quinta-feira, 19 de junho de 2008

As barbearias e barbeiros de Santiago do Cacém

Retomando o lançamento dos Cadernos do Património sobre os barbeiros e barbearias do Concelho de Santiago do Cacém, deixo aqui ficar uns apontamentos sobre o mesmo trabalho. Para os interessados nesta publicação, penso que bastará entrar em contacto com a autarquia de Santiago do Cacém, uma vez que não são pagas.
imagem retirada do blogue: santo.andre.blogspot.com

No concelho de Santiago do Cacém, tal como noutros locais, as barbearias conquistaram uma clientela fixa, tendo conhecido o seu apogeu nos primórdios do século XX, começando a decair a partir da década de sessenta.
Apesar do florescimento do negócio, são poucos os registos oficiais sobre as barbearias do concelho até, pelo menos, 1948. Esta situação deve-se ao facto de não existir um licenciamento obrigatório até essa data, o que faz cair no esquecimento muitas das barbearias existentes até esse período, uma vez que não existem documentos que as referenciem. Foi a partir do final do ano de 1948, quando entrou em vigor o Licenciamento de Estabelecimentos Comerciais e Industriais, (que abrangeu também as barbearias) que passaram a existir registos dos estabelecimentos licenciados e com alvará, na autarquia municipal[1]. Através da consulta das Cadernetas de Concessão de Licenças de Comércio, de 1948 e o Livro de Alvarás de Licenciamento de Estabelecimentos Insalubres Incómodos e Perigosos e Outros, de 1949 a 1961, foi possível redesenhar uma geografia das barbearias do concelho, desde 1948 até aos nossos dias.

Constata-se que durante este período temporal (1948-1995) existiram 78 estabelecimentos com alvará[2], em todo o concelho. Estes concentraram-se sobretudo em Santiago do Cacém, e nas freguesias do Cercal do Alentejo, S. Domingos, Abela, Alvalade e Ermidas Sado, existindo um menor número de estabelecimentos nas freguesias de S. Bartolomeu da Serra, S. Francisco da Serra e S. André.[3]
O número de barbearias foi assim bastante mais elevado do que aquele que existe actualmente. Por esse motivo, essencialmente nos anos quarenta, cinquenta e sessenta, a concorrência entre os barbeiros era mais aguerrida, procurando-se a todo o custo agradar os fregueses e fidelizá-los aos estabelecimentos. Dizem os barbeiros que viveram essa época, que o seu trabalho era mais exigente e aprumado. Todas as estratégias serviam para atrair a freguesia, contando-se que muitos barbeiros nem varreriam a barbearia durante todo o dia, para que se pensasse que ele atendera muitos clientes. Na cidade de Santiago do Cacém, chegaram a existir mais de quinze barbearias, localizadas na zona centro, sobretudo nas ruas: Combatentes da Grande Guerra, General Humberto Delgado, Camilo Castelo Branco, Prof. Egas Moniz, Cidade de Setúbal, Dr. Manuel António da Costa, Praça do Município e Av. D. Nuno Álvares Pereira, entre outras.


Caracterização do espaço das barbearias ainda existentes


Os estabelecimentos ainda existentes, sobretudo os mais rurais, são autênticos museus vivos. A cadeira de barbeiro rotativa, da antiga fábrica António Pessoa é uma presença quase obrigatória em todas estas barbearias. Os espelhos enchem esses espaços, muitas vezes exíguos e acatitados. As paredes encontram-se forradas com calendários, galhardetes clubísticos ou fotografias antigas. Nas bancadas expõem-se uma multiplicidade de objectos, alguns dos quais já sem uso, como navalhas, assentadores, limpa-navalhas, máquinas manuais de cortar o cabelo, perfumes, loções, entre outros produtos, que servem apenas para decoração.
Do ponto de vista social, estes lugares desempenharam desde sempre um papel crucial na sociabilidade masculina. Num passado recente, esse convívio era favorecido também pelo horário alargado que estes estabelecimentos possuíam, sobretudo ao sábado quando se juntavam mais homens, funcionando, muitas vezes até à meia-noite, uma hora da manhã.
Alguns chegavam a ir para este estabelecimento apenas para passar o tempo, depois dos cafés fecharem. A barbearia era de tal modo conotada com um local onde se sabiam as notícias, que os clientes quando chegavam à barbearia costumavam perguntar ao barbeiro se haviam novidades.
Actualmente, nas poucas barbearias existentes, do concelho de Santiago do Cacém, ainda se vive um certo ambiente familiar e acolhedor, promovido pela figura do barbeiro, mas a sua função social tem vindo, gradualmente, a perder importância, tendo encerrado muitos destes espaços comerciais, consoante os seus proprietários ou empregados vão falecendo ou entrando na reforma.


A APRENDIZAGEM DO OFÍCIO E A PROFISSIONALIZAÇÃO DO BARBEIRO

Um dos temas abordados nesta publicação tem a ver com a aprendizagem do ofício de barbeiro, a qual costumava ocorrer quando os rapazes tinham entre os 12 e os 16 anos, prolongando-se durante cerca de três a quatro anos.
Os aprendizes começavam por desempenhar funções que não se relacionavam propriamente com o ofício, faziam recados aos mestres, arrumavam a barbearia, escovavam os cabelos das roupas dos clientes, entre outras tarefas de menor responsabilidade. Por vezes, passava-se um ano e mais, até que exercitassem o que iam observando. Nessa altura, começavam a fazer a barba aos clientes. Mas, nem todos concordavam que fossem os aprendizes a atendê-los, pois sentiam receio que os rapazes os cortassem. Outros, pelo contrário, mais audazes até incentivavam os aprendizes, não se importando que estes os atendessem.

Com o tempo, aperfeiçoavam-se também na afiação das navalhas e na técnica do corte de cabelo. Passados alguns anos de prática, necessária para exercerem a profissão, eram considerados barbeiros, passando à categoria de oficiais. A partir desse momento, ficavam a trabalhar nos estabelecimentos onde aprenderam o ofício ou iam à procura de um lugar noutra barbearia. Após ganharem experiência, a maioria dos barbeiros estabelecia-se por sua conta, alugando ou comprando uma barbearia, conquistando aos poucos a sua própria clientela.
Alguns deslocavam-se também aos domicílios, a casas de lavradores, a cooperativas e herdades agrícolas, havendo também quem se deslocasse à cadeia para assistir os reclusos.

A par da sua actividade nos estabelecimentos comerciais, os barbeiros, até cerca dos anos 40/ 50, d século XX, possuíam também alguma actividade ambulante, sobretudo por altura das feiras, deslocando-se até elas para trabalhar. Não precisavam de muito espaço, apenas o indispensável para desempenhar as suas funções, ocupando um lugar geralmente perto de uma taberna ou café, para se abastecerem de água. Armavam uma barraquinha com uns panos, colocavam uma ou duas cadeiras e com a ferramenta que traziam dentro de uma mala ou de um caixote e começavam a trabalhar. Diz quem se lembra, que na feira da Abela costumava haver sempre um ou outro barbeiro a cortar barbas e cabelo. Dos barbeiros entrevistados, quase nenhum chegou a ir a feiras, embora haja quem se lembre de colegas mais antigos que frequentavam não só as feiras do concelho, mas também as de Grândola e as de Castro Verde.


Outra das vertentes curiosas do ofício de barbeiro foi em tempos recuados a de sangrador e dentista. Existem relatos dos finais do século XIX, inícios do século XX, que nos indicam este tipo de práticas entre os barbeiros, já não nos hospitais e com a projecção que noutro tempo tiveram, mas como técnica de recurso, em pequenas localidades, onde nem sempre o acesso a um médico era possível. Nessas situações, o barbeiro continuou a desempenhar esse papel, sendo também uma espécie de curandeiro. Acudia aos domicílios, “aplicava sinapismos, cáusticos (...) fazia clisteres, curativos, escalda-pés, circuncisões, cortava abcessos, extraía dentes, vacinava, acudia em casos de mordeduras de cobras, etc.”[4]
No início do século XX, era vulgar encontrar os barbeiros Tira Dentes também em feiras, ostentando “a tiracolo um rosário de dentes humanos, como documento de antigas operações cirúrgicas!”. Outros barbeiros, exibiam à porta dos seus estabelecimentos, tabuletas onde informavam que arrancavam dentes, fazendo-o dentro das lojas, ou tendas, onde trabalhavam. Nos primeiros anos do século passado, essa função tornou-se exclusiva dos dentistas, que se especializaram nesse domínio.
Todo este imaginário popular em relação aos dotes terapêuticos do barbeiro, encontra-se actualmente esquecido, sobrevivendo apenas o ditado “A quem dói um dente, vai ao barbeiro”, citado por muitos dos barbeiros do concelho de Santiago do Cacém.
Notas
[1] As barbearias a partir de 1948 tiveram de possuir um alvará sanitário, sendo vistoriadas por técnicos da Câmara Municipal. Só eram aprovados os alvarás quando as barbearias reuniam os requisitos de higiene necessários.
[2] Apesar destes serem os dados oficiais, havia sempre quem praticasse esta actividade de forma ilegal e sem alvará. Era o caso dos barbeiros que acumulavam esta ocupação com outra função profissional, trabalhando na sua casa sem possuir o negócio declarado.
[3] Nos documentos consultados não há qualquer menção às restantes freguesias do concelho.
[4] Carlos Araújo da Silva (1955) A quem dói um dente vai ao barbeiro”, Separata da Revista Portuguesa de Medicina, Outubro, Rio de Janeiro, p.6

Sem comentários: