sábado, 20 de fevereiro de 2010

Conclusão do Ateliê de Arqueologia Experimental

No âmbito do Seminário dedicado à Olaria Romana, concluiu-se hoje o ateliê de Arqueologia Experimental, que funcionou junto à Olaria romana da Quinta do Rouxinol (Corroios). Neste ateliê, tal como já foi documentado no post anterior, foi possível observar a execução de cerâmicas romanas, assim como o processo de enfornamento das peças. Hoje assistimos ao desenfornamento no forno, construído no mesmo local, o qual teve como modelo um dos fornos romanos aí preservados.
Este ateliê contou com a colaboração de uma equipa do Departamento de Arte, Conservação e Restauro do Instituto Politécnico de Tomar, o qual procedeu à monitorização da temperatura no interior da câmara da cozedura, ao longo do processo. Para isso colocaram termopares que permitiram acompanhar as flutuações de temperatura.
A abertura do forno foi recebida pelos participantes com entusiasmo e palmas, até porque se provou que a fornada foi um enorme sucesso. Aqui ficam alguns dos registos visuais desse momento que captei.
Sem dúvida, mais uma interessante iniciativa do Ecomuseu Municipal do Seixal.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Seminário de Olaria Romana no Seixal


Iniciou-se hoje no Seixal o Seminário Internacional, sobre a Olaria Romana da Quinta do Rouxinol, que vai durar até dia 20 de Fevereiro. A manhã foi preenchida com a excelente comunicação do Prof. Carlos Fabião, da Faculdade de Letras de Lisboa, que nos falou do contributo dos estudos cerâmicos para a História da Presença Romana no Ocidente da Península Ibérica, contextualizando assim esta vertente de investigação em Portugal, referindo os pioneiros e impulsionadores nesta matéria, no séc. XIX , inícios do séc. XX, e os desenvolvimentos posteriores destes estudos nos últimos anos.
Da parte da tarde, assistiu-se no Moinho de Maré de Corroios a um ateliê de arqueologia experimental, que teve como objectivo a recriação da actividade oleira, tal como se pressupõe que se pudesse realizar na Quinta do Rouxinol, no período romano. Nesse sentido, pôde observar-se a actividade do oleiro Paulo Franco (do Sobreiro, Mafra) que nos exemplificou o processo de construção de ânforas, as técnicas da sua moldagem, e a cadeia operatória da olaria artesanal. Posteriormente, visitou-se a Olaria Romana da Quinta do Rouxinol, considerado monumento nacional pelo seu valor histórico, tendo Jorge Raposo contextualizado a descoberta dos fornos nos anos 80, do séc. XX.

No Moinho de Maré de Corroios

Na Olaria Romana da Quinta do Rouxinol. São vísíveis os vestígios de antigos fornos.
Deu-se continuidade ao ateliê experimental com a observação de enchimento do forno, criado especialmente para a ocasião, constituindo uma réplica de um dos fornos encontrados na olaria da Quinta do Rouxinol. O enchimento do forno a lenha foi feito por um outro oleiro Michael da Silva Gomes, seguindo uma técnica muito semelhante à praticada em algumas olarias do Alentejo.
O forno, tal como os fornos romanos, apresenta planta circular, é composto por duas partes sobrepostas, separadas por uma grelha perfurada, de modo a facilitar a circulação do ar, pela câmara de cozedura e pela câmara de combustão. Em cima são colocadas as ânforas, a loiça doméstica, de modo a aproveitar bem o espaço na câmara de cozedura. Depois de colocadas as peças fechava-se a entrada com fragmentos de peças partidas e barro e tapava-se com tijolos, telhas e outras peças partidas.
O resultado da cozedura será verificado no sábado de manhã. Por ser uma experiência sem dúvida original e com alguma imprevisibilidade, uma vez que é a primeira vez que os oleiros estão a proceder em moldes tão artesanais, espera-se com alguma ansiedade os resultados no sábado de manhã. Durante o resto da noite e a manhã seguinte, o forno terá de ser abastecido contantemente de lenha, até que este atinja uma temperatura de 900C. A partir de sexta-feira, o forno entrará num processo de arrefecimento gradual, para que não haja o perigo das peças estalarem quando as mesmas forem desenfornadas.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Homenagem a Jorge Crespo

No próximo dia 18, a partir das 18 h., no auditório 1 da FCSH/UNL, vai realizar-se uma homenagem ao Doutor Jorge Crespo, professor catedrático jubilado, que, entre muitas outras actividades, foi fundador e coordenador científico do Centro de Estudos de Etnologia Portuguesa e director da Arquivos da Memória. Este fantástico professor de quem tenho tantas saudades. As suas aulas muitas vezes eram uma verdadeira delícia. O seu sentido de humor,escondido debaixo daquele ar formal, faziam com que ele tivesse sido uma verdadeira referência no meu percurso acadèmico. Adorei a sua aula dedicada a uma viagem que fez à Rússia. Ele bem tentava incentivar o "antropólogo" que vivia em nós... com entusiasmo e dedicação. É uma homenagem merecida.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

«O Homem do Coração Preso» de Sónia Alcaso

«A avó Barbara tem pele de cera. O tempo levou-lhe o porte miúdo, mas deixou o riso de criança. Vive na rua da Vitória, num dos prédios que resistiu ao terramoto. A entrada, escassamente iluminada, dá acesso a uma escada estreita que desagua num apartamento de cinco divisões, sem comunicações independentes umas das outras. Um interior muito mal assoalhado. É uma casa atarracada, construída na mais estrita economia» p.5


Sónia Alcaso lançou em« Dezembro o seu primeiro romance, «O Homem do Coração Preso» na livraria do King, pela mão da Chiado Editora. A Sónia, que já conheço há alguns anos através da irmã Cláudia, companheira de caminhadas e acampamentos, revelou-me com este livro uma faceta que desconhecia por completo: o seu apego às palavras e à escrita.

O seu romance «O Homem do Coração Preso» está escrito realmente com o coração de Sónia. Cada frase sua, enche-nos a alma de sensações, olfactos, visualizações, sons, que de tão intensas nos fazem transportar para dentro do enredo. As descrições são fluidas, muito visuais e detalhadas, o estilo é ritmado e poético, repleto de referências a livros, filmes, e os diálogos incrivelmente bem conseguidos, de tão reais que são. Parece quase um guião de um filme, embora sem a frieza e o distanciamento que encontro nos mesmos.

« (…) tornava-se insuportável a ideia de estar fechado entre paredes. Saía e lutava contra o temporal. O vento cortava-me a cara e a chuva fechava-me os olhos; mas havia árvores e céu. As grandes árvores e a imensidão do céu. Entre outros, lembro-me de um momento especial. Refugiei-me no parque num dia de grande tempestade. A água encharcava-me os ossos e estava um vento enraivecido que partia os ramos das árvores. Eu tremia de frio, mas nem por isso me fui embora. À minha volta, tudo tinha escurecido, o ar, a terra, a erva. Ergui os olhos para o céu, negro e baixo e, de repente, senti que o podia dominar com o voo do meu coração, se o abrisse. E nessa altura surgiu uma grande nuvem branca como a neve, batida pela luz de um relâmpago. Fiquei a olhá-la hipnotizado, e pouco depois, o temporal acalmou.» p.61

Escrito na primeira pessoa do sexo masculino, este é um romance que retrata a vida de Leonardo, um rapaz de 34 anos, desiludido com a vida, amante dos livros e aspirante a realizador de cinema, com uma paixão obsessiva por Alexandra e fascinado por Lina. A trama passa-se em Lisboa, mais concretamente entre a Baixa, o Chiado e o Bairro Alto, zonas repletas de valor afectivo para mim particularmente porque aí vivi metade da minha vida.

Desejo à Sónia as melhores felicidades literárias, já sei que ela está a preparar o segundo livro e basta-me esperar que esse possa ser encontrado nas grandes superfícies comerciais, porque a sua escrita merece estar ao alcance de um público maior e de ser mais conhecida. Parabéns Sónia, continua a extasiar-nos com a tua emoção, as tuas palavras e os teus enredos!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Poema de Rosa Lobato Faria

Encontrei este poema no blog do Luís Maçarico e não resisiti a partilhá-lo aqui também! Fantástico!

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Seminário Internacional e Ateliê de Arqueologia Experimental - Ecomuseu Municipal do Seixal

Realiza-se de 17 a 20 de Fevereiro o Seminário Internacional «A Olaria Romana», dedicado à produção cerâmica da Quinta do Rouxinol, em Corroios, no tempo dos romanos, servindo o mesmo para divulgar e debater problemáticas relacionadas com a actividade oleira, neste período histórico, assim como para actualizar conhecimentos sobre a organização espacial e funcional das olarias, e dos fornos e produções cerâmicas, através de investigações levadas a cabo por arqueólogos e especialistas na matéria.
O evento é organizado pelo Ecomuseu Municipal do Seixal, em parceria com o Centro de Arqueologia de Almada e decorrerá no Auditório municipal do Seixal e no Moinho de Maré de Corroios. As inscrições fazem-se até dia 10 de Fevereiro.
O preço é 50 €, com 50% de desconto para sócios do Centro de Arqueologia de Almada, estudantes, desempregados e reformados.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Visita à Golegã e a Alpiarça


Domingo de manhã. Partida de Lisboa com destino à Golegã e a Alpiarça com o objectivo de conhecer a Casa José Relvas e a Casa dos Patudos. Enquanto a cidade desperta, e os últimos resistentes da noite boémia ainda se vêem sair das discotecas, eu e o grupo com que viajei fizemo-nos à estrada, às 8horas da manhã. Não queríamos desperdiçar pitada do passeio que tínhamos em mente.
Ao chegar à Golegã dirigimo-nos ao café Central, por sinal o único que vimos aberto na localidade. Aí pude saborear um doce típico da região, o «toureiro», feito de ovos, açúcar e amêndoa.







Movidos pela curiosidade de conhecer a Casa de Relvas, assim que pudemos dirigimo-nos para lá, porém tivemos de esperar mais meia-hora, pois acabava de entrar uma visita e por isso teríamos de esperar pela seguinte. Assim o fizemos. Passado o tempo combinado, mal não foi o nosso espanto, quando a técnica que fazia as visitas nos pediu imensas desculpas, mas tinha sido contactada pelo Presidente da Câmara, no sentido de fazer uma visita privada ao senhor embaixador da Inglaterra, que estaria a caminho. Ficámos indignados, afinal tínhamos ido de propósito de Lisboa e ainda queríamos visitar a Casa dos Patudos em Alpiarça. Mas, enfim, apesar de se resmungar, lá encolhemos os ombros e fomos almoçar, prometendo voltar às 14h.


Golegã

Procuramos um lugar para almoçar, mas acabámos por convergir para o Café Central, pois parecia estar tudo fechado. Houve quem comesse sopa da pedra, muito típica na região, e quem comesse ensopado de borrego e vitela assada. O vinho escolhido «O Capítulo», também não era mau de todo…
Depois de um almoço bem divertido, regressámos à Casa do Carlos Relvas para visitar o ateliê fotográfico. Desta vez, não houve mais impedimentos. Calçámos uns sacos de plástico para entrar na casa e pudemos descobrir aquela pérola arquitectónica e artística. Confesso que o que me fez mais confusão foi quando nos fecharam numa sala a ver a projecção de um filme de contextualização sobre o homem e o estúdio fotográfico, e de repente, o manequim que se encontrava sentado, representando Carlos Relvas, começou a falar, com uma expressão facial semelhante a um holograma… que susto! Aquilo deve assustar imenso as crianças…


Fazendo um pouco a história do edifício, pode dizer-se que este foi edificado entre 1871 e 1875, por vontade do lavrador abastado Carlos Relvas (1838-1894) natural da Golegã. O chalet , como é conhecido na Golegã, é único no mundo, tendo sido construído de raiz, como monumento aos precursores da fotografia e com o objectivo de possuir um laboratório e estúdio fotográfico, dado que Relvas foi um dos percussores da fotografia em Portugal. Em termos arquitectónicos, a Casa-Estúdio é também singular, apresentando uma estrutura de ferro forjado (33 toneladas), com estilos revivalistas, como o gótico e o mourisco. « O conjunto parece ter sido inspirado no modelo de um templo cristão. A fachada principal virada a poente, ladeada de dois “baptistérios”, ostenta um pórtico decorado com um baixo relevo representando um cavalo marinho, tendo por cima um janelão-varanda reodeado pelos bustos de Niépce e Daguerre (…) » ( folheto de divulgação da Casa Relvas).
Pelo seu valor histórico e arquitectónico, assim como pelo espólio fotográfico de Carlos Relvas, que inclui diversas máquinas antigas e milhares de fotografias, vale a pena visitar esta casa e conhecer esta figura tão multifacetada para a época em que viveu, tendo sido lavrador, cavaleiro, criador de cavalos, músico, e inventor, entre outras facetas.
Por termos ficado tão agradados com o que vimos, contrariamente ao que tínhamos decidido antes, acabámos por não fazer a reclamação por escrito em relação à visita do embaixador. Diga-se em abono da verdade que esta situação caricata não devia acontecer, pois passa uma imagem, que realmente um embaixador vale mais do que os comuns mortais. Se havia um programa estabelecido, só tinham de nos dizer que não podiam fazer a visita na hora que pretendíamos, não era haver esta falta de comunicação entre os serviços…
Rumo a Alpiarça, o destino era a Casa dos Patudos. Belo palácio o de José Relvas, filho de Carlos Relvas, e um dos grandes impulsionadores da República Portuguesa, tendo sido ele um dos presentes na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, aquando da implantação a 5 de Outubro de 1910.
Apesar de parte do palácio se encontrar em obras, em virtude de uma candidatura ao QREN, o recheio do mesmo é riquíssimo e bastante diversificado. Nele podemos encontrar azulejos, contadores, presépios de Machado de Castro, mobiliário estilo império, porcelanas, pinturas de numerosos artistas portugueses e internacionais entre as quais se destacam obras de Silva Porto, Tomás de Anunciação, Roque Gameiro,Columbano, José Malhoa, assim como esculturas de Soares dos Reis e cerâmicas de Rafael Bordalo Pinheiro, entre muitas outras peças valiosas e belíssimas.
Uma casa porém, marcada pela tragédia e pelo fim de uma geração familiar, pois os três descendentes de José Relvas vieram a falecer, dois por febre tifóide, e um outro por suicídio aos 35 anos. Com o fim da família à vista, José Relvas deixou em testamento o palácio à Câmara Municipal de Alpiarça, tendo deixado anotado inclusive a forma como gostaria que as peças fossem dispostas e apresentadas.
Foi um domingo em beleza. Faz falta sair e espairecer…Mesmo em dias de chuva podemos descobrir magníficos tesouros na nossa cultura portuguesa.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Uma rosa que murchou


Seria cliché dizer que com a morte de Rosa Lobato Faria o país ficaria mais pobre literariamente se isso não fosse de facto verdade. Para mim esta senhora, de aspecto tão fino e de porcelana intocável, que entrava nas nossas casas ao serão nas telenovelas portuguesas, era na verdade uma fantástica escritora, capaz de uma imaginação ardilosa, incarnando com veracidade as suas personagens através dos seus diálogos, arrastando-nos com ela nos enredos por ela tecidos. Descobri a sua escrita casualmente há mais de 10 anos, e sempre que podia devorava os seus livros «Pássaros de Seda», «Romance de Cordélia», «Prenúncio das Águas» (este último o meu preferido), «O Pranto de Lucífer», «Os três casamentos de Camila S.», entre outros.

Confesso a minha consternação com a partida desta mulher. Não subestimando os restantes escritores portugueses, posso dizer que ainda não encontrei outra escritora portuguesa tão verdadeira como ela, capaz de retratar diferentes classes sociais e realidades.

«Prenúncio das águas» é o meu romance de eleição. Lido numa altura em que vivia em Moura e em que se vivia a iminente abertura da barragem e o alagamento da Aldeia da Luz, este livro retoma a vida daquelas gentes, do drama da separação do local onde se nasceu e viveu toda uma vida. Parecia escrito por uma antropóloga, por alguém que conviveu de perto com aquele povo, lhe captou as falas, os ditos e as tradições, ilustrando a história com ficção e romance. Muito bom!

Rosa, espero que o céu espere por si, com rosas, como merece! Obrigada pelas suas palavras...

Conferência na Sociedade da Língua Portuguesa sobre Aldrabas


A Sociedade da Língua Portuguesa vai realizar no dia 3 de Fevereiro, quarta-feira, às 18.30 horas, na Rua Mouzinho da Silveira, 23 em Lisboa, uma conferência que será proferida pelo Engº. José Alberto Franco, Presidente da Direcção da Aldraba e pelo Dr. Luís Filipe Maçarico, Presidente da Assembleia Geral da Aldraba, sobre “Aldrabas e Batentes de Porta: uma reflexão sobre o património imperceptível”.