino, embora o presente estudo tenha revelado a presença de algumas mulheres a fazê-lo, acompanhado pelo som da viola campaniça. A sua componente verbal tem der ser sempre improvisada, enquanto que a melodia é regular e baseia-se num modelo. O texto tem de ter um “afundamento” que costuma basear-se em temas recorrentes, como a distinção dos modos de vida da serra e o campo, e os serrenhos e campaniços, e o passado e o presente.
Na época que a etnomusicóloga efetou esta investigação os principais focos de cante ao baldão localizavam-se na feira de Castro Verde, na romaria da Senhora da Cola, no Castro da Cola, no concelho de Ourique, entre outros encontros organizados institucionalmente. Com a progressiva folclorização e emblematização desta prática, o cante ao baldão tem vindo a alterar algumas das suas regras e contextos, deixando cada vez mais de ser espontâneo, mas embora mantenha o seu improviso, é mais encenado e apresentado em cima de um palco, circunstâncias naturais das tentativas de preservação cultural, pois por mais que queiramos manter a tradição original, para a manter no presente, temos necessariamente de ajustar ao presente e logo aí alteramo-la.
Se alguém conhece bem este cante e como está a ser vivido no momento presente, deixe aqui ficar o seu comentário, pois tenho curiosidade em perceber as mudanças deste este estudo de Maria José Barriga, quais as circunstâncias em que se continua a praticar, se tem tido mais adeptos, se estagnou, se evoluiu, até porque muitos destes cantadores apresentavam uma idade já avançada… em que locais é cantado, Todos os contributos são bem-vindos.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Largo da aldeia

Esta imagem de Gérard Castello Lopes, inspirou-me para escrever este pequeno texto:


«Todos os dias cumpríamos o mesmo ritual. Íamos ao Largo da aldeia procurar trabalho. Naquele tempo, os campos estavam esgotados, não davam nada, e nós com tanta força para trabalhar…
Os que eram chamados para o Monte dos Castro, não tardavam em buscar os seus haveres e partiam aliviados. Os outros, os que ficavam, juntavam-se na beirada do muro, junto ao largo. Cabisbaixos, de olhar vago e perdido, matavam o tempo à força de não ter nada para fazer. Fitavam a planície, o horizonte perdido e a promessa de um futuro adiado. Enfiavam as mãos pesadas, dolentes em algibeiras cheias de nada e seguiam o seu rumo. »

Estação


Na estação solitária, o tempo passa devagar. Não chegam, nem partem comboios para parte nenhuma. Sentada num banco de madeira, espero as horas passar. Repouso o meu olhar nesses trilhos tão percorridos, nesse caminho de chão perdido, desgastado pela força dos carris. Nada respira, nada se move, apenas o calor da tarde permanece e no pensamento, confusas memórias de lugares que não conheci. Ali, naquele lugar deserto, sinto a minha alma levedar de desejo de partir.
Foto Ana Machado


Foto de Tiago Canhoto

Partilho convosco as belas palavras do escritor alentejano José Luís Peixoto, para mais uma vez recordar a paisagem alentejana e a força das vozes pujantes que lá se ouvem… Cada vez me convenço mais que o Alentejo, não é só uma região, é um estado de alma, um sentimento que se cola ao peito e nos acompanha sempre… Como diz a moda, «hei-de ir ao Alentejo, nem que seja no verão»…
«Quem nasceu no Alentejo tem o Alentejo dentro de si para sempre. Por isso, o Alentejo é infinito. As planícies parecem não ter fim porque não têm fim de facto. Dentro da gente, existem campos com sobreiros e azinheiras, existem rostos enxovalhados pelo sol, pele que tem as rugas da terra. Dentro da gente, existem searas.
O cante é a voz dessa terra infinita. Os homens descem pelas ruas quando voltam do campo ao fim da tarde. Nos olhares, trazem o pó queimado pelo sol. Nessa hora, pouco antes do pôr do sol, nasce uma aragem nos rostos dos homens. Essa aragem fresca passa pelas pedras das ruas, pela cal das casas onde houve vida e morte, pelos sorrisos, pelas crianças que brincam na rua. O cante é essa aragem».
José Luís Peixoto, in: «O círculo que Leva a Lua»