terça-feira, 31 de março de 2009

Os Maias no Trindade – até dia 26 de Abril


Finalmente, depois de duas tentativas fracassadas e de ter comprado os bilhetes com três semanas de antecedência, lá consegui ir ao Trindade ver os Maias. Confesso que a leitura deste romance de Eça de Queirós, foi decisiva para a minha formação de leitora e para a descoberta deste autor realista do séc. XIX, desbravando assim um novo campo literário e um novo gosto pelos seus romances.
Quase vinte anos depois da sua leitura, eis-me no Trindade, nesse teatro, tantas vezes citado pelo próprio Eça, sendo agora o próprio local onde se leva à cena esta obra-prima do autor.
O que sempre me agradou nesta obra literária do Eça e continua a interessar, é a sua actualidade, a sua veracidade. Passados mais de cento e tal anos, apercebemo-nos que nada mudou na sociedade portuguesa, pois a mentalidade continua a ser a mesma retratada pelo Eça nas ruas do Chiado. Somos aparentemente mais sofisticados, mas no fundo não passamos do mesmo. Sempre a espreitar quem passa, a dizer mal das modas e dos ares, a contestar as políticas e as novas correntes, mas sempre de braços cruzados, que é a nossa posição mais cómoda.
Na verdade, a peça que está em cena no Trindade, mostra-nos aspectos desta obra, que nos revelam tudo isso. Na minha opinião, esta versão teatral assenta mais nessa perspectiva das figuras da sociedade de então, da política, das traições e das intrigas burguesia fútil, do que propriamente na relação infeliz e incestuosa de Carlos Eduardo da Maia e de Maria Eduarda. Apesar de serem eles as figuras principais do romance, aqui figuram quase como personagens secundárias, perante o contexto social da época.

No folheto da peça, distribuído à entrada do teatro, está bem clara essa provocação, interrogando a assistência perante a actualidade da peça. «Será que, nos aspectos essenciais da sociedade portuguesa, mudou assim tanta coisa, nos últimos cento e tal anos?»…..
A peça vale a pena pelas interpretações de todos, destacando-se naturalmente a de José Fidalgo e a de Sofia Duarte Silva (filha da minha antiga colega Luísa da Escola do Cercal do Alentejo) e a de todos os outros elementos do elenco. Salientava ainda dois actores que me fizeram rir bastante (sim, porque a peça tem bastantes momentos hilários…) o João Didelet com o seu discurso apaixonado sobre a fé e os anjos… e a o Pedro Górgia na figura do célebre personagem Dâmaso, que como sabem, é caracterizado por um certo excentrismo e comicidade da época, proclamando frases caricatas como «Chique a Valer!», e «Que Seca!».
Quem ainda não tem bilhetes e faz mesmo questão de recordar ou de conhecer esta magnífica obra, pois já sabe, tem mesmo de se apressar, uma vez que tem acontecido um verdadeiro fenómeno de público, fazendo com que as sessões, sobretudo as de domingo estejam sempre esgotadas. Trata-se de uma boa sugestão para domingo à tarde, ou sábado à noite, depois de um bom jantar!

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