segunda-feira, 25 de maio de 2009

BREVE PERCURSO DA HISTÓRIA DA EVOLUÇÃO PRÉ-DARWINISTA


No ano em que se assinalam duzentos anos do nascimento de Charles Darwin, muitos têm sido os eventos culturais a que temos assistido em comemoração da vida deste homem e do impressionante contributo científico que nos deixou em legado. Entre esses eventos, assinalo a extraordinária exposição que esteve patente na Fundação Calouste Gulbenkian, desde Fevereiro até ao dia 24 de Maio. Sem sombra de dúvida um exemplo notável de exposição que atrai público, está bem concebida e tem uma importante mensagem a transmitir.

Neste seguimento, os meus próximos posts aqui no Anthropos vão ser dedicados a Charles Darwin e ao Darwinismo, inspirando-me para isso num trabalho acaadémico por mim realizado durante o 3º ano de licenciatura, na disciplina de Antropologia Biológica, leccionada pelo saudoso prof. Carlos Jesus, falecido recentemente e que aqui já dei notícia. Por falar nele, não posso esconder que quando visitei a exposição na Gulbenkian me lembrei muito dele e das suas aulas invulgares. Para ele Darwin era uma espécie de Deus inspirador, embora ele não fosse crente e dissesse que Deus não existia…

BREVE PERCURSO DA HISTÓRIA DA EVOLUÇÃO PRÉ-DARWINISTA

Durante quase cerca de 2 milénios, a história da criação segundo a tradição judaico-cristã foi aceite sem discussão ou argumentos em todo o mundo ocidental, uma vez que a ciência se encontrava nas mãos do poder eclesiástico que tudo dominava.
O Mito da criação da Terra por Deus teve no entanto os seus detractores, que foram oportunamente votados ao silêncio.

Assim, Frascooter, em 1517, afirmava que muitos fósseis não eram capricho da natureza, mas formas vivas do passado. Em 1570, Owen confirmava que a Terra se compunha de diversas camadas sobrepostas cronologicamente diferenciadas, o que implicava que nela e nas formas de vida havia mudanças. Por seu turno também Isacc de Peyrére estudava umas pedras estranhamente desbastadas, cujo trabalho, atribuiu a homens primitivos anteriores a Adão. Porém, esta teoria foi tão subversiva para a época, que o seu livro foi queimado publicamente em 1655.

A curiosidade sobre quando exactamente o evento da criação teria ocorrido aumentava. Estranhamente é um membro eclesiástico, James Ussher (1581-1656) quem, nos livros científicos vem mencionado como um dos propulsores para o avanço da ciência, mesmo sem disso ser ter apercebido.
James Ussher, arcebispo de Armagh, conseguiu uma resposta em 1650, quando anunciou, como resultado dos seus cálculos baseados na numerologia do Velho Testamento que a criação tinha tido lugar em 4004 a.C. Mais tarde, esses cálculos tornaram-se ainda mais precisos pelo trabalho do Dr. John Lighfoot, Mestre do St. Catherine’s College, Cambridge, que declarou o dia preciso como sendo 23 de Outubro, exactamente ás 9h da manhã.
Apesar da tentativa, tanto os cálculos de Ussher como de Lighfoot foram muito rudimentares, dando à Terra um modesto passado de 6.000 anos.

Durante o séc. XVIII, à medida que as provas desse tipo se tornaram evidentes, foi procurada uma explicação que ainda assim correspondesse aos ensinamentos da Biblía.
Um dos resultados, verdadeiramente “desastroso” foi a Teoria do Dilúvio, que explicava que os fosseis fossem remanescentes de animais que tinham perecido na grande inundação, no tempo de Noé.
Porém, logo se tornou claro que um simples evento como o dilúvio não poderia explicar a aparente progressão em diferentes camadas de rochas. O verdadeiro golpe final veio com a descoberta de fósseis “pré-diluvianos”, que eram sem dúvida aparentados de animais que vieram após o dilúvio.

Desde os finais do séc. XVIII, desenvolve-se progressivamente a geologia e a Paleontologia, que se dedicam a estudar as diferentes camadas da superfície da terra e as ossadas aparentemente estranhas que começam a ser descobertas, de animais que já na altura não existiam.
Este desenvolvimento progressivo provocou uma profunda mudança em relação às antigas crenças. Por outro lado, os trabalhos de Buffon (Teorias da Terra de 1749 e Épocas da natureza de 1788), que serviriam para superar o mito a partir da perspectiva científica e os estudos de Locke, viriam a destruir filosoficamente o dogma das ideias inatas. Começava-se a romper com a ideia generalizada de imutabilidade.

Lamark (1744-1829), filósofo e naturalista francês propõe pela primeira vez uma teoria coerente de evolução. Considerava que na natureza existia uma progressão, desde os mais pequenos organismos até aos vegetais e animais mais complexos, incluindo o Homem.

Charles Lyell é outra referência obrigatória neste longo percurso da história da evolução, uma vez que a geologia catastrofista e diluviana só foi superada após o desaparecimento em 1830 do seu livro «Princípios de Geologia». Para Lyell, a única forma correcta de interpretar os estratos geológicos era supor que as forças da natureza teriam operado sempre de forma uniforme. Assim, seria possível compreender muito melhor a antiguidade da Terra e aceitar a do próprio homem.

A teoria de Charles Darwin seria assim o culminar sintetizador de uma teoria unificada, em que muitos cientistas contribuíram com os seus conhecimentos e estudos.

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