quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

«O Homem do Coração Preso» de Sónia Alcaso

«A avó Barbara tem pele de cera. O tempo levou-lhe o porte miúdo, mas deixou o riso de criança. Vive na rua da Vitória, num dos prédios que resistiu ao terramoto. A entrada, escassamente iluminada, dá acesso a uma escada estreita que desagua num apartamento de cinco divisões, sem comunicações independentes umas das outras. Um interior muito mal assoalhado. É uma casa atarracada, construída na mais estrita economia» p.5


Sónia Alcaso lançou em« Dezembro o seu primeiro romance, «O Homem do Coração Preso» na livraria do King, pela mão da Chiado Editora. A Sónia, que já conheço há alguns anos através da irmã Cláudia, companheira de caminhadas e acampamentos, revelou-me com este livro uma faceta que desconhecia por completo: o seu apego às palavras e à escrita.

O seu romance «O Homem do Coração Preso» está escrito realmente com o coração de Sónia. Cada frase sua, enche-nos a alma de sensações, olfactos, visualizações, sons, que de tão intensas nos fazem transportar para dentro do enredo. As descrições são fluidas, muito visuais e detalhadas, o estilo é ritmado e poético, repleto de referências a livros, filmes, e os diálogos incrivelmente bem conseguidos, de tão reais que são. Parece quase um guião de um filme, embora sem a frieza e o distanciamento que encontro nos mesmos.

« (…) tornava-se insuportável a ideia de estar fechado entre paredes. Saía e lutava contra o temporal. O vento cortava-me a cara e a chuva fechava-me os olhos; mas havia árvores e céu. As grandes árvores e a imensidão do céu. Entre outros, lembro-me de um momento especial. Refugiei-me no parque num dia de grande tempestade. A água encharcava-me os ossos e estava um vento enraivecido que partia os ramos das árvores. Eu tremia de frio, mas nem por isso me fui embora. À minha volta, tudo tinha escurecido, o ar, a terra, a erva. Ergui os olhos para o céu, negro e baixo e, de repente, senti que o podia dominar com o voo do meu coração, se o abrisse. E nessa altura surgiu uma grande nuvem branca como a neve, batida pela luz de um relâmpago. Fiquei a olhá-la hipnotizado, e pouco depois, o temporal acalmou.» p.61

Escrito na primeira pessoa do sexo masculino, este é um romance que retrata a vida de Leonardo, um rapaz de 34 anos, desiludido com a vida, amante dos livros e aspirante a realizador de cinema, com uma paixão obsessiva por Alexandra e fascinado por Lina. A trama passa-se em Lisboa, mais concretamente entre a Baixa, o Chiado e o Bairro Alto, zonas repletas de valor afectivo para mim particularmente porque aí vivi metade da minha vida.

Desejo à Sónia as melhores felicidades literárias, já sei que ela está a preparar o segundo livro e basta-me esperar que esse possa ser encontrado nas grandes superfícies comerciais, porque a sua escrita merece estar ao alcance de um público maior e de ser mais conhecida. Parabéns Sónia, continua a extasiar-nos com a tua emoção, as tuas palavras e os teus enredos!

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