quarta-feira, 29 de agosto de 2007

De que falamos afinal, quando falamos de amor??


Um destes dias caiu-me nas mãos uma daquelas revistas consideradas «light», cujos conteúdos não sou muito apreciadora, nem consumidora, mas despertou-me a atenção um dos artigos da Isabel Leal.
Neste artigo, esta psicóloga contextualizava o modo como o amor é encarado na sociedade moderna, referindo a forma contraditória como o vivemos, sendo difícil o seu estatuto nos padrões de vida actuais, caindo-se no risco do exagero e da pieguice ou na total indiferença, por parecer demasiado ridículo. Esta leitura, fez-me questionar o modo como vivemos presentemente este sentimento, sobretudo numa relação a dois, pois como sabemos este tem múltiplas formas de expressão.
Na verdade, o amor hoje em dia é, como foi traduzido o tal filme com o Bill Murray, «um lugar estranho», onde toda a gente ambiciona chegar, mas onde poucos permanecem, pelo menos muito tempo seguido e com a mesma pessoa.
É de facto bizarra esta luta contra o tempo, este desespero criado pela sociedade ocidental, onde se cria a ilusão de que o amor é o patamar supremo da felicidade. Em nome desse amor ideal, imaginado, que nem sempre se traduz numa vivência real, somam-se os divórcios e os casamentos fracassados, alicerçados pela rotina e pela solidão, pelo tédio, pelo hábito e conformismo, sem empolgamento, sem adrenalina, sem desejo… Falta de tolerância, de comunhão de interesses e partilha de ideais? Acomodamento a uma situação que se quer estável e sem sobressaltos? São questões muito particulares que só quem vive a dois poderá responder. Só sei que esta nossa utopia de felicidade, que se traduz numa insatisfação constante, onde ninguém está contente com o que tem, leva-nos à procura incessante da tal cápsula inebriante, estimulante dos sentidos. Afinal, todos temos o direito de trilhar o nosso caminho, ainda que este esteja repleto de cardos e de incertezas. O que importa é sentirmos que estamos dispostos a arriscar e partir rumo a esse destino incógnito.
Como consequência desse delírio, o amor virou um produto de consumo imediato, fruto desta vida acelerada que vivemos. Longe vão os tempos em que este durava para sempre…agora, amor que não seja convenientemente alimentado seca, murcha e definha.
Já que o mundo não parece abrandar o seu ritmo, temos pois de nos adaptar a esta nova forma de amar, rápida, intensa, fugaz, sem grandes compromissos. Que o amor seja eterno… enquanto dure! Nisto não há culpas, nem culpados…aceitemos os factos!

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Lucy


Gata pequenina,
Princesa de olhos verdes de água,
Doces e assustados,
Amiga,
Companheira,
Dedicada e fiel!
Não acordarei mais de manhã contigo zelando o meu sono,
Nem acariciarei o teu pêlo sedoso
Visita-me agora em sonhos,
Povoa a minha noite de fantasia,
Faz ron-ron no meu ouvido,
Sempre que a tristeza me invada.
Estarás sempre no meu pensamento,
Gata pequenina,
Tigrada,
Linda!


16-09-1996 / 10-08-2007


sábado, 25 de agosto de 2007

25 de Agosto de 1988

Dia 25 de Agosto é um dia para não esquecer jamais, jamais… Cada ano que passa parece mais distante, mas a recordação essa não morre, aviva-se em cada lembrança, em cada pormenor daquele dia tão cruel, tão triste e desolador, seguramente um dos piores da minha vida, que deixaria marcas para todo o sempre, não só em mim e na minha família, como também em muitos outros lisboetas que viveram esse dia fatídico.
Eram 5 e meia da manhã quando comecei a ouvir explosões no ar. Como tinha adormecido tarde a ver um filme de guerra, pensei que era sonho ou ainda aquele filme cheio de bombas e tiros. Mas, o barulho persistia, cada vez mais forte, cada vez mais perto. As sirenes começavam-se a ouvir, era grave o que estava a acontecer sem dúvida. Acorremos à varanda do andar de baixo, e nem quisemos acreditar no que víamos… o Grandela explodia por todo o lado, as labaredas eram grandes, e as explosões dos perfumes e das garrafas de gás sucediam-se, (se não fosse uma catástrofe diria que seria um espectáculo de fogo de artifício, caindo do céu fagulhas incandescentes).
Naquele momento, soubemos os quatro que a nossa vida estava a mudar, tudo a mudar em segundos… tudo a ruir…Numa fracção de segundos, a minha mãe, mulher valente e brava, subiu ao telhado para o defender, gritando aos vizinhos, que tirassem a roupa do estendal que começava a arder com as brasas que saltavam e caíam em qualquer canto. Eu enchia alguidares de água sem parar, para a minha mãe molhar as telhas que começavam a ficar quentes e com fagulhas a cair por todo o lado. Não havia tempo para chorar, eu para dentro pensava, “vai tudo correr bem, de certo é só o Grandela a arder, não haverá consequências maiores”.
Eram 6 da manhã, quando voltámos à varanda e vimos o que não queríamos ver, agora também o Chiado estava em perigo e o panorama era cada vez mais perigoso e dramático. Nessa hora, a minha mãe não pensou em mais nada, mandou-nos vestir, a mim e à minha irmã, não havia tempo a perder. Telefonou a uma amiga que vivia em S. Cristóvão, perto da rua do Mercado de Chão de Loureiro, enfiou-nos todo o ouro que possuía e mandou-nos ir.
Àquela hora as ruas ainda eram escuras, a electricidade tinha sido cortada, só se viam as labaredas e os vultos dos edifícios. Sozinha com a minha irmã pela mão, eu seguia assustada, mas segura que tudo havia de resolver-se, não queria acreditar na tragédia que via. O coração pulava e só pensava nos meus pais que tinham ficado a defender a casa e na pobre cadela, a Diana, que com os nervos não parava de ladrar e de tremer.
Em S. Cristóvão, vimos o incêndio no topo do mercado, que tem uma boa vista para a cidade. O fogo aumentara e propagava-se vertiginosamente. Eram oito da manhã, quando o fogo atravessou cada janelinha dos armazéns do Chiado, onde eu ia tantas vezes, desde menininha. Quando vi as pequenas janelas arderem como as velas de um bolo, confesso que perdi a esperança e aí chorei, chorei muito, porque pressenti que ia ficar sem casa. Por outro lado, preocupava-me o facto dos meus pais nunca mais chegarem…
Por volta das 9h, eles chegaram com a cadela pela mão. Pareciam dois mendigos… com a roupa do corpo, perdidos de angústia e vencidos pelo cansaço. Traziam no rosto, as marcas do desconsolo e da impotência. Mulher de vontade férrea, a minha mãe não abandonou um só minuto a sua missão, tendo sido arrastada pelos bombeiros a sair de casa, pois o fogo aproximava-se já muito. Conseguiram salvar a televisão, os pássaros, a cadela e pouco mais…
Nestes momentos de aflição, passam-nos tantas coisas pela cabeça, que aquilo me incomodava era além de tudo o resto, o facto de não ter conseguido salvar roupas, fotografias e sobretudo os livros escolares do 9º ano, que o meu pai acabava de comprar. Pensava onde iria morar, o que iria ser de todos nós, que rumo seguiríamos daí por diante.
Mas, tal como tem acontecido noutras circunstâncias, houve um anjo da guarda, e eu quero acreditar nisso, que nos salvou. O fogo destruiu a habitação de várias pessoas, chegou mesmo a matar um bombeiro, mas parou nas escadinhas de S. Francisco, antes de pegar ao quarteirão do meu prédio, no nº59, da Rua Nova do Almada. Quis Deus que o vento mudasse e o fogo não chegasse às Finanças, nem ao Tribunal, o que teria transformado aquele incêndio no mais desastroso de sempre, com proporções muito maiores, pois os documentos que albergavam seriam a acendalha ideal para o inferno.
Na baixa, esta ferida levou tempo a sarar, quase 12 anos. Hoje que se completam 19 anos do incêndio, podemos dizer que pouco sobrou daquelas cinzas, daqueles destroços, daquele cheiro insuportável a queimado que durante tanto tempo se manteve e se entranhou nas nossas narinas. Desde aí, não posso ver incêndios, até porque no Chiado onde vivi mais nove anos, existiram outras ameaças, outros pequenos fogos, que nos obrigaram a sair no meio da noite, sempre à espera de não voltar.
Hoje, o Chiado continua a ter vida, um pouco diferente é certo, mas o importante é que está vivo, e continua a ter o seu charme. Tal como o nome do café situado neste local, também eu o quero gritar bem alto «Amo-te Chiado!»
Fotos do «Blog do Tinoni»
http://casadotinoni.blogspot.com/2007/08/o-incndio-do-chiado.html
e do blog «A Defesa de Faro»
http://adefesadefaro.blogspot.com/2007/06/incndio-chiado-1988.html
Dia 11
17 de Agosto de 2007

Este foi um dia muito longo, diria mesmo interminável, com mais de 1200 Kms de viagem desde Barcelona até à 1 e meia da manhã no Marquês de Pombal. Mas, apesar de tudo foi muito fácil de aguentar, graças à boa disposição constante que reinava no piso inferior do autocarro. As anedotas começaram logo no início do dia, sucedendo-se sem parar, contadas à desgarrada. Já não havia riso que aguentasse tanto absurdo…Mas foi uma forma agradável de passar o tempo e de não nos saturarmos tanto.
À medida que nos aproximávamos de casa era evidente o sentimento de melancolia por tudo se aproximar do fim, por ter de dizer adeus aos lugares e às pessoas que conhecemos e com quem tanto convivemos. Em breve, tudo se tornaria apenas lembrança, afinal tinha sido tudo muito intenso e único nestes dias que era difícil pensar em retomar a rotina do quotidiano. Este foi realmente um tempo fora do tempo…
Por outro lado, conforme nos aproximávamos do destino começava a saber bem chegar novamente a casa e recuperar as forças e as energias despendidas. A entrada na fronteira do Caia foi por isso muito saudada, fazia-nos falta ouvir falar novamente português, tomar a nossa biquinha, ver o nosso futebol…
O resultado foi francamente positivo, apesar de tanto andamento e de algum cansaço à mistura. Trouxe tanto comigo destes 11 dias, que mal consigo exprimir em palavras, desde as experiências vividas, as emoções à flor da pele, os sonhos e as fantasias, os companheiros de viagem que encontrei, as gargalhadas e as lágrimas. Trouxe comigo as paisagens verdes e desérticas que atravessei, os rios e as pontes, os palácios e castelos, as igrejas e os santos, as cidades que conheci, amei e deixei. Trouxe a surpresa da descoberta, a inocência e a curiosidade saciadas pelo espírito de conquista e de posse do olhar, mas também a nostalgia do abandono, a saudade que ficou dos locais visitados.
Carrego nesta bagagem infinita de sentimentos, as histórias hilariantes e os momentos de cumplicidade, as alegrias e as tristezas. Pululam recordações e momentos, vivências que não se fixam numa simples fotografia. Resta-nos agora a memória desses cerca de 7000 Kms de jornada fantásticos… Que venham mais, muitas mais! Haja saúde!

Contactos da agência Mil- Andanças
http://www.mil-andancas.pt/

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Dia 10
16 de Agosto de 2007


Saídos de Nimes, onde não vimos absolutamente nada, com excepção do hotel, dirigimo-nos para Barcelona.
Foi uma viagem um pouco maior do que esperávamos, pois apanhámos uma enorme fila alguns quilómetros antes da fronteira com Espanha, que nos reteve imenso tempo. Para quem já precisava de ir à casa de banho, esses quilómetros escassos, feitos em marcha lenta pareceram intermináveis.
Chegados a Barcelona, aproveitámos ao segundo as escassas 5 horas e meia que nos restavam.
Barcelona é um poderoso centro cosmopolita, um dos grandes «umbigos» do mundo, com uma animação que não acaba nunca.
As ramblas, uma sequência de secções de rua que vão da Praça da Catalunha até ao mar (Rambla de Canaletes, Rambla dos Estudos, Rambla de São José, Rambla dos Capuchos e Rambla de Santa Mónica) estavam repletas de gente que se acotovelava para passar, para ver os espectáculos de rua (algo de que os carteiristas muito se aproveitam), que se desenrolavam um pouco por todo o lado. Os sotaques e as proveniências das gentes que por aí deambulavam eram das mais diversas. Sentimo-nos aqui verdadeiros «cidadãos do mundo», disso não há dúvidas. Para quem não goste de bulícios e de vida agitada, movimento, confusão e animação, esta não é a sua cidade ideal, pelo menos em pleno mês de Agosto (é a segunda vez que aí vou nessa altura do ano). Mas, para quem aprecie animação, está no lugar certo, pois é um local repleto de emoções e de aceleração, assemelhando-se um pouco à noite de Santo António de Lisboa.
Para aproveitarmos o melhor que a cidade tem, e porque o grupo que seguia mal conhecia ou não conhecia mesmo a cidade, eu servi aí de guia do circuito. Saquei do meu guia turístico e do mapa e lançámo-nos na aventura, pretendendo revisitar rapidamente alguns dos locais emblemáticos que mais gostara de ver em 2000, quando lá fui a primeira vez. Mas, não foi uma tarefa muito fácil, não que tenha enganado mal o caminho ou que nos tivéssemos perdido (esse era o meu maior receio), mas porque a cidade na sua generalidade se encontra em obras, o que para o turista que a visita é bastante aborrecido.
A 1ª paragem foi junto às Ramblas, ao Palau Guell, um palácio feito por Gaudi para Guell. É bastante bonito e vale mesmo a pena fazer uma visita ao seu interior e ao terraço, mas esta foi a primeira desilusão, estava em obras.
Seguimos pela Praça Real, em direcção ao Bairro Gótico, que faz lembrar as ruas de Alfama, completamente tortuosas e irregulares, para irmos até à Catedral, mas encontrámos não só obras, como uma enorme fila para entrar. Pensei que outra opção interessante seria ir até ao Palau da Musica Catalana, que tanto me tinha encantado quando o visitei e até não era longe da Catedral. Trata-se de um palácio com mistura de estilo arquitectónico com influências árabes e modernistas, especialmente de Arte Nova; uma verdadeira delícia para os sentidos. Mas, quis o destino que se encontrasse encerrado também para obras, embora me tenham dito na loja do Palácio que seria apenas em Agosto.
Como os meus companheiros de viagem tinham muita curiosidade em ver «La Pedrera», de Gaudi, encaminhei-os para a Praça da Catalunha e seguimos pela longa avenida do Passeig de Gracia. De vez em quando perguntava às pessoas das bancas de jornais se estava no bom caminho, pois apesar dos mapas, às vezes as distâncias não são tão curtas como parecem. Nessa avenida, pudemos apreciar outros edifícios maravilhosos, como a Casa Amatler, no nº41 e a Casa Batló, no nº 43. A primeira foi construída em 1898 por Josep Puigi Cadafalch para um fabricante de chocolates e a segunda foi construída por Gaudi. Esta faz-me sempre lembrar aquela história infantil em que a casa era feita de doces, pois é assim que me parece. Foi inspirada na lenda de S. Jorge e do Dragão. Quando visitei Barcelona pela primeira vez, esta encontrava-se em obras, por isso pude ver agora com satisfação as formas deste edifício encantado. A entrada era paga e bastante dispendiosa (16,50€), pelo que optámos por ver só as fachadas exteriores.
Um pouco mais à frente, encontrámos «La Pedrera», Casa Milá, como realmente se chama. Esta é uma das criações mais impressionantes de Gaudi, um enorme prédio de habitação, com uma aparência rochosa, que se assemelha a uma gruta. As varandas, em ferro forjado e trabalhado, assumem formas e contornos ondulados e as chaminés no terraço, assemelham-se a feições humanas. No exterior, a fila para a bilheteira era enorme, faltando nessa altura cerca de 40 minutos de espera até comprarmos o bilhete (que custava 8€).
Como havia elementos do grupo que não queriam sair de Barcelona sem ver a Sagrada Família, pegámos no mapa e verificámos se era possível ir dali a pé até ao famoso monumento. Como era possível, metemo-nos ao caminho.
A Sagrada Família é um dos ex-líbris mais famosos de Barcelona e a obra de Gaudi mais célebre, embora não acabada. O templo da Sagrada Família possui pináculos com mais de 100 metros, com decoração de cores brilhantes. Como nunca foi concluída, os guindastes fazem já parte da paisagem.
De regresso houve tempo ainda para passar no Arc del Triomf, de autoria de Josep Villaseca, com um estilo semelhante ao Mudéjar, o qual terá servido de entrada para a Exposição Internacional, que aí ocorreu em 1888.
Já nas Ramblas, caminhámos em magote no meio da multidão, sempre a olhar para o lado para não nos perdermos uns dos outros e como forma de nos protegermos dos amigos do alheio que estão por todo o lado (uns colegas do autocarro foram mesmo assaltados à saída do metro sem que dessem por isso).
Nas Ramblas os homens estátua, os dançarinos de hip-hop, os retratistas e caricaturistas, cantores, vendedores ambulantes e outros, animavam a noite, que começava entretanto a cair. Não havia indícios que essa agitação fosse acabar tão cedo.
Sentíamo-nos contagiados pela alegria efusiva que emanava da cidade, embora também muito cansados (todo o longo circuito que falei foi feito a pé). Barcelona é mesmo a cidade da folia, da expressão das artes, da liberdade, da música, do futebol, do espírito olímpico! É sempre fabuloso visitá-la…sobretudo se ecoar nos nossos ouvidos a espectacular voz de Freddie Mercury «BARCELONA!!!!, VIVA BARCELONA».
Fotos CM (com excepção da das ramblas e do Palau de La Musica Catalana)

quinta-feira, 23 de agosto de 2007



Dia 9
15 de Agosto de 2007


Após o pequeno-almoço dirigimo-nos para o centro de Estrasburgo. As lojas estavam ainda a abrir quando chegámos, se bem que, por ser feriado, nem todas abririam.
Fizemos um passeio de barco pelo rio III, afluente do Reno, que se divide para formar até cinco braços no centro da cidade (na Petite France). Deu para conhecer os locais da cidade mais interessantes, como a Petite France (verdadeira maravilha arquitectónica), com casinhas floridas e muito típicas da Alsácia e os edifícios assombrosos do Parlamento Europeu.
No passeio de barco calhámos com um grupo de alemães e confesso que não foi muito agradável. O passeio era guiado e traduzido em várias línguas através de um sistema de auscultadores. Acontece que me distraí e falei com os meus companheiros e ri-me inocentemente, sem perceber que estava a causar ruído. De repente, só vim um enorme alemão de meia-idade (que já me tinha empurrado antes) virar-se para trás furioso e ter gritado comigo severamente, palavras que ainda bem não percebi. Eu olhei para ele e calei-me subitamente, não valia a pena chatear-me. Passaram todo o tempo a mandar calar os portugueses, como se a disciplina naquele contexto valesse mais do que a boa disposição.
Após o passeio ainda deu para ir a pé, pelas margens do rio, até à Petite France, onde comprámos souvenirs, postais e tirámos fotografias.
Voltámos para o autocarro depois de almoçar. Esperávamo-nos uma longa viagem com cerca de 746 Kms (quase Portugal de lés-a lés) até Nimes.
Ao fim de algum tempo com este tipo de rotina, de pôr mala, tirar mala, ir para o hotel, partir, conhecer os locais e repetir tudo novamente sentimo-nos quase viajantes profissionais. Parecemos quase aqueles apresentadores de programas de viagens que não param em parte alguma, tipo Michael Palin. Só nos faltou mesmo a televisão atrás… Ao fim de quase duas semanas fora de casa, neste ritmo, parecia que já tinha passado mais de um mês, de tal forma os nossos dias eram intensos. O autocarro era quase como se fosse a nossa casa e nós seguíssemos com a casa às costas em constante digressão. As pessoas que nos rodeavam eram quase uma segunda família.
O bom ambiente do «gang da cave» contribuiu muito para que aquelas horas intermináveis de viagem se tornassem mais leves e permitiu anestesiar a tristeza que ainda sentia.
Chegámos a Nimes ao fim do dia, por volta das 10h da noite. Nem conhecemos o centro, fomos directos para o hotel, completamente exaustos…No outro dia, o despertar era novamente bem cedo!

*Fotos de CM

quarta-feira, 22 de agosto de 2007


Dia 8
14 de Agosto de 2007

O dia foi praticamente todo ocupado com a viagem de Praga a Estrasburgo, tendo passado pelo caminho pela Alemanha. Foi estafante e longa, com poucos atractivos, à excepção das desgarradas de anedotas do João e do Gonçalves que sempre ajudam a animar mais um pouco.
Estrasburgo foi uma autêntica surpresa, não esperava uma cidade tão bonita… É bastante pitoresca, com muitas pontes, harmoniosamente decoradas com flores garridas, e casinhas típicas que parecem de chocolate e apetece trincar…
Depois de alguns dias em países mais frios, como a Alemanha, a Áustria e a República Checa, soube bem a forma acolhedora e simpática com que fomos recebidos nesta belíssima cidade francesa situada na fronteira com a Alemanha.
Caminhámos em direcção à Catedral, a qual curiosamente apenas possui uma torre, e no largo fomos surpreendidos por dois «gendarmes» (polícias franceses), que faziam as pessoas parar na via pública. Pegavam-lhes ao colo, confiscavam-lhes os telemóveis, falando com quem estava do outro lado da linha. Quando vi aquilo, vi logo que havia ali qualquer coisa de errado, pois as cenas não batiam certo. Mais à frente, viam-se três figuras vestidas de preto (dois homens e 1 mulher) com um ar bastante bizarro, com roupas velhas e rotas, que faziam pantomimas, metendo-se com alguns portugueses do grupo do nosso autocarro. Cedo me apercebi que estas improvisações se enquadravam numa actividade intitulada «Les arts dans les rues», que decorria nessa semana em Estrasburgo. Deu para soltar umas valentes gargalhadas, até porque os gendarmes eram imparáveis e metiam-se com toda a gente, desde colocar-se à frente dos carros e tirar de lá de dentro o condutor, correr com cães que estavam a ser passeados pelos seus donos. Mais à frente, na praça decorria outro espectáculo de teatro e quando voltámos ao largo da Catedral, para nos encontrarmos com o Nuno, decorria um espectáculo de malabarismo e cuspidores de fogo.
Foi difícil arranjar um restaurante que nos servisse uma refeição às 8h00, porque a maior parte dos estabelecimentos fecham cedo, parece que o francês gosta de “jantar com as galinhas”.
Foi bom voltar a conviver com o povo latino, mais simpático e afável… fantástico, adorei!

*Fotos CM


Dia 7
13 de Agosto de 2007

Praga é linda, mas ainda assim esperava mais. Talvez tenha sido de tanto a ter idealizado. Esperava uma cidade mais pitoresca do que é, pois já começa a ter muitas influências do exterior. Hoje confluem a esta capital gentes de todo o mundo, o desenvolvimento do seu comércio é notável, como o demonstram as marcas internacionais aí representadas. O turismo constitui actualmente uma das principais fontes de riqueza, aproveitando ao máximo as suas potencialidades culturais, com uma exploração, eu diria um pouco abusiva dos seus recursos (sobretudo no que diz respeito aos museus e outros equipamentos culturais). Porém apesar disso, muito há a fazer no que respeita à sua formação profissional, pelo menos para muitos dos checos que contactei. Alguns não falam inglês, quase por teimosia, outros recusam-se a falar connosco, ou fazem-no de forma brusca, com total indiferença pelo seu interlocutor. Muitos deles não são bons negociantes, nem se interessam pelo potencial cliente, cruzando os braços ou virando-lhes as costas. Consequência do turismo massivo que ali existe? Falta de formação profissional virada para o turismo? São questões que deixo no ar. Não quero estar a julgar um povo pelas experiências que tive nesta cidade, mas penso que em alguns casos, falta mesmo a simpatia e um sorriso. São coisas pequenas mas que fazem toda a diferença. Devo dizer, porém que também encontrei alguns checos simpáticos e cordiais, embora não muitos.
Após uma noite bem dormida fomos até ao Castelo de Praga. Este foi residência secular dos reis da Boémia e mais tarde dos presidentes da República. É uma cidade dentro da cidade, onde as ruas e ruelas se emaranham e os soldados desfilam aprumados todos os dias ao meio-dia.
No Castelo, pode ver-se a Catedral, o Palácio Real, a Basílica e a Rua do Ouro. Existe um bilhete combinado para ver os últimos três locais referidos, (sendo o primeiro de acesso livre) que custa cerca de 10 €. Acabei por não ver nenhum destes sítios por dentro, uma vez que a fila para a Catedral era muito grande e não queria correr o risco de ficar ali retida. Os outros locais optei por não ir, por achar que não valeria a pena pagar para ver tudo a correr (só tínhamos cerca de 2 horas livres para ver tudo).
Outra das atracções no Castelo, como já referi, é o render da guarda pelos soldados do Palácio Real. Apesar de não ter achado um espectáculo assim tão interessante, é uma curiosidade, que vale a pena ser vista.
A meio da tarde, depois de uma manhã e um bocado da tarde promissor, com um sol, não digo radiante, mas quentinho, fomos surpreendidos por uma chuva intensa, mas de curta duração, obrigando-nos a refugiar debaixo de uma arcada. Assim que foi possível fomos ao Mercado de Artesanato e frutas, perto da cidade velha, onde aproveitámos para fazer as últimas compras e os últimos souvenirs.

Com o sol novamente a brilhar no céu, fomos fazer o passeio de barco no rio Vltava, que tínhamos já combinado realizar e que receámos não vir a fazer devido à chuva. Foi uma hora tranquila, onde descansámos os pés moídos e inchados de tanto caminhar e repousámos o olhar e o espírito. Se não fosse uma súbita dor de dentes, teria sido tudo perfeito, o que vale é que passou…
Acabámos o nosso segundo e último dia em Praga, exaustos, mas contentes. Apesar de não termos visto tudo quanto queríamos, conseguimos absorver o essencial, sobretudo a sua ambiência. Era impossível ver Praga com algum pormenor em tão pouco tempo, sobretudo os museus, os concertos de música clássica (que se realizavam na maior parte das igrejas), a ópera do D. Giovanni, em cena, entre outras ofertas culturais.

* Fotos CM e do blog Fatos e Fotos de Viagens (a da guarda de Praga, a nossa não ficou boa). Aproveitem e cusquem o blog é muito giro!

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Dia 6
12 de Agosto de 2007


Saímos cedo de Viena em direcção a Praga, mas ficámos retidos na fronteira da Áustria durante cerca de meia hora. Parece que por estas paragens é sempre uma aventura entrar ou sair nestes países, nunca se sabendo bem o que se pode esperar, ou são extremamente rigorosos e exigentes ou são mais flexíveis. Na entrada da República Checa a passagem foi breve, porém houve um polícia, com um ar absolutamente intimidante que entrou no autocarro. Olhou para nós e depois de saber de onde vínhamos deixou-nos seguir. Segundo o nosso guia Nuno, as coisas mudaram um pouco na República Checa, havendo alturas em que se tinha de esperar que os guardas da fronteira viessem do almoço para poder passar, ficando ali retidos à espera. A postura destes guardas também mudou um pouco, na medida em que era prática comum exigirem a abertura de malas e sua averiguação.
A viagem até Praga correu sem mais percalços, apesar das estradas não estarem em muito boas condições. As paisagens eram igualmente verdes, mas não sei explicar bem o porquê, pareciam-me bem mais tristes e desoladas que as anteriores que tinha visto.
Chegados a Praga foi uma verdadeira aventura, na medida em que tínhamos de seguir o guia Nuno, desde o lugar onde deixámos o autocarro, perto da estação, até à Igreja do Menino Jesus de Praga, o que equivalia a um percurso de mais de meia hora. Se juntarmos a isto o facto das ruas estarem cheias de gente, sobretudo a Praça da Cidade Velha e a Ponte Carlos, e começarem a existir casos de pessoas muito aflitas para ir à casa de banho, temos um cenário algo complicado… Mas graças à paciência do Nuno e ao seu sentido de dever chegamos todos ao destino desejado. Achei engraçado que esta cena da corrida para a casa de banho, na qual também participei, tenha ocorrido nessa praça grande, onde se encontra a Igreja de Nossa-Senhora de Týn, isto porque li mais tarde que nela se encontra sepultado Tycho Brahé, astrónomo dinamarquês, que morreu devido a uma lise de bexiga durante uma audiência com Rodolfo II. Existe mesmo uma expressão local que diz «Não quero morrer como Tycho Brahé», que por outras palavras significa «Tenho de ir à casa de banho». Foi uma engraçada coincidência.

A praça da Cidade Velha com os seus edifícios gótico-barrocos, faz-nos recuar alguns séculos atrás, misturando-se com alguns edifícios de estilo arte nova, de época mais tardia. Aí pode admirar-se não só a igreja já referida atrás (embora não acessível a entrada por estar em obras), mas também a Igreja de S. Nicolau, e sobretudo a torre da Câmara Municipal com o seu relógio astronómico, verdadeiro ponto de atracção dos turistas à hora certa, vendo-se desfilar Cristo seguido dos seus apóstolos, ao som de um sino tocado por um esqueleto (sinceramente já vi espectáculo mais giro e penso que não justifica o entusiasmo, mas enfim….). É possível também subir à torre com 70 metros para ter uma vistabre a cidade.
A Ponte Carlos é a melhor referência da cidade, pois todos os caminhos vão dar a ela. Tal se deve ao facto de ter sido a única ponte até ao Séc. XIX. É uma ponte pedonal onde se podem encontrar caricaturistas, vendedores de souvenirs, tocadores e cantores e o afluxo de gentes é aí sempre muito elevado. Em Agosto, torna-se quase intransitável sucedendo-se os encontrões sucessivos e a falta de perspectiva da mesma. Esta possui trinta estátuas de santos, reunidos em conclave sobre o rio Vlatava, incluindo a de S. João Nepomuceno e o Santo António, entre outros. Diz a lenda que esta ponte nunca cairá, pois os pedreiros misturaram gemas de ovo à argamassa para que a ponte ficasse mais sólida.
Após termos aprendido o caminho de regresso ao autocarro, fizemos o nosso percurso livre. Deambulámos pela cidade de forma algo espontânea e improvisada, embora quiséssemos ver o Bairro Judeu. Após uma série de pedido de informações (não é muito fácil pedir informações aos checos, mal sabem falar inglês e alguns não são simpáticos, principalmente as mulheres) lá encontrámos o cemitério judaico que tanto procurávamos, mas já estava fechado, assim como a Sinagoga e o Museu, fechava às 18.30. Apesar disso ainda deu para ver as lápides do exterior. Encontram-se nesse estreito recinto
12.000 estelas, datando o túmulo mais antigo de 1439 e o mais recente de 1787.
Regressámos à Praça da Cidade Velha para o ritual do horário do relógio, mas não ficámos encantados. Ao fim do dia, vencidos pelo cansaço acabámos por jantar num restaurante italiano.
* Fotos de CM

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Dia 5
11 de Agosto de 2007


Porque a vida tem de continuar, este foi um dia em que me deixei envolver pela cidade e tentei tirar partido dela o mais possível.
Começámos o dia por uma visita ao Palácio Schönbrunn, também conhecido por Palácio da Sissi. Consiste numa sumptuosa residência imperial, construído com a intenção de rivalizar com Versalhes (apesar de existirem algumas semelhanças entre estes, não considero que este seja mais majestoso do que o palácio francês). Schönbrunn, fortemente simétrico e extremamente longo, dá para um parque com largas avenidas muito florido, existindo inúmeros tanques e fontes ornamentais. O interior é em estilo rococó, e possui bastantes salas de grande requinte e magnificência, entre quartos, salas de jantar, aposentos reservados dos imperadores, salas de recepção entre outros numerosos recantos. O que me encantou de sobremaneira foi o salão de baile. Recordei-me das matinés de domingo em que passava na televisão os filmes da Sissi e do momento em que via a Romy Schneider, que interpretava o papel da imperatriz, dançar com o imperador num faustoso salão, com candelabros cintilantes. O que me desagradou mais foi mesmo as salas repletas de gente, com visitas guiadas a decorrer em simultâneo, enquanto ouvíamos os auscultadores com tradução, tornando-se confuso e saturante, com os sucessivos atropelos dos turistas que se iam amontoando atrás dos seus guias.
Após a visita parcial ao seu interior, fizemos a mais rápida e económica, o «Imperial Tour», mais uma vez por questões de economizar tempo, ainda fomos visitar apressadamente os jardins. Chovia e estava desagradável, mas queríamos aproveitar aquela ocasião para tirar algumas fotografias. O jardim era belíssimo.
De volta ao centro de Viena, almoçámos no Nordsee, uma companhia de restaurantes económicos (fast-food) com pratos essencialmente à base de peixe e saladas.
Percorremos as artérias da cidade mais movimentadas, apinhadas de turistas. O movimento era intenso. Visitámos a Catedral de Santo Estêvão, (a qual tem sido desde a Idade Média o centro das atenções dos cidadãos de Viena), a Igreja de S. Pedro, onde se crê ter existido no mesmo local, antes da sua construção, o primeiro santuário de Viena e a Igreja dos Capuchinhos.
Como o tempo era escasso optámos por não visitar museus, até porque era muita a oferta e não seria fácil escolher, além de que eram grandiosos fazendo-nos perder a oportunidade de explorar melhor a cidade.
Percorremos algumas ruas sempre a pé e observámos alguns pontos cruciais, como a Ópera (junto da qual existiam homens vestidos de Mozart vendendo bilhetes para o espectáculo a 150€), passámos pelo Palácio Imperial Hofburg, de arquitectura de estilo sobretudo barroca, onde admirámos os pormenores das fachadas, e dos jardins e das fontes nas suas imediações. Avistámos o Museu Albertina, o Museu de História de Arte e o Museu de História Natural, assim como o parque situado entre os dois com um monumento a Maria Teresa. Fomos até ao exterior do Parlamento, um pouco semelhante com o nosso mas muito mais bonito, com a estátua de Pallas Athenas em frente ao mesmo.
Passeamos pela Ringstrasse, pela Rathaus novamente e fomos à procura do rio Danúbio. Não queria deixa Viena sem ver o rio que tanto ouvira falar. Depois de muito andar encontramos uma ponte onde pudemos observá-lo. Ainda pensámos fazer um passeio de charrete mas ficava um pouco caro e achámos que era melhor continuar a circular a pé, ainda que estes já estivessem cansados e as ancas acusassem dor.
Uma das experiências mais marcantes e hilariantes da minha curta estadia em Viena foi sem sombra de dúvida aquela que passei nas casas de banho públicas, que aconselho desde já a visitarem, no meu caso não parei de rir o tempo todo.
Na Suíça, na Alemanha e na Áustria as casas de banho públicas são geralmente pagas, sobretudo as das estações de serviço. Em Viena, existem umas senhoras que têm como profissão a gestão das casas de banho, verificando a limpeza das mesmas depois de utilizadas e o seu acesso, organizando a entrada de cada senhora. Mas, o que me fez rir às gargalhadas, não foi essa disciplina, foi o facto de elas praticamente nos meterem no pequeno cubículo e depois ainda nos fecharem à chave, com uma chave enorme. Numa das vezes, que frequentei estes equipamentos sanitários, tal não foi o meu espanto quando uma mulher já de idade, com uma peruca meio torta e vestes semelhantes aos de uma doméstica, depois de me fechar a mim e a outras pessoas, passado nem um minuto, começa a bater às portas e a dizer em tom austero «Schenel, Schenel!» (não sei se é assim que se esctreve) para que nos despachássemos. Eu só pensei que ela nos fosse abrir a porta, enquanto estávamos naqueles preparos. Eu ria-me, mas pensei mesmo que era isso que ia suceder e ainda me ri mais, quando quis abrir a porta e percebi que ela me tinha mesmo trancado… A mulher, que lembrava uma personagem da série «Alô-Alô», não querendo parecer preconceituosa, parecia uma pequena nazi.
À noite, o jantar decorreu no Bairro de Grinzinger. Foi um jantar organizado, tipicamente para turista ver. Mas, como tínhamos pensado que era a nossa última noite em Viena, decidimos arriscar.
A ementa foi porco fumado, salsichas grelhadas, batatas no forno e couve avinagrada, com pão e sobremesa de Strudel de maçã. As empregadas serviam às mesas com trajes típicos e era grande a animação esteve a cargo de um acordeonista e um violinista. Ao princípio as músicas eram austríacas, tipo valsas e outras mais típicas, mas à medida em que a exibição se ia aproximando do fim, qual não foi o nosso espanto quando começámos a ouvir músicas como o «Vinho Verde», do Paulo Alexandre, o «Malhão, Malhão», e os «Passarinhos a bailar». Digamos que deu para rir, cantar, conviver, bater palmas. Foi divertido, mas não justificou os 33€ que pagámos. A comida era à conta, não se repetiu, além de que não era nada de especial e sem as bebidas incluídas. Mas, já sabemos o turista em época de férias acaba por ser sempre um pouco explorado. Nas paredes da entrada do restaurante viam-se fotografias de gente famosa que tinham ali estado, tais como a Sofia de Loren, o Bud Spencer, o Bill Clinton e o Papa João Paulo II (ainda me pergunto o que terá lá ido fazer o Papa…)
De regresso ao hotel o ânimo estava ao rubro. As gargalhadas «do gang da cave», (pessoal que ia no piso inferior do autocarro) ecoavam ruidosamente, provocadas pela boa disposição do nosso colega João, sempre com uma anedota na ponta da língua. Soube-me bem rir…

* Fotos de CM

domingo, 19 de agosto de 2007


Dia 4
10 de Agosto de 2007


Amanheceu chovendo. O frio continuou a fazer-se sentir. Ainda bem que trouxemos roupa quentinha, pois sabe bem andar confortável. Tomamos o pequeno-almoço cedo e rumamos novamente para Munique, que distava do hotel apenas alguns quilómetros. Deram-nos cerca de duas horas livres para explorar o centro (verdadeira carta de alforria, pois todo o percurso é calculado ao pormenor, deixando-nos muito limitados, mas eram essas as condições possíveis.
Munique é capital do estado da Baviera, sendo a terceira maior cidade da Alemanha e é atravessada pelo rio Isar. Em Munique percorremos as artérias principais do centro em torno da Marienplatz (Câmara Municipal). As ruas são bonitas e arranjadas, todas ornamentadas com flores. Nos passeios viam-se vendedores de fruta e às vezes, vitrines móveis, junto às lojas, que chamavam a atenção dos transeuntes. Aproveitamos para visitar a Igreja de St. Michael, passear pelas ruas, tirar algumas fotografias. Cada recanto é um encanto. Houve tempo também para entrar em algumas lojas e comprar souvenirs, saborear chocolates e bolos típicos, cobertos de queijo e bacon.
Em seguida, dirigimo-nos para Salzburgo. A paisagem era novamente bucólica, coberta de verdes pastos, com vacas castanhas e cor creme. Ao longe viam-se pequenas casinhas, que sobressaíam na imensidão do verde.
Passámos a parte da tarde em Salzburgo. Esta cidade é notável! De uma beleza sofisticada, inspirada na figura do compositor Wolfgang Amadeus Mozart, por ter sido aqui que este nasceu. A cidade possui uma bela arquitectura barroca e situa-se nas margens do rio Salzach, entre as montanhas Kapuzinerberg e Mönchberg.
O tempo que possuímos para visitar a cidade não deu para ver nada em pormenor, mas permitiu-nos uma panorâmica geral da mesma e o seu ambiente. Conseguimos espreitar a belíssima catedral e percorremos as ruas e as praças amontoadas de pessoas que seguiam os seus guias turísticos. Nas ruas de maior comércio a circulação é extremamente condicionada pelos turistas, pelo que se aconselha a que andem próximos uns dos outros, pelo menos até conhecer os caminhos, pois é muito fácil perderem-se. As fachadas das casas eram alegres, ornamentadas por flores. Os estabelecimentos comerciais não possuíam anúncios em néon, mas em ferro forjado e trabalhado, cheios de pormenores. Entrámos na Casa de Mozart, onde este nasceu, mas infelizmente as visitas eram apenas de meia em meia hora e nós tínhamos um horário limitado para voltar ao autocarro. Nas lojas, tudo servia para vender em nome do famoso compositor, desde chocolates, ímans, canecas, sacos de pano, CD’s, chapéus-de-chuva, um merchandising que não acabava.
De Salzburgo seguimos para Viena de Aústria. No caminho observámos cordilheiras, lagos e paisagens pitorescas, que transmitiam paz e tranquilidade. Alegrava-nos a expectativa de chegar a essa capital majestosa.
Aí chegados, o deslumbre foi total. Os monumentos eram sumptuosos, a arquitectura requintada. Eram «ahs!» de espanto em cada visão. Sentia-me completamente esmagada pela imponência desta capital.
Jantámos no Jardim em frente da Rathaus (Câmara Municipal). Havia bancas com gastronomia de vários locais do mundo e eram várias as opções possíveis para uma refeição. Acabei por comer risotto e um prato de massa. Decorria também neste local ao ar livre um festival de filmes musicais, sobretudo de música clássica e ópera. Nesse dia exibia-se a filmagem de um concerto interpretado por Anna Netrebko, Rolando Villazón e Plácido Domingo, acompanhados pela Orquestra da Ópera Alemã de Berlim, conferindo ao espaço uma acústica e um ambiente lírico, quase comoventes. Não vou esquecer que a nossa chegada a este jardim coincidiu com a interpretação da ária do «Bambino Caro» de Pucini, que tanto aprecio na voz da Callas. Foi algo mágico, como se Viena nos brindasse com boas vindas e nos dissesse: «Este é o meu espírito!».
A noite estava algo fria, mas ainda assim estava convidativa para quem quisesse aproveitá-la. As esplanadas estavam cheias e o recinto onde se assistia ao espectáculo gravado também. Contrariamente do que sucede em Portugal, onde a música clássica é encarada com enfado pela maior parte das pessoas, ali as pessoas vibravam com ela e apreciavam-na verdadeiramente, como se ela fizesse parte da sua forma de estar na vida.
No meio daquele ambiente, sentia-me perfeitamente emocionada por estar ali a desfrutar daqueles momentos únicos. Por outro lado, estava ansiosa com notícias de casa. Quando o telefonema de Portugal chegou e confirmou as minhas suspeitas, não consegui aguentar mais e cedi às emoções que jorravam em mim como um rio revolto. Sentada nas escadas do Teatro Nacional Alemão, o Burgtheater, expressei toda a minha angústia compulsivamente. A minha gata fora abatida no fim desse dia, depois de muito sofrer nos últimos dias. Tinha 10 anos e 11 meses e depois de todo esse tempo de companheirismo e cumplicidade eu não estava com ela... Toda aquela dor acompanhada pela música vibrante que ecoava na praça e pela voz de Plácido Domingo fez-me estremecer. Estava numa das mais belas cidades do mundo, porém sentia-me triste…