domingo, 15 de novembro de 2009

Exposições no Museu Berardo – emoções à flor da pele

«Uma voz alcança alguém na escuridão. Imaginar», Samuel Beckett, Companhia

A minha última visita ao Museu Berardo, ficou arcada por fortes emoções. Desloquei-me ao CCB com um duplo objectivo, por um lado levantar bilhetes para uma actividade intitulada «Chá de histórias» que se irá realizar nesta instituição no dia 6 de Dezembro, e por outro lado, ver a exposição «Amália: coração independente».


Quando me deslocava para a exposição decidi entrar na sala ao lado, aproveitando para ver «Silêncios», com organização de Marin Karmitz. A experiência não poderia ter sido mais assustadora, só semelhante à que tive nos tempos idos da «Casa do Terror», na Feira Popular. Foi a primeira vez que dei comigo em gritos abafados no meio de um museu e procurando a saída apavorada.
Os corredores eram ermos, escuros e labirínticos, as salas apenas com uma luz ténue ou com um foco fraco, fazendo aumentar o suspense ao entrarmos. A primeira sala que visitei provocou-me alguma curiosidade, já que ao entrar deparamos com um espaço repleto de livros, causando algum impacto no visitante. Até aí pensei que cada sala seria um pouco uma surpresa, e não estava enganada…Ao sair, voltei ao corredor e dirigi-me para outro espaço. Na entrada, a legenda dizia: «Tadeusz Kantor, Enfants à leurs banc d’ecoliers pour la piéce la classe morte, 1989». O título da obra pareceu-me estranho, mas mesmo assim decidi entrar e descobrir o que me esperava. Quando me introduzi na sala, dei um pulo. Na penumbra vislumbrei um grupo de crianças, feitas de cera, sentadas nos bancos de madeira antigos da escola. Vestidos de negro, contrastavam com a tez pálida dos rostos…aquelas crianças pareciam saidinhas de um filme de terror! Perfeitamente assustadoras.


Como se não bastasse, quando caminhava nos corredores, apareciam de repente, saídos no meio da escuridão, os vigilantes, como se fossem aparições de outro mundo (aqui os substitutos das personagens horripilantes da «Casa do Terror»). Não resisti muitas vezes a pequenos gritos, acompanhados de «ai que susto!». Se não estivesse sozinha na exposição talvez me desse para rir, mas assim, foi mesmo para assustar.
Pior foi mesmo quando entrei noutra divisão e deparei com várias gabardinas pretas penduradas no ar, parecendo que vestiam um corpo humano, mas sem membros. Ao passar por elas, o sensor ligou-se e dispararam vozes… essa foi a gota de água. Rapidamente procurei a saída, mas o caminho era labiríntico…se a pretensão da exposição era causar emoções fortes, atingiram o objectivo em pleno comigo. Quando cheguei à entrada, comentei com a rapariga que estava na recepção da exposição o efeito da mesma em mim, e ela concordou que a maior parte das pessoas sai impressionada, pelo que ela disse que possivelmente irão fazer um estudo sobre o impacto da exposição nos visitantes.
Com o pulso ainda um pouco acelerado, dirigi-me à exposição «Amália: coração independente». Para quem pensava que ia ver apenas os corações construídos pela artista plástica Joana Vasconcelos, foi bastante interessante descobrir que o seu conteúdo era vasto, documentando o percurso pessoal e artístico de Amália, através de fotografias, excertos de filmes protagonizados pela artista, registos sonoros, vestuário, jóias, discos, testemunhos, etc.
Ao longo da exposição, Amália ecoa dentro de nós, bate no nosso coração o seu trinado eloquente. Arrepia olhá-la, sentir o seu semblante carregado, ditado de dor e sofrimento. De onde lhe terá vindo a fatalidade, o fado que trazia dentro dela? Mulher diva, mulher povo, mulher poetisa e cantadeira, o seu olhar seduz e encanta, mas é triste, quando nos detemos nos seus retratos, expressões captadas pelo instante fotográfico que imortaliza o seu sentir. Mulher heróica, mulher destino, força motriz de uma nação, amada, odiada, chora a cantar o fado de um Portugal que pouco sorri para o mundo.
Ao sentirmos a energia que emana desta Amália que ouvimos, percebemos que esta vibração que nos envolve e nos remexe as entranhas é sinal que o seu espírito continua vivo dentro de nós. Esta exposição, tal como a que se apresenta no Museu da Electricidade, também do Museu Berardo, ou no Panteão Nacional, entre outras manifestações culturais em volta do seu nome, só vem provar que a frase de João Tordo, argumentista do filme «Amália», e com que acaba o mesmo, tem cada vez mais sentido "Dizem que morreu em 1999... Enganam-se".

«Aquela que nos cantou morreu há 10 anos. Esta exposição celebra a sua vida, a sua obra, a sua imagem, a sua voz, o seu mito. Devolve-nos Amália para a reconhecermos. Revela-nos Amália para a redescobrirmos.
(…) Em Amália, a voz é já imagem e a imagem ainda é voz. Ouvimo-la e vemo-la.» (folheto da exposição).

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