terça-feira, 31 de julho de 2007

Lisboa fervilha…

Em tempo de verão e de férias para muitas pessoas, Lisboa está mais dinâmica do que nunca, oferecendo múltiplas actividades a quem a percorre. Caminhando pela Baixa Pombalina, deparamos com muita gente vinda de todos os lados e lugares, uns desfrutam do lazer, da descoberta de conhecer a cidade cheia de luz, outros passam mais apressados no seu percurso diário para casa.
Como vivi na baixa grande parte da minha vida, esta é aquela que considero a minha verdadeira terra, por isso sempre que posso gosto de me embrenhar nas suas ruas direitas e paralelas e descobrir coisas novas.
Hoje o caminho levou-me até à Praça da Figueira, onde decorre uma Feira de Artesanato Internacional organizada pela Câmara Municipal de Lisboa em parceria com Médicos do Mundo - Portugal (MdM-P). Inclui satndas do Brasil, Índia, Equador, Senegal, Egipto, Marrocos, Tailândia, Peru, Colômbia, Rússia, Nepal, África do Sul, Quénia. Os fundos angariados revertem a favor dos projectos de MdM-P. e estará patente até ao dia 3 de Agosto.
Vale a pena ir até lá, porque há coisas interessantes, pareceu-me que não são muito caras, e depois é por uma boa causa.
Na estação dos comboios do Rossio está uma exposição itinerante, que vale bem a pena ver, a «Máscara Ibérica». Nela podemos ver algumas máscaras utilizadas em rituais festivos do nordeste transmontano e também em Espanha. Apresenta a maior mostra de Máscaras de Lazarim, algumas com mais de 50 anos.
Trata-se de uma exposição pequena, mas cheia de cor, enriquecida pelas belas fotografias espalhadas pelo recinto e por alguns trajes utilizados com as máscaras.
Estas associam-se aos rituais de Inverno, que têm lugar em tempo de repouso, pois as colheitas já terminaram. Um das mais conhecidas é o culto de Santo Estêvão, associado às festas dos rapazes, que decorrem de 24 de Dezembro ao dia 6 de Janeiro, em muitas localidades do nordeste transmontano. Nesta festa, os rapazes, com pelo menos 16 anos, depois da missa do Natal, envergam máscaras e trajes e percorrem as casas vizinhas, amedrontando mulheres e crianças, fazendo com que estas se concentrem no largo da aldeia, onde prossegue o restante ritual. Outra festividade importante onde as máscaras são utilizadas é o Entrudo de Lazarim, no concelho de Lamego.
Ora grotescas, ora medonhas, elas fazem parte do nosso património cultural, transgridem regras, aproximam-se do sagrado e do profano, permitem ocultar o que não é possível exibir na realidade. Constituem um legado desse país, tantas vezes esquecido e desconhecido, que é importante descobrir.
Horário de visitas:
Dias de semana: 10.30h – 19.30h
Fim-de-semana: 11.00h – 21.00h
Entrada – 2.50€ das 11.00h às 15.00h incluindo Porto de honra (parte das receitas revertem para a Associação Abraço)
Das 15.00h às 19.30 a entrada é livre
A exposição estará patente até dia 2 de Setembro


E porque Lisboa não pára, o Festival dos Oceanos está já aí, e com ele muitas actividades a não perder, como concertos, exposições, desfiles, palestras, entre um mar de coisas. No sábado há a registar um concerto na Praça do Comércio com muita animação e fogo de artifício pela 1.30 da manhã. Quem gostar, não falte!

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Encontro sobre migrações alentejanas na Margem Sul

O IX Encontro da Aldraba: «Raízes do Sul», da Associação Aldraba sobre o impacto da migração alentejana na Margem Sul teve lugar dia 29, no Centro de Dia da Associação Alma Alentejana, no Pragal.
Foi um encontro interessante, de debate e de fruição de ideias, dando lugar a uma reflexão que uniu todos os participantes num diálogo salutar e agradável.
Eu tive o prazer de fazer parte da mesa dos oradores, tendo apresentado algumas das conclusões gerais da minha tese de mestrado em antropologia, centrada na construção das estratégias identitárias de um grupo coral alentejano, «Os Amigos do Alentejo» do Clube Recreativo do Feijó. Nessa medida, foram referidos alguns dos processos que caracterizaram a vinda destas gentes, originados geralmente por redes familiares e sociais que possibilitaram a sua sobrevivência económica e social - o alojamento nos primeiros tempos e o acesso ao trabalho. Foi mencionado igualmente a importância das colectividades do concelho de Almada na integração desta população migrante, desempenhando um papel importante no convívio e integração social da mesma.
O cante nestas paragens assumiu-se como uma estratégia identitária que unia os alentejanos de todas as partes desta província, cantando-se não apenas a terra natal, mas toda uma província. Com a formação do grupo coral acima mencionado, em 1986, a e a força do cante ganha maior força no concelho de Almada. Aos poucos, o cante adapta-se a uma expressão performativa que transforma o calendário ritual desta região, expressando-se nas festividades das Janeiras, no aniversário do grupo coral, em Março, no desfile do 25 de Abril, nas semanas do Alentejo, em Junho, nas festas de Nossa Senhora da Piedade, entre outras ocasiões.
Conclui a apresentação deixando como tema de reflexão, a questão da sobrevivência e futuro dos grupos corais na cintura industrial de Lisboa, na medida em que estes homens estão a envelhecer e os mais novos não parecem, ainda, seduzidos pelo cante.
A outra interveniente, Inês Fonseca, antropóloga da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, que também tem vindo a efectuar ao longo de 12 anos trabalhos no Alentejo, focou outra questão essencial, a do retorno destas gerações migrantes, que começam agora a voltar ao Alentejo para gozar a reforma. Pelo que a Inês apresentou, achei curioso, que nem todos regressem à sua aldeia, uns porque perderam casas ou família nesses locais, instalando-se noutras terras que lhes proporcionem boas condições de vida. Em algumas localidades, há bem pouco tempo desertas, a esperança voltou novamente, começando a ver-se mais gente regressada da área metropolitana de Lisboa, trazendo consigo filhos e netos.
Joaquim Avó, o último orador, apresentou, por seu turno, uma vertente mais relacionada com o Associativismo no concelho de Almada, dando o exemplo da Alma Alentejana, que preside, e tem múltiplas actividades, sobretudo no apoio domiciliário a idosos e aos mais carenciados, possuindo diferentes centros de dia.
Após as apresentações, o debate centrou-se nas questões do associativismo, no futuro do cante na Margem Sul, tendo suscitado múltiplas intervenções. O debate foi interessante na medida em que se constatou que não podemos cristalizar as tradições e torná-las imutáveis. Assim conforme o cante veio, também poderá regressar às suas origens, podendo ganhar novas roupagens, novos contornos. Neste seguimento, uma das surpresas deste debate foi saber da existência de um grupo coral alentejano, constituído por alunos do ensino superior, no Porto!!! Fenómeno insólito que aqui deixo registado e que merecerá alguma reflexão da parte de quem se interessa por estas práticas culturais.
Após um almoço de grão, um prato tipicamente alentejano, ainda houve tempo para passear pelo Cristo Rei, ali nas imediações, debaixo de um sol escaldante e sufocante.
O encontro acabaria com a declamação dos poemas, sempre belos, da poetisa de Campo Maior, Rosa Dias e as modas entoadas pelas «Mondadeiras» da Alma Alentejana.

Aldraba – Associação do espaço e Património Popular
http://www.aldraba.org.pt/
aldraba@gmail.com

sábado, 28 de julho de 2007

Cante

Em véspera de um encontro no Pragal sobre a migração dos alentejanos em Almada, do qual farei um breve apontamento nos próximos dias, registo aqui um poema que escrevi em 2001, após ter concluído a minha tese de mestrado de Antropologia sobre o Grupo Coral Etnográfico «Amigos do Alentejo» do Clube Recreativo do Feijó. É a minha singela homenagem a essas vozes potentes, a esses homens que tanto me ensinaram nos meses que estive com eles. Um muito obrigada!

Alentejano,
Homem de face trigueira,
Mãos calejadas,
De olhar forte e penetrante,
Que envergas dentro de ti
A força de um sol escaldante,
Ensina-me a cantar!
A caminhar serenamente,
Sentindo o som da terra,
Das searas e dos trigais,
nesse teu ritmo dolente,
que não quero esquecer jamais.
Quero cantar como tu,
Semear novas esperanças,
Novas crenças, muitos ais,
Embalar minha alma
Nessa constante melodia,
Fechar os olhos ,
E ouvir-te eternamente ,
dentro de mim.


08-04-2001

quinta-feira, 26 de julho de 2007

«Cheguei a casa…»

Deixo-vos hoje com um pequeno texto que escrevi na sequência de um curso de verão de escrita criativa na Next-Art. É ficção, mas tem alguma realidade por detrás. Tem a ver com memórias da casa de infância, com o desejo de habitar de novo a baixa, onde vivi, e hoje está tão despovoada…tem a ver com o desejo de querer ser grande e de realizar o meu próprio sonho…

«Cheguei a casa. Tirei a chave do bolso, dada há pouco pelo senhor da imobiliária, dei-lhe duas voltas na fechadura e entrei. Os móveis e os sofás, que não reconheci, estavam cobertos por panos brancos cheios de pó. As portadas das janelas estavam fechadas e tudo à volta era escuridão. O ar era irrespirável e denso pela clausura do tempo.
Apressei-me a abrir as janelas, a deixar a claridade e o ar fresco da manhã entrar e penetrar na casa. Nos cantos das paredes, avistavam-se grandes teias de aranha, cuja espessura lembrava fios brancos de algodão doce. Sem dúvida que precisava de umas boas obras.
Estava tudo tão mudado e degradado, desde aquele dia em que nos mudámos daqui. Lembro-me que parti sem olhar para trás. A dor era enorme e a altura pouco própria para lamechices. Virei as costas e parti. Toda a vida é composta de mudança e nós também mudámos. Fomos todos viver para Campolide. Nessa altura, era imperioso ter uma casa maior que desse para toda a família, que tivesse melhores condições. Mas agora de volta a este lugar, era estranho…Tanta coisa se passara nos últimos 10 anos, até a casa parecia mais pequena.
Quis o destino que visse no jornal, um classificado onde anunciavam a venda daquele imóvel tão bem situado, mesmo no centro da cidade, mas completamente abandonado. Ao perceber que se tratava da casa onde vivera em menina, não hesitei em adquiri-la. Telefonei para a agência, e sem sequer a ver, fechei o negócio.
Aquele regresso fez-me sentir invadida por um sentimento misto de nostalgia e de esperança no futuro. Olhava à volta e todos os recantos estavam repletos de recordações. Ali tinha deixado as minhas memórias de criança, as brincadeiras infantis, repletas de personagens e heróis inventados, a vista para o Tejo que sempre adorei, os projectos felizes para a idade adulta, a imagem dos pais novos demais, alegres e felizes, a cadela pequenina que vira nascer… Parecia que ainda me via com 6 anos de idade subindo a calçada em passo apressado, com uma bata branca vestida e com uma pequena malinha às costas, em direcção à escola primária.
Agora muita coisa tinha mudado. Inaugurava ali um futuro e uma nova fase na minha vida. Sabia que aquele seria de novo o meu porto de abrigo, onde poderia construir novos caminhos e novas histórias. »

terça-feira, 24 de julho de 2007

«Há dias em que… e há dias em que…»

Todos os dias são um novo recomeçar, mais uma jornada nesta vida, e como tal, os dias nunca se repetem… há uns mais alegres, outros mais tristes, outros mais fantasiosos, inspiradores, cinzentos…apaixonados… depressivos…é assim a vida, nunca estamos iguais, nunca sentimos o mesmo da mesma maneira…temos humores, virtudes, atitudes e o antagonismo faz parte da nossa condição humana.
A pensar nesta nossa vida mundana, Isabel Martins escreveu e Bernardo Carvalho ilustrou um delicioso livro para crianças, intitulado «Um Livro para todos os dias», mas também para os adultos que gostem de livros ilustrados.

«Cada manhã traz-nos sempre um dia por estrear, um dia por abrir, um dia por desembrulhar… Mais tarde, quando fazemos o balanço dos dias, encontramos dias para todos os gostos, desde aqueles verdadeiramente memoráveis, aos que passam por nós quase sem darmos por eles. É um livro pelo qual desfilam muitos dias e momentos, capazes de nos transportar através da memória dos nossos próprios dias.»


Depois de o folhear, e de fazer uma primeira leitura, fiquei a pensar nele e escrevi o seguinte, começando sempre como no livro, por «há dias em que… e há dias em que…», porque às vezes vale a pena sentir a mente solta e leve e voltar a sentir o espírito da infância…

«Há dias em que a fúria se abate sobre mim e o rosto se endurece de tédio e de vazio, e há dias em que cantam rouxinóis nos beirais e apetece saltar da cama com sorrisos primaveris.
Há dias em que a tristeza corrompe por dentro as entranhas e a alma presa, não se espreguiça, e há dias em que apetece sonhar com palhaços de caras coloridas e rir em gargalhadas estridentes e agudas.
Há dias em que trago dentro de mim a ansiedade de respostas adiadas e há dias em que a esperança me invade e faz a creditar em novas possibilidades.
Há dias em que as lágrimas escorrem como rios revoltos e há dias em que o riso se solta e corre livre pelos campos.
Há dias assim, como este em que só me apetece partir para parte nenhuma, fazer as malas cheias de nada e percorrer o mundo de lés a lés, e há dias em que me apetece permanecer, sentir o calor dos que me rodeiam e sentir-me em casa.
Há dias em que me apetece gritar ao mundo a minha voz e fazer ouvir aquilo que sinto e há dias em que só me apetece dormir.»

E os vossos dias como são?
Façam também este pequeno exercício, até com os vossos petizes se os tiverem e enviem-me os vossos comentários, digam de vossa justiça, para tornar este espaço mais interactivo e dinâmico…deixem-se levar pela criança que há em vós…

Seize the day!

Mais sobre o livro
http://www.guiadafamilia.com/biblioteca/livro_detalhe.php?id=6
http://www.planetatangerina.com/publico/index.php
http://pequenoheroi.blogspot.com/2005/06/um-livro-para-todos-os-dias.html

segunda-feira, 23 de julho de 2007

«D’este vier aqui neste papel descripto»

Ultimamente tenho tido pouco tempo para ler, devido às actividades académicas, de maneira que quando tenho um tempinho vingo-me dessa privação, e tento ler livros que me compensem e que sejam estimulantes emocional e intelectualmente.
O livro que li há pouco tempo e que me emocionou verdadeiramente foi o «Deste viver aqui neste papel descripto», cartas da guerra colonial, escritas por António Lobo Antunes.
Confesso que não sou muito fã de literatura portuguesa, com excepção dos grandes clássicos, por isso sempre que posso fujo, como o diabo da cruz, da maioria dos autores portugueses, por considerá-los geralmente demasiado enrolados, e por vezes até entediantes. Os outros, os «lights», esses digo-o abertamente, podem ser bons, mas não me interessam. No caso do escritor António Lobo Antunes, também conheço muito pouco, li por coincidência apenas o seu primeiro romance «Memórias de Elefante» e agora este das cartas de guerra.
Escrito na primeira pessoa, este livro reúne as mais belas cartas que um dia este escritor terá escrito à sua primeira mulher, Maria José. Com 28 anos, mal acabado de casar, este homem foi enviado para aquela guerra cruel em África, para um país que não conhecia, que não partilhava hábitos, nem costumes. Como tantos outros milhares de militares, António Lobo Antunes era um homem só nesta guerra. Para se entreter, escrevia aerogramas (envelopes-carta isentos de selo para uso militar e familiar) quase diários, à sua mulher, confessando-lhe o seu amor apaixonado e ardente, anestesia que o fazia esquecer por breves instantes as atrocidades que constantemente testemunhava na sua condição de médico e militar.
Nessas cartas, joga com as palavras, engana o medo, embora às vezes o admita, sente a gravidez da sua jovem mulher à distância, idealiza uma filha que só conhece meses depois de nascer, enfatiza os sentimentos, por vezes de forma tão infantil que chega a ser comovente. António Lobo Antunes é neste livro, a voz de todos os portugueses que combateram em África, descrevendo o seu dia a dia, os pelotões, os lugares onde ficara instalado.
Após este livro, o meu apreço por Lobo Antunes aumentou. Talvez porque tivesse ficado emocionada com a sua fragilidade neste período. Também qual não é a guerra que não transforma um ser humano?
Talvez por todos estes motivos, não me tenha pesado a hora e pouco que esperei de pé e ao frio, por um autógrafo seu na Feira do Livro. Está doente, vê-se no rosto mais magro e no cansaço que sente. A fila para os autógrafos era enorme e interminável, e as pessoas esperavam ansiosas, comentando as obras de Lobo Antunes, os seus enredos e o seu imaginário, nem sempre fácil de compreender. Atrás de mim, um jovem rapaz não cabia de emoção de ter os seus livros autografados pelo seu escritor de eleição. No entanto, diante dele, poucos confessavam os seus pensamentos, e o tanto que tinham para lhe dizer. Ele não é homem de muitas falas e o tempo também não o permitia. Lembro-me de um dos senhores que ia à minha frente, lhe ter apertado a mão e lhe ter dito: «Temos muito em comum!». O escritor olhou-o fixamente, com aquele azul cristalino intenso, e sem proferir palavra, ouvi-o atentamente, só depois expressou uma ou duas palavras.
Quando chegou a minha vez, também não tive coragem nem voz para lhe dizer nada, e no fundo parecia que, tal como todos os outros leitores, eu também o tinha acompanhado em África, também eu tinha escrito e lido aquelas cartas… Foi uma sensação estranha…
Por todos estes motivos, quem se interesse por conhecer melhor este período conturbado da nossa história recente, recomendo vivamente a leitura deste livro. É um relato da nossa história de horror, mas é também seguramente uma bela história de amor, que infelizmente, como o futuro o veio a escrever, acabou por não dar certo. Seja como for, não deixa de ser interessante conhecê-la.

Site não oficial de António Lobo Antunes
http://www.ala.nletras.com/livros/deste_viver_aqui_neste_papel_descripto.htm

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Coisas da vida…

«Vive a vida enquanto podes,
porque um dia
podes querer viver a vida
e morres muito antes de a viver»
da minha amiga Rosa Dias


Depois de um dia de trabalho, sabe sempre bem ir até ao cinema. Apetecia-me ver um daqueles filmes leves para me distrair, que não incomodam, que não causam grandes tormentos, nem emoções muito tensas. Optei pelo «No mundo das Mulheres», que como o título parece indicar pensei ser uma comédia romântica. Apetecia-me rever a Meg Ryan, que não aparecia no grande ecrã há muito tempo. Apesar de não ser das actrizes mais espectaculares de Hollywood, é divertida, leve, descontraída, disparatada, uma presença nos filmes românticos e cómicos da minha adolescência e entrada na idade adulta.
Mas, afinal enganei-me, este filme, apesar de ter uns apartes repletos de humor e de algum romance, não era uma comédia…era um filme que falava sobre essa realidade que chamamos vida, o amor e a morte…a busca da felicidade, desse ideal sempre tão intangível. A Meg Ryan, já não era apenas a rapariga alegre, que espera o príncipe encantado (geralmente o Tom Hanks, através de e-mail ou no Empire State Building, em Nova Iorque – quem conhece os filmes dela, saberá do que falo). Era uma mulher madura, mais enrugada, mais experiente, com filhas, com um casamento infeliz e com um cancro de mama!
Apesar de não ser um filme lamechas ou que explorasse este tema profundamente, não consegui deixar de ficar incomodada com uma história destas, sobretudo porque sou mulher e porque uma situação destas pode acontecer a qualquer uma de nós, e infelizmente de um momento para o outro, pois na maior parte das vezes o inimigo é silencioso.
Saí do cinema com a cabeça a martelar no mesmo… na importância de viver, de partilhar com os outros os momentos de felicidade, de fazer coisas que nos façam sentir realizados, vivos e despertos, seja o simples contemplar de um por do sol, o caminhar pela praia ou pela floresta, o soltar de uma gargalhada ruidosa e estridente, o sermos um pouco loucos e fazermos o que nos dá na real gana! Há tantos pequenos nadas que fazem tanto sentido, que o melhor que temos a fazer é mesmo aproveitar todos esses bocadinhos, para podermos levar desta vida o melhor que ela tem. Talvez por isso, valha a pena, de vez em quando questionarmos o valor das nossas vidas e a forma como estamos a vivê-las, se as estamos a viver como queríamos ou se temos de procurar caminhos alternativos. Nada será pior do que um dia olharmos para trás e não vermos um trilho, mas apenas pegadas desconexas!
A vida é tão breve, tão passageira e tantas vezes tão abruptamente interrompida, que é importante que aproveitemos cada experiência como se fosse a última. Saboreemos cada ocasião com entrega e entusiasmo infantil, espelhado no brilho dos olhos, porque nunca sabemos quando o pesadelo nos pode bater à porta…e é hora de dizer adeus!
O filme pode não ter sido tão bem disposto como esperava, mas conseguiu provocar-me emoções e fazer-me reflectir, só por isso já valeu a pena!
Carpe Diem!

Sinopse:

O filme relata o percurso de um jovem de 26 anos que, depois de abandonado pela namorada (mais fascinada pela ascendente carreira de modelo e actriz), deixa a sua casa em Los Angeles para passar algum tempo com a sua avó doente, no Michigan, onde tenta encontrar coordenadas para uma nova vida e terminar, finalmente, a escrita de um livro que prepara há muito. Aí, nos intervalos entre a criação de argumentos para filmes softcore - tarefa que lhe vai assegurando alguma independência financeira -, conhece a vizinha da frente, uma serena mulher de meia idade pela qual sente uma empatia imediata, e acaba por sair também com as suas filhas, sobretudo com a mais velha, uma adolescente de carácter firme.

Cusquem mais sobre o filme...

http://www.myspace.com/itlow
http://noticias.sapo.pt/info/758802.html

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Por Cascais…

Deixo aqui a sugestão de um dia passado em Cascais, agora que o tempo começa a aquecer e há múltiplas propostas para desfrutar neste concelho.
No passado sábado foi o que fiz, apanhei o comboio logo cedo e rumei a Cascais. Além do sol e da praia, havia um outro propósito na minha deslocação, um passeio no Galeão do Sal, que a Câmara Municipal dispõe agora para passeios ao público. Fiquei a saber destes passeios através de uma notícia que vinha num daqueles jornais diários gratuitos que distribuem na cidade e desde logo me pareceu uma ideia interessante. Estes passeios decorrem todos os sábados e domingos, até 28 de Setembro, às 10h e às 11.30, possuindo por isso uma curta duração.

As inscrições são obrigatórias e limitadas e podem ser feitas pelo telefone 21 482 55 56/81 ou pelo e-mail cascais.activo@cm-cascais.pt

Foi na marina de Cascais que foi marcado o lugar de encontro para o passeio, aguardando-se a vinda do Galeão que se encontrava no mar, com um outro grupo. Quando chegou, atracou apenas por breves instantes, e antes mesmo de entrarmos na embarcação tivemos de colocar os coletes salva-vidas alaranjados, que nos davam um colorido contrastante e vivo, dentro do galeão. A receber-nos tivemos o senhor Carlos Saraiva da Costa, professor de Direito numa escola de Carcavelos, que durante alguns momentos transformou o galeão numa sala de aula, introduzindo algumas noções fundamentais na arte de marear, como são “estibordo”, bombordo”, e os ventos favoráveis para a navegação. Explicou que actualmente existem 15 Galeões de Sal em Portugal. Cada barco destes transportaria 60 kgs de sal e eram outrora utilizados no Sado para transporte de sal, sobretudo para os bacalhoeiros. No caso deste Galeão, com um nome extremamente curioso, «Estou para Ver», a sua construção, em Sesimbra, data de 1920 e teve como primeira missão, a pesca da sardinha. Há cerca de 6 anos, a Câmara Municipal de Cascais comprou o Galeão e tem a utilidade de ser um barco de espólio e actualmente também de recreio.
Soprava uma brisa amena e convidativa a andar à vela, porém, esta acabou por não ser içada, não só porque o passeio seria muito breve, mas também porque, como o explicara Carlos Saraiva da Costa, havia um problema no motor, que se agravaria se este fosse desligado para andar à bolina.
Passada uma hora e pouco, chegamos novamente à marina e dava-se por concluído o passeio. É certo que soube a pouco, mas foi uma experiência diferente de outras que já tivera em rio.

Já em terra e com um sol demasiado quente para ir até à praia, houve tempo para ir ao Centro Cultural de Cascais, que possui em exibição uma exposição muito interessante, intitulada «A História da Vela». Esta exposição surgiu da ocasião da realização do Campeonato Mundial de Vela em Cascais, e estará patente até dia 9 de Setembro. Através desta percorrem-se várias décadas da história desta prática desportiva no concelho de Cascais, sendo possível admirar fotos do início do século, do rei D. Carlos e da sua prole, em actividades ligadas ao mar. Devido às extraordinárias condições naturais da Baía de Cascais, desde cedo esta proporcionou a prática da vela, tendência que se reforçou a partir de 1870, altura em que a família real começou a passar temporadas neste aprazível lugar. As regatas intensificaram-se e ficaram conhecidas as embarcações da realeza Lia, Dinorah ou o Maris Stella.

Após uma caminhada e um repouso merecido pelo Parque Marechal Carmona, também em Cascais, um lugar excelente para fazer piqueniques em família e passar uns bons momentos com as crianças, o destino era mesmo a praia… Nada como um bom fim de tarde, sentindo o sol a perder a intensidade do seu calor, as ondas a baterem ritmadamente e o corpo a entregar-se às delícias do descanso…
Por fim, de caminho para o comboio ainda houve tempo para espreitar a Feira do Livro, que se encontra no jardim de Cascais até dia 29 de Julho, cuscar as novidades, as promoções e as pechinchas…
Não há dúvidas que em Cascais há muito a fazer, basta ter imaginação, pois são muitas as actividades sugeridas, desde as culturais, às desportivas, às ocupações para as crianças, entre muitas outras.

Consulte o site http://www.cm-cascais.pt/
e descubra o que pode aproveitar!
E já agora, aproveite! Saia de casa! O Verão espera por si…
Para quem se interesse por galeões, dê um salto a este site: http://www.imagine.pt/pv/barcos/15.htm

terça-feira, 17 de julho de 2007

Não! A única coisa a fazer é dançar um tango argentino!


A proposta que hoje aqui deixo é tanto literária, como musical. Foi um pequeno texto que escrevi durante uma aula de escrita criativa. O tema é o tango, a sensualidade, o romance, o ambiente dos bares de porto, o espírito de Buenos Aires. O desafio era acabar o texto que escrevêssemos com esta frase: «Não! A única coisa a fazer é dançar um tango argentino!» E assim sucedeu...
Espero que este texto os inspire, ponham a vitrola a tocar, o acordeão do Piazolla a estremecer as paredes lá de casa, uma rosa no cabelo, no caso das mulheres, e arrisquem-se... seduzam e sejam embalados nesta dança de ritual de corte! Carpe Diem...

«Afagas-me os cabelos, contas-me histórias ao ouvido de outros portos e lugares. As tuas palavras ecoam doces e sedutoras, sabem a mar, a paixão e a mentira, tornando-te perigosamente tentador. Passas a mão pelos teus cabelos negros, cobertos de brilhantina, acendes um cigarro e retorces o bigode com mestria. Fazes-me um olhar matreiro, o mesmo que já repetiste tantas outras vezes para mulheres como eu e fazes-me hesitar. Convidas-me para dançar, naquele bar escuro, cheirando a rum e a whisky… O meu coração pula, o ritmo da respiração aumenta.
Sinto o toque quente dos teus dedos robustos a deslizar aos poucos sobre a minha cintura, passeando sobre os folhos do meu vestido preto. Todo o meu corpo é vacilante, como se pedisse mais calor. Mordo os lábios pintados de rubi, contendo o delírio que se apodera de mim.
Sigo contigo os passos deste tango lânguido e sussurrante, contorço-me sobre o teu corpo e deixo-me embalar. Tu conduzes-me mais uma vez e eu deslizo sobre o tabuado de madeira gasto, deixando no chão a marca dos tacões dos meus sapatos pretos.
O som da velha concertina desconcentra-me, já só vejo os teus olhos verdes, a pedir amor e pecado. Mas eu resisto. Tento esquecer todos os marinheiros que tive nos meus braços antes de ti e do quanto me fizeram sofrer. Desta vez, prometo que será diferente... Fecho os olhos e finjo que já não te vejo, que já não te ouço, afasto-te da memória e dos sentidos. Só ouço a música, que me invade e domina. Digo a mim mesma para parar de pensar... Não! A única coisa a fazer é dançar um tango argentino!»

domingo, 15 de julho de 2007

De todos os cantos do mundo…

«De todos os cantos do mundo chegam notícias de paisagens, pessoas e lugares.
Chegam promessas de viagens sonhadas que não pude realizar.
Chegam ecos de aventuras imaginadas.
Chegam imagens de cidades grandes, cheias de cor, luz e folia,
banhadas por rios coloridos e curvilíneos,
Chegam postais de praias desertas,
Onde gostava de me banhar e contemplar amanheceres mágicos.
De todos os cantos do mundo chegam mensagens de fé e reflexão,
De templos, igrejas, sinagogas e mesquitas,
Onde o nome de Deus se multiplica em contínuas orações e nunca é vão.
Chegam informações científicas de rituais sagrados e milenares,
De povos que se besuntam com a terra e inscrevem no corpo códigos e sinais,
De festas e de romarias, de Carnavais em terras quentes.
De todos os cantos do mundo,
Chegam novidades de aventuras, assaltos e sobressaltos,
De destemidos que escalam montanhas,
E de audazes valentes que atravessam as areias do deserto.

Também eu quero conhecer o mundo!!!!! Está na hora de partir e de o alcançar. »
Ana
2005/2006


Em tempo de preparação de uma grande viagem, aqui fica o meu desejo de partir, de conhecer e de descobrir novas paragens e lugares, de percorrer o mundo e conquistá-lo com a sabedoria que nele descobrimos. Insaciedade ávida de calcorrear caminhos inesgotáveis, transcendentes e imparáveis... Quem dera poder conhecê-lo!

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Blogar

Foi num dos trabalhos que efectuei recentemente na Faculdade, na disciplina de Teoria e Sociologia da Informação, sobre a Blogosesfera e o Espaço Público, que me comecei a interessar pela temática dos blogues. Ouvia falar alguma coisa sobre estes, lia algumas coisas, até conhecia um ou outro de algum amigo meu, mas nunca lhes tinha dado muita importância.
Com este trabalho escolar apercebi-me da real dimensão que estes podem ter enquanto poder de comunicação, de opinião e de elo de união entre as pessoas, que participam num blogue.
É de facto, um universo à parte. Aqui temos o nosso cantinho, escrevemos o que queremos, sobre o que queremos e da forma como entendemos. Não há regras, nem limites, aqui a democracia, por enquanto ainda vai sendo real.
Mas isto de blogar, que tão moderno nos parece, não é algo de novo, apenas os meios são diferentes, mais tecnológicos, mais virtuais. Antigamente, o blogar fazia-se nos salões aristocráticos, nas praças, nos mercados, nas sociedades e clubes, promovendo-se através da discussão pública o desenvolvimento de ideais como a democracia e a liberdade. Hoje, esse blogar permanece, mas as redes de contacto multiplicaram-se e tornaram-se mais dinâmicas através da Internet. Por outro lado, se os blogs alargaram o espaço público, também o fragmentaram, existindo blogues sobre os mais variados temas: política, humor, literatura, cinema, jornalismo, educação, ciência, entre outros. Essa fragmentação expressa-se através da valorização da opinião individual, acabando por isso, em muitos casos por ser um culto narcisista do indivíduo, o que acaba por acontecer em quase todos, na medida em que reflectem o modo de pensar do bloguer que os concebeu.

Vejamos agora, algumas características dos blogues:

São espaços de diálogo e de debate
São espaços onde um público se reúne para formular uma opinião pública e dizer o que pensa sobre determinados temas.
Ligam milhares de cidadãos anónimos.
Pressupõem um acesso gratuito
São espaços neutros, não coercivos, onde as relações de poder são minimizadas
São interactivos: a maioria dos blogs permite comentários sobre os seus conteúdos.
Fomentam a criação de redes: permitem a ligação a outros blogs através de links e hiperligações.

No fundo, como houve alguém que disse, os blogues são espaços de liberdade individual onde podemos dizer tudo o que nos vem à cabeça, funcionam um pouco como uma mensagem numa garrafa em alto mar, nunca sabemos bem onde ele nos irá levar e a quem. Este espaço em que afirmamos o nosso pensamento é assim cada vez mais um espaço desterritorializado, simbólico, desprovido de realidade física, onde a interacção não ocorre face a face, em tempo real, mas quase dependendo do ritmo das actualizações do bloguer.
Outra curiosidade dos blogues tem a ver com a sua fragmentação narrativa, criando expectativas de continuidade nos leitores/ receptores, e um grande poder de atracção e adição, o que tem influência na fidelidade na audiência e na construção da comunidade virtual que se cria em torno de um blogue.

Por todos estes motivos, considero cada vez mais interessantes os blogues, enquanto espaços de partilha de opinião, de situações e acontecimentos, de imaginação, de fantasia e emoção, que nos aproximam, nos informam, nos emocionam… Vamos pois meter maõs à obra e blogar!

«Ser bloguer, hoje, é também dispor de espaço sem limites, a custo zero, mediante a livre gestão do tempo, do pleno gozo e do prazer na abordagem dos interesses momentâneos ou de fundo, escrevendo e abordando o que bem se entende sem ficar limitado a nenhuma área. Com criatividade, com experimentação ou simplesmente com humor ou raiva. Isso não tem preço é uma concretização de uma oportunidade sonhada longamente por gerações mas apenas hoje alcançada» José Pacheco Pereira

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Sexta-Feira, dia 13

"Superstição" vem do latim superstitio, que significa "o excesso", ou também "o que resta e sobrevive de épocas passadas". Em qualquer acepção, designa "o que é alheio à actualidade, o que é velho".

Aproxima-se mais um dia malfadado para os mais supersticiosos…. Dizem que o azar (palavra maléfica, madeira… madeira… madeira…) anda à solta a espalhar o terror e a maldição e que as bruxas estão à espreita, engendrando poderosos feitiços que nos fazem a vida andar para trás. Para dizer a verdade, eu também sou um pouco supersticiosa, não gosto de passar por baixo de um escadote, ou de uma escada (talvez se calhar mais por razões de segurança, do que outra coisa), sempre que vejo um carro funerário cruzo os dedos e faço uma figa (isto desde criança, acho que me ficou) entre outras variadas coisas… Mas, não me recordo de nenhuma sexta-feira dia 13 em que o az… ( prefiro não me arriscar novamente a soletrar essa palavra) me tivesse batido à porta, esperamos que não seja desta, cruzes canhoto!!
Para um colega meu do trabalho por exemplo, a sexta-feira 13 começou já hoje. Vinha ele descansado da vida no comboio da linha de Cascais, quando chega ao Cais do Sodré para apanhar o barco, dá conta que não traz carteira, nem passe, nem documentos, nem dinheiro, nem cartões Multibanco… nada! Apenas uns míseros tostões que mal davam para apanhar o barco. Teve de contar com a solidariedade alheia de colegas que lhe emprestaram dinheiro para poder regressar, se não como ele dizia brincando, ainda tinha de ir arrumar uns carros para ganhar uns trocos.
Na verdade, todos nós temos aqueles dias em que tudo parece acontecer, o carro que bate ou enguiça, a chuva que cai a potes e faz aumentar o trânsito desmedidamente, e nós ali reféns daquele inferno, o transporte que se perde mesmo a um segundo do apanhar… as chaves que se deixaram em casa quando toda a família está de férias longe e não há outro remédio senão chamar os Bombeiros, um gato que cai do terceiro andar… enfim tudo pode acontecer, mesmo que não seja sexta-feira 13.

Mas de onde vem esta tradição?

Uma das razões de se ter criado o mito da sexta-feira 13 parece estar ligada à história da Bíblia. O Novo Testamento conta que Jesus Cristo, na Última Ceia, sentou-se à mesa com os apóstolos, que ao todo, incluindo Jesus, eram 13. Muitas pessoas consideram Judas o 13º apóstolo, justamente quem entregou Jesus e o levou à morte na Sexta-feira da Paixão. Assim, graças ao episódio bíblico, a sexta-feira 13 passou a ser lembrada como um dia fatídico, ligado à morte.
Diz-se também que a maldição do dia foi fruto de uma briga entre o rei francês Filipe, o belo, e a Ordem dos Templários, no século XIV. Na época, a França estava próxima da falência económica e Filipe resolveu cobrar impostos da Igreja. Excomungado pelo papa Bonifácio VIII, que se indignou diante da decisão da cobrança, o rei tentou aproximar-se da Ordem dos Templários (um grupo de cavaleiros cristãos), pretendendo uma reconciliação com a Igreja. Filipe, o belo, não foi aceito na Ordem e, como vingança, ordenou a prisão e tortura de cinco mil cavaleiros. O dia era uma sexta-feira, 13 de Outubro de 1307.

As lendas
Além da justificativa cristã, existem 2 outras lendas que explicam a superstição. Uma Lenda diz que na Escandinava existia uma deusa do amor e da beleza chamada Friga (que deu origem a friadagr, sexta-feira). Quando as tribos nórdicas e alemãs se converteram ao cristianismo, a lenda transformou Friga em uma bruxa exilada no alto de uma montanha. Para se vingar, ela passou a reunir-se todas as sextas com outras onze bruxas e mais o demónio - totalizando treze - para rogar pragas sobre os humanos. Da Escandinava a superstição espalhou-se pela Europa.
A outra lenda é da mitologia nórdica. No valha, a morada dos deuses, houve um banquete para o qual foram convidados doze divindades. Loki o espírito do mal e da discórdia, apareceu sem ser chamado e armou uma briga em que morreu o favorito dos deuses. Este episódio serviu para consolidar o relato bíblico da última ceia, onde havia treze à mesa, às vésperas da morte de Cristo. Daí veio a crendice de que convidar 13 pessoas para um jantar era desgraça na certa.

As festividades
Apesar de ser um dia de uma certa apreensão para os mais crentes, este é também um dia festejado por algumas pessoas. Em Montalegre, « Sexta-Feira 13 é considerada pela maior parte das pessoas um dia de azar, em que tudo o que está morto ganha vida e as bruxas andam à solta.»
Esta data é assim motivo para comemorar e dar asas à imaginação, onde não falta alegria, diversão e boa gastronomia. Este ano o evento é alargado à Feira da Vitela de Barroso e à Feira do Misticismo no Pavilhão Multiusos que reunirá especialistas do campo do esoterismo, incluindo áreas como a aromaterapia, a astrologia, a tarologia, a plantas medicinais entre outros.
O fim-de-semana será rodeado de mistérios e terá como pano de fundo o misticismo, o espiritualismo, o esoterismo e o ocultismo, aliados à magia. No dia 13 de Julho, às 15h13 os visitantes terão oportunidade de assistir ao início do evento que se prolongará até domingo às 19 horas, e contactar com as diversas ciências esotéricas.

Programa:

20 Horas
- Ceia das bruxas nos restaurantes da região, com a decoração e animação alusiva.23:30 Horas
- Concentração na praça do Município
- Desfile de bruxas, bruxedos e bruxarias
- Espectáculo no castelo e oferta da queimada esconjurada pelo Bruxo Mor, o Padre Fontes
- Baile das bruxas nos bares e discoteca da vila

Para mais informações aceder ao site do Ecomuseu do Barroso
http://www.ecomuseu.org/Portugues/ecomuseu/detalhe_destaques.php?id=69

Por todos estes motivos, vamos encarar este dia com boa disposição e serenidade, (mas sempre com os dedos bem cruzados, não vá o diabo tecê-las!). Mas, convém estar atento, porque, como diz o espanhol podemos não acreditar em bruxas, mas que “las hay, hay!”
Sejam felizes neste dia, e nos próximos e próximos que hão-de vir! Seja o que Deus quiser!!

terça-feira, 10 de julho de 2007

Art Déco

No passado domingo fui ao Museu de Arte Moderna de Sintra, onde outrora funcionou um Casino. Este é um museu belíssimo, como uma arquitectura requintada, lembrando tempos abastados, onde se jogavam ali vidas e altas cartas. Actualmente, possui patente a exposição «Art Deco», da colecção do agora super mediático e polémico Joe Berardo.
A exposição para quem gosta deste estilo está fantástica, fazendo-nos recuar até aos loucos anos 20 e 30, altura em que as pessoas se libertaram de uma série de constrangimentos impostos pela I Guerra Mundial, em que se aprimoraram e se tornaram mais sofisticadas e glamorosas.
A arte, a arquitectura, a moda foram fortemente influenciadas por este estilo decorativo, tendo repercussões na cultura e sociedade de então. Os edifícios tornaram-se mais bonitos e aprimorados e as casas mais bonitas, mais bem decoradas, com peças únicas: candeeiros, veis, peças de cerâmica, arte de mesa e pratas. Na moda, as mulheres cortaram os cabelos à “la garçonne”, encurtaram as medidas dos vestidos, colocaram colares, agitados durante a dança do fox-trot e do charleston, distribuindo charme pelos salões de baile.
Quem for apreciador deste período do século XX não deverá mesmo perder esta exposição, comissariada por um grande especialista dos anos 20/30, Emmanuel Bréon, director do Musée des Années 30.
Segundo este especialista, «o estilo art déco faz parte de um património que é comum a todas as nações, do mesmo modo que a Exposition Internationale des Arts Décoratifs e Industrielles de Paris, em 1925, foi uma fonte de inspiração para inúmeros países estrangeiros que por sua vez o adoptaram».
Nesta exposição podemos encontrar peças de mobiliário únicas, assim como peças de Lalique, jarras, candeeiros, peças de vidro lindíssimas, ferros, esculturas e jóias, entre outros objectos espectaculares, como são os vestidos de época e adereços, emprestados pelo Museu Nacional do Traje. No átrio do museu encontra-se também um fabuloso Bugatti (automóvel), de 1929, que faz parte da colecção do museu do Caramulo. Além destes, pode admirar-se a obra «Auto-Portrait» (Tamara in the Green Bugatti) de 1925, e um filme sobre a vida da pintora Tamara de Lempicka, entre outras pinturas importantes de variados autores.

Quem foi Tamara de Lempicka?


Maria Gurwik-Górska, ou 'Tamara de Lempicka', nasceu em Varsóvia, na Polônia, em 1898. Instalou-se em Paris em 1918, onde viveu até emigrar para os E.U.A, em 1939, devido à segunda Guerra Mundial. Bela, emancipada, moderna e escandalosa, personagem das noitadas nova-iorquinas e dos salões parisienses de Arte. O seu círculo de amizades incluía nomes como D'Annunzio, Greta Garbo, Picasso, Jean Cocteau e André Gide, entre outras celebridades da época.
Eram esplendores que camuflavam o abuso de cocaína, a depressão, as dificuldades nas relações familiares e, por fim, a solidão.
Em 1925, realiza a sua primeira exposição individual, em Milão, e exibe seus trabalhos na primeira mostra art déco de Paris. De 1926 à metade dos anos 30, transforma-se numa verdadeira diva. Mais tarde, ainda tenta novos caminhos, através do Abstracionismo e da pintura a espátula, técnica esta que adopta nos anos 60. Mas a crítica e o público não a seguiriam. Após a morte do marido, em 1962, parou de pintar e mudou-se, primeiro para Houston, no Texas, e em 1978 para Cuernavaca, no México, aonde viria a falecer, em 1980. Entre os admiradores e colecionadores de sua obra figuram personalidades como o ator Jack Nicholson e a cantora Madonna, que a homenageia nos videoclips de Express Yourself e Vogue.
Dormeuse, 1934




Exposição de Tamara no Musée des années 30
http://chrysalide44.free.fr/dotclear/index.php?2006/06/05/417-tamara-de-lempicka-au-musee-des-annees-30

Por todos estes motivos, vale a pena visitar esta exposição até 16 de Setembro de 2007, ou se for caso disso revisitá-la.

Horário do museu: Todos os dias (excepto à segunda-feira) das 10h às 18h.
Aos domingos até às 14h, a entrada é gratuita.
Preço para adultos: 3€ Preço para Seniores e jovens: 1,50€

Museu de Arte Moderna
Av. Heliodoro Salgado, 2710-575 Sintra
Telef. 219248170

segunda-feira, 9 de julho de 2007

«Amor a quanto obrigas»

O amor é uma das grandes benesses da vida, quando envolto em felicidade e partilha, que une dois seres em torno de um ideal comum, aliviando a alma das mágoas, proporcionando sorrisos rasgados, tornando-nos mais leves, como se caminhássemos sobre nuvens…
Mas, infelizmente, o amor nem sempre traz felicidade, transformando-se num monstro pavoroso, uma droga viciante que se inala com sofrimento e sem cura de desintoxicação…tornando tudo à volta manchado de dor e melancolia.
Um dia destes ia eu caminhando tranquilamente pela rua, quando me despertou a atenção um casal que seguia à minha frente, em gestos coléricos e gritos ruidosos. Ela caminhava a alguns passos distante dele, trazia raiva na voz e sobretudo revolta no olhar, que era negro e marcado pela força do amor brutal. Estava fora de si e gritava com o homem que seguia a seu lado «O olho pode deixar de estar negro, mas o coração, esse vai continuar!». Esta frase trespassou o meu corpo como uma seta, fazendo-me pensar se um amor destes que maltrata, amargura e vicia, presta para alguma coisa, levando à falta de auto-estima, à degradação dos sentimentos, à corrupção da alma.
Ele impávido, seguia descontraído, como se nenhuma daquelas acusações o atingisse. Em poucos minutos, ela desistiu de lutar e dera-lhe a mão, juntando o seu corpo ao dele, como se toda a tristeza se tivesse desvanecido de imediato…e a alegria do seu contacto a inundasse novamente. Ritual de amor-ódio que não termina, que corre ciclos intermitentes, que castiga o corpo e deixa dedadas no coração.
Esta dura realidade da violência doméstica, da amargura do sofrimento em silêncio, atinge não apenas mulheres, mas também cada vez mais homens, não conhece idades, nem condições sociais…e como tal devia ser denunciada, colocada na boca do mundo, porque o amor nem sempre salva e liberta,também mata…Há pois que fazer alguma coisa para ajudar a combater esta situação. Não podemos calar as sovas que o vizinho dá à mulher, cheio de álcool e de droga, os maus tratos que infligem a menores, apenas porque não nos queremos meter na vida alheia. Quando os direitos humanos não são respeitados não podemos ficar calados e agir como se não fosse nada connosco, principalmente quando esta realidade implica crianças inocentes que não têm culpa de terem nascido no seio de famílias com tão poucos laços afectivos. Para que esse silêncio possa ser quebrado, deixo aqui o contacto da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que tem vindo a lutar contra este pesado flagelo da violência conjugal e familiar.
Em caso de necessidade, a APAV, existe para isso mesmo: para ouvir, aconselhar e apoiar, escutar de forma atenta e interessada, informar e aconselhar sobre os nossos direitos e a forma como poderemos exercê-los.
Esclarecem e acompanham no relacionamento com as autoridades policiais e judiciárias, orientando e ajudando nas diligências a tomar. Ajudam a Vítima e seus familiares a superar o sofrimento da vitimação. Apoiam e encaminham para aos apoios sociais existentes. Prestam apoio emocional, jurídico, psicológico e social a quem é vítima de crime e a seus familiares, desenvolvendo um processo de apoio qualificado. Os serviços de apoio prestados a cada vítima são gratuitos e confidenciais.
«O silêncio não ajuda, ele é, muitas vezes, cúmplice dos actos violentos. Se presenciar, suspeitar, ou for vitima de alguma situação de desrespeito pelos direitos humanos, não hesite, contacte o gabinete de apoio à vitima mais perto de si, ou ligue o número único 707 20 00 77 »
Serviços centrais de Sede
Rua José Estêvão 135 - A -Piso 1
1150 - 201 LISBOA
telf 21 358 79 00
fax 21 887 63 51
dias úteis:10H00 -13H00 / 14H00 - 18H00
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domingo, 8 de julho de 2007

«Navegar é preciso...»

Terra de marinheiros, de gerações e gerações ligadas ao mar, de bravos conquistadores e navegadores que deram nome a partes do mundo, o gosto de navegar deve ter-nos ficado no sangue. Talvez por isso, tenha descoberto recentemente um interesse por passeios em embarcações tradicionais no Tejo.
Meios de transporte de pessoas e mercadorias, “varinos”, “fragatas” e “botes de fragata” possuíram outrora um papel fundamental, assegurando a ligação entre Lisboa e a Margem Sul do Tejo.
No Seixal estas embarcações transportavam sobretudo géneros agrícolas e hortícolas, das quintas da região, que garantiam a subsistência da capital, lenha e outros produtos essenciais. Nos começos do século XX e até metade do mesmo, estas embarcações transportavam também cortiça das industrias transformadoras, como era o caso da Mundet no Seixal, sendo estas que traziam o produto acabado para Lisboa.
A partir dos anos 50/60, o uso destas embarcações começou a decair, em virtude dos ecos da modernidade e do progresso. A utilização de barcos de passageiros mais velozes, seguros e confortáveis, a construção da Ponte sobre o Tejo e a generalização do transporte rodoviário foram alguns factores que contribuíram para o seu desuso.
Por isso, estas embarcações rapidamente se transformaram numa memória de tempos de trabalho, de labuta, e sacrifício, dos homens do rio, de um tempo em que o Tejo era a sua morada e o pulsar da vida das comunidades ribeirinhas…
Como acontece com tudo, a modernidade ditou a sua ruína, aos poucos estas embarcações foram votadas ao abandono, constituindo um elevado encargo para os seus proprietários, devido aos elevados custos de manutenção dos mesmos, à escassez de estaleiros que fizessem estes trabalhos, a falta de pessoal especializado, as elevadas despesas de contribuições portuárias…. entre outros aspectos… Como consequência do progresso, as margens ribeirinhas e praias da margem sul do Tejo, foram-se enchendo de embarcações abandonadas, de cascos apodrecidos pela acção do tempo, foram sendo incendiados por mãos assassinas e vândalas que os consumiram e deles deixaram cinzas. Quem se passear pela Arrentela, pode ver ainda vestígios da fragata “Cravidão” junto do Núcleo Naval, incendiada nos anos 80, que causam verdadeiro dó de alma, por ver aqueles restos mortais ainda de pé, resistindo, tentando não apagar a memória dos tempos triunfais.
Hoje, os poucos exemplares existentes, são verdadeiras peças museológicas, pertencendo maioritariamente a autarquias, que as promovem turisticamente e para fins lúdicos.
O Ecomuseu Municipal do Seixal dispõe ainda de três exemplares, o bote de fragata “Gaivotas”, o varino “Amoroso” e o bote de fragata “Baía do Seixal”, que actualmente se encontra em funcionamento. Adquiridas como embarcações de tráfego local já desactivadas, a sua incorporação no EMS destinou-se a preservá-las e a reactivá-las, como embarcações de recreio, mediante algumas adaptações que não alteram a sua estrutura. Entre Abril e Outubro de cada ano, aproximadamente, segundo as condições atmosféricas, as embarcações tradicionais do EMS são utilizáveis pelo público, efectuando passeios no Tejo.
Sempre que haja oportunidade, gosto de poder fazer alguns destes passeios, geralmente com temáticas próprias, desde a aprendizagem de técnicas de tripulação destas embarcações, a destinos como o Ginjal, a Cova do Vapor, ou Belém.
Desta vez, o passeio enquadrava-se nas festas do colete encarnado, em Vila Franca de Xira. A partida ocorreu por volta das 12.30, no antigo cais do Seixal, no rio Judeu. Os participantes levavam farnel, boa disposição e espírito de aventura, o que nestas ocasiões é sempre necessário.
De vela erguida, aproveitando o vento que soprava, o barco caminhava silencioso pelas águas, com uma calmaria relaxante, que nos fazia perder a noção do tempo… afinal há quanto tempo estaríamos a navegar vendo a mesma paisagem, há minutos ou horas? Pouco importava, ali não havia pressas de chegar, não havia stress, nem correrias, o que importava era navegar tranquilamente. Estes momentos fazem-nos lembrar de como seriam as deslocações no rio antigamente… lentas, sem a prisão do relógio, apenas com o vento a comandar, a força das marés e das condições atmosféricas.
Após, chegarmos perto da ilha do Rato, nas proximidades do Montijo, encontrámos outras embarcações tradicionais de vela erguida, canoas, botes de fragata, varinos… Vinham alinhados da Moita, muitos do Centro Náutico Moitense, seguindo para a regata que rumaria até Vila Franca de Xira. Como o “Baía do Seixal” onde seguíamos não ia em competição, o nosso percurso foi mais calmo e deu para apreciar as outras magníficas embarcações com mais contemplação, verificando as estratégias utilizadas por cada uma delas para chegar em primeiro lugar ao destino. Como se tratava de uma regata sem percurso estabelecido cada uma devia escolher a melhor forma de lá chegar.
O dia estava radioso, o brilho do Tejo reflectia como prata o sol que se espelhava nas águas. E Lisboa, essa estava repleta daquela luz branca e azul que dela emana em dias soalheiros e aprazíveis, tornando-a ainda mais majestosa, desejável e a magnífica capital que é.
Após o encontro com as diferentes embarcações, o silêncio do rio foi substituído pelo som do motor. O percurso era longo e o vento começava a mudar, por isso a vela foi recolhida, tornando a viagem um pouco mais sonora do que o desejável, mas não havia outras alternativas e a nortada também não ajudava… (não há dúvida que antigamente a vida não seria fácil! Sem motor e sem vento de feição… as curtas distâncias deveriam parecer enormes…).
Rumando para norte, passamos por Santa Apolónia, o Parque Expo, a Ponte Vasco da Gama, admirámos o estuário do Tejo, as lezírias e alguns flamingos que lá se encontravam ao longe…
Chegámos ao destino por volta das 18.30 e aventura chegara ao fim.. Em Vila Franca de Xira, as festas do colete vermelho começavam a ficar ao rubro. No jardim, um grupo de rap cantava entusiástico, apesar da fraca audiência. Junto à estação, as ruas principais estavam vedadas para a célebre largada de touros. Os mais afoitos e destemidos encontravam-se já preparados na arena, aguardando com ansiedade a vinda dos bois. O ambiente era festivo e convidativo ao exagero, típico das festas ibéricas, onde o consumo excessivo de álcool associado ao risco da largada dos bois e a folia são os ingredientes necessários para uma festa de arromba.
Com o passeio terminado, foi tempo de rumar a Lisboa, mas desta vez de comboio, o “Baía do Seixal” ficou em Vila Franca de Xira para participar nas festas do colete encarnado, juntamente com as outras embarcações acostadas no cais.
Quem quiser desfrutar de uma experiência destas, que considero verdadeiramente interessante, deve consultar a programação do Ecomuseu Municipal e não perder a oportunidade de se fazer ao rio, pois como diz o poeta «navegar é preciso!…»

Ecomuseu Municipal do Seixal
http://www2.cm-seixal.pt/pls/decomuseu/ecom_hpage

«Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. »

Fernando Pessoa
Nota de Soares Feitosa
"Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Animais e Teatro...

Quem me conhece, sabe bem que os animais são tudo para mim, principalmente cães e gatos. Não consigo ficar indiferente às causas relacionadas com os direitos dos animais, pois estes são seres indefesos que dependem, em muitos casos, inteiramente da acção humana para sobreviver. Perante isto é sempre com imensa pena que percebo que há situações difíceis nas associações de defesa dos animais. Hoje li no jornal, um apelo da União Zoófila que me arrepiou e me fez sentir indignada perante a falta de sensibilidade das pessoas… Na verdade, é verão, é tempo de férias, de praia, de diversão, é tempo também para muitos fazerem as malas e deixarem os animais aí por qualquer lado, porque nestas alturas deixaram de ser o animal estimado, para serem o estorvo que já não serve, e atrapalha umas férias bem passadas sem preocupações. Perante isto, as associações de animais, como a União Zoófila, perdem o controlo da situação, que já de si é sempre complexa, e recebem animais em demasia, por não conseguirem recusar ajuda a mais um pobre animal que ali aparece.
Possuem 9 gatis com capacidade para vinte animais cada, mas actualmente têm 29 em cada gatil. A situação é de tal modo complicada, que muitos voluntários estão a levar gatos para casa, sem passarem pela quarentena, devido à falta de espaço. A juntar a isto, acumulam-se as dificuldades financeiras, a falta de alimentos, a necessidade de donativos e medicamentos.
Eu como sócia desta associação, para além da quota anual, vou amadrinhando animais, que curiosamente têm tido a sorte de ser adoptados. É um gesto que qualquer um de nós pode fazer e não custa assim tanto, no caso dos gatos são 8€ mensais e nos cães 13€. Se cada um de nós ajudar um pouco tornar-se-á mais fácil garantir ajuda a estes animais todos. Seja como for, as pessoas deviam medir muito bem as consequências de adoptar um animal, pois eles não são brinquedos e não podem ser abandonados na rua quando já não interessam. É desumano e criminoso cometer tal barbaridade!
Outra solução é fazer um intercâmbio de animais. Vinha anunciado no jornal diário «Meia Hora» que o Departamento de Higiene Urbana da Câmara Municipal de Lisboa, em parceria com a Liga de Defesa dos Animais e a SOS Animal, lançou uma iniciativa para criação de uma bolsa de voluntários, para acolhimento de animais quando os donos vão de férias, tentando assim diminuir as situações de abandono. Os pedidos dos donos e o voluntariado para acolhimento devem ser feitos pelo nº 213253555, ou pelo e-mail dhurs@cm-lisboa .

Mudando radicalmente de assunto, quem gostar de teatro, não deve perder a grande oportunidade de ver ou rever a Eunice Munõz no Teatro da Trindade, de 5 a 29 de Julho, com a peça Miss Daisy. É uma diva do nosso teatro que vale sempre a pena homenagear… Numa altura em que o teatro está de luto e ficou mais pobre sem a vivacidade do actor Henrique Viana, que interpretou personagens cheias de humor e “pinta”, como o “Calinas” e outros “bons malandros”, é bom valorizar o teatro e os nossos actores, pois eles são como estrelas cadentes, que passam rapidamente pelas nossas vidas e nos comovem com as suas interpretações. Por isso, nunca sabemos quando vai ser a última vez que os vamos ver representar…

Dias de verão....

Hoje parece de facto Verão! Será verdade ou será ilusão? Deixo-vos com este poema com cheiro a verão e a calor da nossa poetisa maior, Sophia de Melo Breyner, pode ser que vos inspire!.

«Os dias de verão vastos como um reino
cintilantes de areia e maré lisa
os quartos apuram seu fresco de penumbra
irmão do lírio e da concha é nosso corpo
Tempo é de repouso e festa
o instante é completo como um fruto
irmão do universo é nosso corpo
O destino torna-se próximo e legível
enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
Como se em tudo aflorasse eternidade
Justa é a forma do nosso corpo»

Sofia de Melo Breyner



quarta-feira, 4 de julho de 2007

Porto, Fotografia e Liberdade….

«Fotos, vejo-as por todo o lado, como cada um de nós hoje em dia; elas vêm do mundo para mim, sem que eu as peça; são apenas "imagens", o seu modo de aparecimento é o das mil e uma proveniências (ou dos mil e um destinos)», Roland Barthes.

No passado fim-de-semana fui ao Porto. Sempre que a disponibilidade permite rumo até à cidade invicta. Gosto de apreciar o Douro numa esplanada da Ribeira, contemplar as pontes, as caves do vinho de Porto, arregalar o olho à Serra do Pilar, caminhar e perder-me nas suas ruelas. Isto tudo porque há 10 anos vivi lá e aprendi a descobrir o ritmo da cidade ao mesmo tempo que ia conquistando os primeiros momentos de liberdade e independência. Fora a primeira vez que me achava sozinha numa cidade que não a minha, entregue ao meu destino, e com uma responsabilidade em mãos: ensinar!
Tudo no Porto me recorda esse tempo da Faculdade de Belas Artes e do desafio que representou para mim ensinar pessoas quase com a mesma idade do que eu e possivelmente com mais experiências de vida do que a minha, que acabava de me licenciar em Antropologia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa.
Nessa altura em que leccionava no Porto, as aulas ocupavam-me apenas uma parte do tempo, pelo que o restante era ocupado a descobrir a cidade, assinalando com ávida satisfação, num mapa da cidade que possuía, os lugares que ia conhecendo em cada dia que passava. Depressa o mapa foi ficando com outra mancha gráfica, de círculos e sublinhados, o que significava o progresso do meu conhecimento da cidade.
Agora, cada vez que volto, gosto de trilhar os mesmos percursos, de rever amigos, sobretudo das pessoas com quem partilhei esses meses esplendorosos, e ver coisas novas, ver espectáculos, exposições, etc.
Neste fim-de-semana, o tempo foi curto, mas valeu a pena… Não fui a muitos museus, mas fui a uma exposição de fotografia no Centro Português de Fotografia (recém fundido na Direcção Geral de Arquivos) que apesar de muito singela, me despertou curiosidade e interesse. Intitulava-se «Por teu livre pensamento» e foi inspirada num poema de David Mourão Ferreira. A exposição exibe várias fotografias do jovem fotógrafo João Pina, nascido em Lisboa, em 1980. Este começou a documentar a vida de ex-presos políticos portugueses no ano 2001, estendendo actualmente esse projecto à escala mundial.
Este trabalho desenvolvido por João Pina, relembra assim que dias em que a liberdade de expressão era utopia e quem aspirasse a dizer o que pensava era “enjaulado” e barbaramente torturado, ficando privado dos seus direitos de liberdade.
Este trabalho de João Pina é de facto, um roteiro da memória, representando quatro décadas de luta contra a ditadura. É interessante verificar o retrato dos ex-presos políticos no momento da detenção e compará-los com os retratos actuais, verificar o modo como o tempo passou por eles e os marcou. Faz-nos reflectir sobre o seu sacrifício, sobre o padecimento que sofreram para que hoje nós pudéssemos ter liberdade de expressão. São verdadeiros «heróis», mas esquecidos, ignorados… e afinal tanto a eles devemos…
Projectos como estes são sempre bem-vindos, para que esta memória negra nos sirva de lição e não seja esquecida, para não se repetir. Infelizmente as gerações mais jovens desconhecem essa realidade e tomam tudo por garantido, não dando valor às benesses que hoje temos principalmente e a mais importante: a Liberdade! Há pois que estar alerta, para não nos deixarmos mais amordaçar!...
«Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.»
Poema: David Mourão-Ferreira