sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Périplo por Lisboa em Agosto

Neste período curto de férias que tive aproveitei para caminhar pela cidade de Lisboa. Com olhos de turista, com olhos que já não vêm certos percursos sempre apetecíveis. Saí em companhia de amigos e percorri as ruas de Lisboa desde a Estrela até à Graça, com algumas paragens pelo caminho é certo. Visitamos igrejas, revisitei todas as antigas escolas onde andei desde a 4ª classe ao 12º ano (por se localizarem todas perto umas das outras), fomos até Santa Catarina, a Bica, o Bairro Alto, S. Pedro de Alcântara, Chiado, onde almoçamos com uma vista deslumbrante para o Tejo. A seguir ao almoço, porque parar é morrer, fomos até ao Carmo, descemos o elevador de Santa Justa, fomos até à Igreja de S. Domingos, à Igreja de Santo António, à Sé, ao Museu do Teatro Romano, a Santa Luzia, a Alfama e por fim subimos até à Graça. De volta, apanhamos o eléctrico 28, onde pudemos descansar e ver o percurso que tínhamos efectuado a pé. Cheguei a casa exausta mas valeu a pena! Lisboa é sempre Linda!
Calçada do Combro Escadinhas da Bica Jardim de Santa Catarina, o Adamastor

Jardim de Santa Luzia, Alfama
Vista de S. Vicente, Alfama

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A dor daquele dia triste


Para assinalar os 20 anos do incêndio do Chiado, deixo hoje aqui ficar um poema feito pela minha mãe em Setembro de 1988. Como muitos saberão, esta é uma data que me toca em particular. Parece mentira, que já tenham passado vinte anos, tinha eu na altura quinze anos e preparava-me para ir frequentar o 9º ano. Realmente a vida passa muito rápido...

Para ti Lisboa, com o meu Amor.
A noite já ia alta
E Lisboa preguiçosamente acordava devagar
Com seu ar de menina bonita,
em breve O Sol doirado viria beijá-la
E fazer rebrilhar as águas do seu Tejo.
Mas, como por feitiço,
O seu acordar lento e vagaroso, tornou-se um rebuliço,
E o luto do seu xaile ficara mais carregado.
E como num gemido, ela esqueceu seu fado,
E chorou… seu peito desventrado.
E um grito se ouviu!...
Como se um marinheiro depois de uma noite de farra
Esfaqueado tombasse no chão…
Há um grito de socorro, e há um outro mais além!...
Feriram seu coração…
Gritam lá do elevador: «Há Fogo no Chiado!»
E logo alguém lá em baixo corre a transmitir o recado.
E Lisboa acorda assim ainda um pouco estremunhada,
Com o toque das sirenes… - Há Fogo! Há Fogo!...
E como alastra e devasta, património bens e vidas.
E os Homens que tudo deram, esses soldados da Paz, Valentes, Fortes e Audazes.
Choro por ti ainda Lisboa querida,
Perdeu-se teu coração, salvaram a tua vida.
Ficaremos com a Esperança
Que o possam restituir, tal qual era Enamorada.
Esquece o medo e a ansiedade,
Mantém sim… acesa a saudade.
Traça o teu xaile e num gemido de guitarra bem trinado,
Vem Lisboa, Vem de novo Cantar teu fado!

Carminda Durão Machado

domingo, 24 de agosto de 2008

De férias novamente...

De férias novamente... é verdade, mas desta vez a aposta foi mesmo o ir para fora cá para dentro... Não só por questões económicas, mas porque temos tanta coisa bonita mesmo ao nosso alcance. Os primeiros dias foram mesmo passados em Almada, onde posso sempre desfrutar do Parque da Paz, da sua calma e tranquilidade, da vista para o Tejo, para o Ginjal e Lisboa, do miradouro da Boca do Vento, em plena Almada velha, onde percorri algumas das suas ruelas para mim desconhecidas. E como é verão, não podia faltar uma incursão pela praia da Costa da Caparica, em pequenas doses, é claro, pois não se pode abusar do sol... Estes são pequenos segredos para não nos aborrecermos em tempo de férias, é sempre bom ver coisas novas ou rever outras que já não vemos há algum tempo! Como o escreveu José Saramago, na sua Viagem a Portugal e retomada a ideia em Cadernos de Lanzarote, Diário II, «É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava.» (Sim, é verdade comecei a ler um pouco mais de Saramago, sobretudo as suas memórias e registos pessoais e estou a gostar!)...

fotos de C.M.


quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Tragédia em Madrid

Para quem tem alma de viajante, vontade de descobrir o mundo e de cruzar continentes, mas que tem medo de andar de avião, como eu, a notícia da queda do avião em Madrid, com cerca de cem vítimas mortais até agora, arrepiou-me e chocou-me profundamente. Nada há de pior do que imaginar a aflição daquelas pessoas que partiram em busca de umas férias cheias de sol e mar nas Canárias e em vez disso as suas vidas são colhidas repentinamente do nada... Porque já viajei pela Spanair, porque já estive no aeroporto de Barajas, em Madrid várias vezes, sinto esta tragédia bem perto, uma tristeza que se alojou bem fundo mim...Infelizmente, a realidade não é um filme que passa na televisão e que podemos virar as costas quando desligamos o aparelho... esta é uma história que nos poderia ter acontecido pelo que não se pode ficar indiferente.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Intervalo...

Em tempo de férias, deixo aqui esta música que acho uma delícia, com sotaque do norte, pois então, onde não podia faltar o Rui Veloso...mesmo a calhar em véspera de ir até ao Porto fazer uma pausa...


quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Fim-de-semana no Festival Andanças, em S. Pedro do Sul

Decorreu de 4 a 10 de Agosto o 13º Festival Internacional de Danças Populares na aldeia de Carvalhais, em S. Pedro do Sul. Apesar de muito afamado, não conhecia muito do evento, o que me fez ter curiosidade e ir até lá.Pode dizer-se que foi um fim de semana para rebentar, levando-me a pensar que se lá estivesse mais tempo regressaria a Lisboa por certo de gatas… A verdade é que a dança foi ali a arte maior, a que deu o mote para a festa e para a boa disposição, sendo difícil resistir aos seus encantos e chamamentos.
Os dias eram preenchidos com vários workshops, onde se podia aprender algumas danças populares e estilos, existindo também outras actividades complementares como Ioga, Ioga do Riso, Massagem, Meditação, entre várias opções. Além destes workshops existiam também outras oficinas e ateliers vocacionados para o ambiente, para os instrumentos musicais, e para as crianças e exploração pedestre do meio local. A noite era preenchida com concertos, dança e copos que aqueciam os corpos arrefecidos pela amplitude térmica.O primeiro impacto à chegada foi o de muita confusão. Saímos tarde de Lisboa, por isso chegamos também perto da meia –noite. Queríamos chegar comprar o bilhete, montar a tenda, ver o ambiente da festa e só depois, bem tarde, descansar.
Mas, essa sucessão foi mais lenta do que pensámos, tendo de nos deslocar do parque de estacionamento até ao local da compra dos bilhetes em carrinhas fretadas para o efeito. A fila era longa na bilheteira, e tinha de ser feita individualmente, para que pudessem colocar a pulseira que nos daria livre acesso ao recinto do festival e ao parque de campismo organizado para o efeito. O caminho de volta teve de ser feito a pé, pois as carrinhas deixaram de fazer serviço aquela hora. O mais custoso foi mesmo ter de carregar com as tralhas todas às costas desde o parque de estacionamento até ao local onde iríamos montar a tenda, isto por terrenos completamente cheios de pó.
A montagem da tenda também foi engraçada, pois foi feita completamente na escuridão… é preciso ter perícia para saber fazê-lo, mas nós conseguimos.
Assim que chegamos aos concertos que começaram à uma da manhã, deixamos o cansaço lá fora e libertamos de dentro de nós uma energia positiva que emanava na atmosfera das tendas onde os concertos decorriam. A música era sempre animada e o pessoal vibrava em voltas e reviravoltas num ambiente super descontraído, sucedendo-se as rodas e os comboios de pessoas agarradas, circulando em grande velocidade pelo espaço em grande euforia e algazarra. Depois de começar a dançar o difícil é mesmo parar… de maneira que as horas se sucederam quase sem darmos por isso. Mas, o problema é que as actividades começavam às 9h da manhã e era precisa estar fresca para elas. Na verdade, fresca é mesmo o termo, pois o banho (comunitário num barracão algo improvisado) não tinha água quente, levando-me a dar uns belos de uns gritos logo pela manhã. Foi tal a emenda que não voltei a repetir…O maior inimigo era mesmo o pó que se agarrava aos pés descalços e se entranhava em todos os poros do nosso corpo, como uma segunda pele. Por mais que lavássemos a sujidade não saía… Mas, enfim são contrariedades, nem tudo foi perfeito em termos de condições logísticas.


Os workshops de dança sucederam-se durante todo o dia. Eu fazia os possíveis por ir experimentando os vários estilos conforme os meus gostos, entrando e saindo das tendas durante o decorrer dos mesmos. Apesar de ter gostado de quase todas as danças, apreciei bastante as danças andinas, por terem algo de latino e tribal, as danças cabo-verdianas, também com uma fusão tribal, e algumas danças de roda europeias, como eram as húngaras.
A sessão do Ioga do Riso de que sou fã levou-me quase a ficar sem voz, de tanto rir e o mais giro, conseguiu atingir o seu objectivo entre o grupo em que me encontrava, pois levamos o resto do fim de semana a praticar alguns dos exercícios realizados no workshop. Rir, dizem é o melhor remédio e nesse aspecto acho que vim mais feliz para casa, mais preenchida e com maior libertação de endorfinas, pois nessas sessões, as pessoas despem-se mesmo de preconceitos e de inibições e situam-se num patamar onde as diferenças se anulam. Somos todos doidos, ok, mas às vezes sabe bem ser doido!
E assim se passou um fim-de-semana com muita folia, boa disposição, alguns momentos de introspecção (porque também fazem falta), embora as pernas e os músculos tenham ficado muito doridos, mas como cantava o António Variações «quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga».


quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Algumas festas do calendário muçulmano e a dança

O povo de Marrocos conhece mil e uma maneiras de fazer música e dança. O ritmo e o estilo de dança fazem parte do seu próprio património.
A música e a dança popular profana é admitida e acompanha os momentos mais importantes do ciclo vital, os ritos das quatro estações e as manifestações de carácter guerreiro.
As festas instituídas pelo Governo, nomeadamente as festas nacionais, são celebradas por grupos folclóricos que asseguram o divertimento público e oficial.
Mas não há necessidade de festas instituídas e acontecimentos precisos que se cante e se dance.
O quotidiano oferece às mulheres maghrebianas ocasiões de reunião: tomando conta das crianças; bordando, tecendo… A sua condição de afastamento da vida pública reforça a solidariedade levando à criação de espaços e tempos privilegiados.
A dança costuma ter lugar à tarde durante um curto período. Uma entoa um cântico, outra toca num bendir ou numa darbouka e todas batem as palmas. A mais impulsiva do grupo esboça alguns movimentos. São mulheres com gosto inato para os risos e para a festa.

Geralmente, as festas do calendário muçulmano não dão lugar a manifestações musicais e muito menos a danças, mas somente a cânticos religiosos.
Vejamos algumas dessas festas:
- O Mouloud comemora o nascimento do Profeta. Certas peregrinações marabuticas –moussem- são feitas nesta ocasião. Esta festa gira também em torno de velhos ritos de fertilidade da terra, mas estas práticas não são reconhecidas pelos muçulmanos ortodoxos.
- Aid el Seguir ou Aid Alftir – fecha o período do Ramadão, do jejum, com visitas, prazeres alimentares e oferendas aos pobres.
Em certos meios populares a ruptura do jejum favorece o aparecimento da diversão, sendo os cafés e as praças públicas invadidas pela música e dança.
- Aid el Kebir ou Aid el Adha – festa do sacrifício do carneiro. É um rito que comemora o sacrifício de Abraão, dando lugar a grandes refeições em comum.
- A Achoura – não mencionada no Alcorão, esta festa comemora o massacre de Al Hussein, filho do rei, mas só os Xiitas celebram a festa em honra deste mártir. Para a maioria das pessas, a Achoura representa o dia dos mortos e as visitas aos cemitérios.
Em Marraquexe e só nesta cidade, orquestras de homens reúnem-se cantando a dekka, animando a noite de Alchoura, dando a esta festa a sua dimensão de alegria.
-A peregrinação a Meca, recomendada pelo Islão é um pretexto para festas majestosas nas cidades.


O MOUSSEM

O Moussem é uma festa marabutica, ou seja, uma peregrinação anual ligada ao culto dos Santos, onde cantos e danças ocupam um papel importante. O Islão Ortodoxo rejeita , porém, o culto dos Santos, desacreditando o Moussem.
Cada Moussem no Maghreb tem uma personalidade própria. O Santo patrono da peregrinação pode ser de uma cidade, de uma aldeia, o ancestral de uma tribo ou fracção de tribo ou o fundador de uma confraria.
O Moussem rural desenrola-se geralmente nos momentos de ruptura dos trabalhos agrícolas, no fim do Verão e do Outono.
O Moussem citadino coincide frequentemente com uma festa do Calendário Muçulmano, principalmente com a festa do nascimento do profeta.
Os peregrinos rurais e os participantes vindos de longe (homens, mulheres e crianças) agrupados em fracções de tribo, instalam as suas tendas junto do santuário do santo local, chamado marabuto.
As mulheres também aí se reúnem, dançando freneticamente até caírem no chão, após serem tomadas pelo transe. Ficando desmaiadas durante a possessão, o corpo sacode-se em espasmos e a respiração é pontuada por pequenos gritos. As mulheres que assistem ajudam-nas a voltar a si.
O Moussem apresenta o carácter de uma festa popular cheia de actividades e divertimentos, com feira agrícola onde se trocam cereais, artesanato, roupas e jóias.
A dança, um pouco religiosa, um pouco profana é um elemento constante em todos os Moussem.
Associa-se o Moussem à liberdade da mulher, porque estas peregrinações autorizam as mulheres a comportar-se de forma pouco habitual. Elas são livres de circular, misturam-se com grupos de homens. Mas estes homens estão sob a protecção do santo que lhes impõe pensamentos puros.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A Dança, a Mulher e o Islão



Após a minha viagem à Tunísia, senti necessidade de reler trabalhos antigos de antropologia que efectuei no meu 3º ano da faculdade, na disciplina Povos e Culturas Não Europeias, com a profª Maria Cardeira da Silva., em 1995. Deixo aqui algumas passagens que me parecem interessantes sobre um trabalho que realizei em conjunto com a minha colega Jaquelina Alves, sobre a mulher e a dança no contexto marroquino.

AS DANÇAS FAMILIARES
É através da dança que o corpo da mulher reencontra a liberdade. Isto está presente principalmente nos meios citadinos, onde a função das danças é o divertimento.
Nas festas familiares, no lado das mulheres, parentes e convidadas levantam-se e dança duas a duas ou em pequenos grupos. Cada mulher que dança deixa aflorar a sua sensualidade, chamando a uma participação cúmplice a assistência, estimulada pelo ritmo e pela linguagem da canção.
Um erotismo flagrante exala das partes do corpo através dos movimentos: tremor dos ombros e dos seios, oscilação das ancas mais ou menos acentuada. Todo este jogo de sedução e de erotismo tem o olhar de uma assistência exclusivamente feminina. Estas raramente dançam em frente de seu pai ou irmão e não é tolerado que outros homens as vejam dançar, para não fantasiarem com o seu corpo. Assim, uma mulher honrada só pode dançar entre mulheres, geralmente em casa, em festas por elas organizadas, ou de acordo com certos rituais.
As danças das festas familiares são também importantes uma vez que aí as mulheres podem escolher esposas para os seus filhos, para o irmão ou primo.

DANÇA - RITUAL COLECTIVO NOS MEIOS RURAIS
O património rural oferece uma grande variedade de músicas e danças, reflexo da diversidade das populações que as elaboraram.
Na arte musical berbere predomina a poesia cantada onde os temas principais evocam os trabalhos agrícolas, o ciclo da natureza, a vida pastoril, o amor e a guerra. Os cantos são acompanhados por danças. Em Marrocos, por exemplo, as duas formas principais de música berbere dançada chama-se AHOUACH e AHIDUS. Estas são danças colectivas e rituais que teriam origem nos cultos lunares ou solares.
Na AHOUACH, as dançarinas põem-se em círculo em volta de um grupo de homens sentados junto ao fogo que são os tocadores de bendiris. A voz penetrante dum cantor propõe um tema, grito agudo que vibra como uma entoação, logo repetido por outro cantor. Os bendiris rufam. Homens e mulheres retomam em coro a frase musical formada. O círculo das mulheres começa a ondular e, ombro a ombro, avançam, recuam, dão o ritmo batendo no chão o compasso. Uma ordem dada pelo condutor, o “rwaiss”, faz aumentar o ritmo da dança, fazendo com que os homens se calem e o círculo das dançarinas se divida em dois arcos que se enfrentam, formando dois coros que respondem mutuamente.
A AHOUACH prolonga-se em princípio até altas horas da noite, à luz de uma fogueira. È dançada em qualquer parte do Alto Atlas, ao longo do Vale de Dadés.
A AHIADOUS é uma dança colectiva. Divertimento social de muitas noites de verão, esta dança é praticada em todas as festas tradicionais, agrárias para os casamentos e circuncisões. A maior parte da AHIADOUS, põe em presença homens e mulheres, não excluindo as composições exclusivamente femininas ou masculinas.
Após um solo introdutório, lançado por um poeta cantor, os homens e mulheres tomam o seu lugar, formando um círculo, ombro contra ombro, dirigidos por um condutor.
O gesto fundamental da dança consiste essencialmente nas vibrações dos ombros. As mulheres levantam e baixam os braços como se tratasse de uma oração. Este movimento alia-se a um ligeiro balançar do corpo para trás e para a frente. Por vezes, os dançarinos agarram mutuamente as mãos e inclinam o corpo para o centro do círculo. Voltando à posição inicial, eles viram os corpos e os ombros tocam-se novamente. Uma onda frenética parece percorrê-los.

A GUEDRA – DANÇA DE POSSESSÃO

A GUEDRA é executada sobretudo no sul marroquino, em Goulimine. As atitudes e os gestos desta dança revelam-se de um simbolismo muito antigo. Por esse motivo, adquiriu o estatuto de um fenómeno cultural único em Marrocos, figurando sistematicamente no programa das manifestações folclóricas.
Para dançar a GUEDRA, homens e mulheres reúnem-se em círculo, cantando e batendo as mãos, todos eles vestidos de azul e negro. Uma mulher põe-se a dançar ao centro, de pé, ajoelhando-se pouco a pouco. Ela está coberta por um ou dois véus que vão deixando ver a face progressivamente. Os braços esticados ou semi-flectidos à altura do busto, movimentam-se alternadamente para a esquerda e para a direita, mas é o trabalho exemplar das mãos e sobretudo dos dedos que caracteriza a GUEDRA. A cabeça balança lateralmente e as inúmeras tranças ornamentadas de pérolas e conchas que compõem o penteado tradicional destas mulheres agitam-se. O ritmo intensifica-se gradualmente, a respiração da dançarina torna-se ofegante.
Esta dança “fascinante” e “hipnótica” tem feito suscitar muitas interrogações e tem dado lugar a múltiplas interpretações. Muitos entendem-na como uma dança erótica, de um clima sexual intenso, sugerido pelo modo como a dançarina se move. Mas esta dança evoca também um hino à vida, simbolizando as etapas do nascimento pela emergência dos véus, da explosão vital da morte, pelo esgotamento da bailarina. A GUEDRA também pode pertencer às danças de possessão, uma transe muito particular de origem africana negra. Acrescente-se que Goulimine era um antigo centro caravaneiro e que os seus autóctones perpetuaram através desta dança a sua crença de possessão pelos génios, que se manifestam nas transes.