quarta-feira, 25 de agosto de 2010

22 anos depois



Um poema da minha amiga e poetisa Rosa Dias, para assinalar este dia fatídico, um dos mais tristes da minha vida, em que vi o Chiado arder e quase perder a casa, e tudo o que tinha, pois vivia nessa altura em pleno coração da baixa da cidade. Que esse dia nunca mais se repita!



Lisboa fez-me chorar
Mil novecentos e oitenta e oito
A vinte cinco de Agosto
Perdemos todos um pouco
Sofreu Lisboa um desgosto
A parte mais importante
De encanto e comercial
Foi destruida p'lo fogo
Que fez chorar Portugal
Ai essa rua do Carmo
Jamais voltará a ter
O encanto natural
Que o fogo lhe fez perder
Rua Garrett quem diria
Que um dia te via assim
Eu vi o Camões chorar
Podes crer que foi por ti
Ao cimo da rua Garrett
Ouvi um soluçar rouco
Era a Brasileira chorando
Por viver num mundo louco
Rua nova do Almada
Braço esquerdo do Chiado
Ouvi a velhinha calçada
Chorar baixinho o seu fado
O Bairro Alto pressentiu
O que se estava a passar
Pegou na guitarra e fugiu
P'rá Mouraria a chorar
Mouraria pôs o xaile
E como louca correndo
Foi direitinha ao Castelo
Sem crer no que estava vendo
E eu olhei e vi o Marquês
Tristonho e angustiado
Por lhe terem destruido
O Pombalino Chiado
D. José lá mais em baixo
Dizia nesse momento
Mais ruínas para Lisboa
Juntar às do seu Convento
Os pombinhos do Rossio
Com grande emoção sentida
Voaram rente ao Chiado
Num adeus de despedida
Até o nosso turista
Não resistiu e chorou
por ver a desolação
Em que Lisboa ficou
O Tejo tão revoltado
Por ver Lisboa chorar
Afogou o seu desgosto
Nas verdes ondas do mar
E até o Cristo Rei
Mudou sua penitência
Ergueu os braços aos céus
Pedindo a Deus clemência
Todos perdemos um pouco
Neste fogo abrasador
Não houve olhar português
Que não chorasse de dor
Destruiu postos de emprego
Destruiu tanta beleza
Feriu a sensibilidade
Desta gente portuguesa
Lisboa ficou de luto
Já a saudade domina
P'la perda irreparavel
Desta Baixa Pombalina.

Rosa Dias

domingo, 15 de agosto de 2010

15 de Agosto em Lisboa

Todos os anos por esta altura costumo deixar aqui algumas impressões sobre os meus passeios por Lisboa. Na verdade, apesar de ser uma lisboeta de “gema” e de palmilhar muitos dos seus caminhos, em Agosto, a cidade apetece e sabe melhor, só nesta ocasião ponho em dia certos percursos, descanso o olhar em pormenores em que a pressa do quotidiano não permite parar.
Neste dia 15 de Agosto, o objectivo era ir ver a exposição «Corpo – Estado, Medicina, e Sociedade no Tempo da I República»,no Torreão Nascente do Terreiro do Paço já que no domingo anterior tinha ido ver a outra exposição « Viajar. Viajantes e Turistas à Descoberta de Portugal no Tempo da Primeira República», no Torreão Poente - de qual aliás gostei muito porque aborda o tema da viagem, dos primeiros turistas estrangeiros em Portugal e do nascimento do lazer entre os portugueses, das praias, das termas, do ritual de viajar e partir de casa, dos meios de transporte utilizados na época.

Ao chegar ao Terreiro de Paço tive a oportunidade de ver no Tejo algumas embarcações tradicionais, que se juntavam possivelmente para integrar a regata do «Atlântico Azul», entre as quais lá ia o bote de fragata «Baía do Seixal», sempre tão gracioso a navegar no Tejo…


A exposição «Corpo – Estado, Medicina, e Sociedade no Tempo da I República» é bem mais pequena do que as anteriores que já vi, inseridas nas comemorações da Proclamação da República, mas igualmente interessante, por retratar a história da medicina em Portugal no séc. XX, exibindo instrumentos médicos, fotografias, e até cenas um pouco macabras, de filmes antigos que nos mostram operações feitas na década de 10/20, horripilantes, em que os pacientes praticamente não têm anestesia, e são verdadeiramente esquartejados de forma brutal. Apesar de um documento precioso, não recomendo para quem tem o estômago sensível. No geral, é uma exposição mais especializada do que as restantes, mas vale a pena visitar.
À tarde, depois de uma boa açorda de camarão na Portugália, o objectivo era ver uma outra exposição no Carmo, também sobre a República, mas alusiva à educação, no Palácio Valadares, tal como vinha anunciado na Agenda Cultural. Mas, o nº32, como vinha publicado não corresponde ao Palácio Valadares, mas sim à Guarda Nacional Republicana, e o mesmo, que em tempos foi a Escola Secundária Veiga Beirão, onde andei do 7º ao 9º ano, estava fechado, sem quaisquer indícios de exposição. Ainda fui perguntar à GNR, se sabiam de alguma coisa, mas coitados dos militares ficaram a olhar para mim embasbacados.
Resultado, não vi a tal exposição sobre a educação, mas deixei-me ficar a saborear uma magnífica esplanada no Rossio, a pôr a conversa em dia, que sabe sempre tão bem. Por coincidência, apanhei ainda o final da última etapa da Volta a Portugal em bicicleta, no Rossio, a qual foi durante muitos anos um ponto alto das minhas férias de verão, entretendo-me a seguir com curiosidade o percurso do Joaquim Gomes, esse célebre corredor.
Um dia bem passado para desanuviar do stress.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Poesia numa tarde de verão


Enquanto as palavras fermentam na cabeça...deixo ficar um poema para esta tarde de Verão do poeta Pessoa:


No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ... "

Fernando Pessoa

sábado, 7 de agosto de 2010

Almada by night

Vestígios fotográficos de uma caminhada noctuna entre Cacilhas e o Ginjal. Noite quente com bonitas vistas sobre o rio, com a ponte iluminada, e na outra margem a cidade cintilando, com a magia de uma noite de verão. Pelo caminho, muitas esplanadas, restaurantes giros e interessantes, copos de vinho branco e petiscos. Um Ginjal encalhado entre ruínas, abandonos e recantos a lembrar as ilhas gregas. Valeu a pena, foi uma noite diferente...a dar a corda aos sapatos!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Poesia para lembrar o deserto da Tunísia

Este é um momento de pausa, uma espécie de stand by na minha actividade bloguista e no meu gosto pelas palavras e pela descoberta, que tenho procurado partilhar aqui sempre que posso. Não tarda passará esse período, mas neste momento não há quase espaço para mais nada...Em breve, espero voltar a carregar este blog com mais colorido e mais actualidades. Para já deixo ficar um poema do Luís Maçarico que me faz lembrar de um país maravilhoso: a Tunísia.

LONGE

Tudo me diz que estou longe
Mas não é verdade!
O deserto sempre foi o lugar
Da minha infância!
Por isso, na direcção dos oásis
Saboreio o silêncio.
Procuro uma romã que supere
As palavras em doçura
E claridade. Não estou longe!
Esta poeira é envolvente!


De tão cru, o sol apaga lembranças
E germina esquecimentos.
O meu destino, são os incontáveis
Grãos que semeiam o Nada.
Este horizonte infinito de ilusões
O céu de areia de certas tardes.


Estou longe, dizem-me alguns
Sinais. Mas é tão perto, a minha
Casa: Poema futuro, luminosa
Oliveira, manhã desejada!



Luís Filipe Maçarico