quarta-feira, 10 de março de 2010

O Filme Etnográfico e a Antropologia

Os próximos posts deste blog serão dedicados à Antropologia Visual. Para tal, irei basear-me num trabalho efectuado em 1998 para a cadeira com o mesmo nome, leccionada por Catarina Alves Costa, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa. Espero que possa suscitar algum debate antropológico e algum interesse sobretudo para os estudantes de antropologia que são seguidores deste blogue.

O filme etnográfico é uma das vertentes do documentarismo e está directamente relacionado com a exploração de temas sociais e culturais.
O seu percurso está ligado e determinado, por um lado, à própria evolução do documentarismo, no que diz respeito aos métodos e técnicas nele empregues e, por outro lado, à tradição antropológica que vai influenciando os seus conteúdos e modos de abordagem.
Pode ser entendido como um filme que procura revelar uma sociedade a outra, preocupando-se com a vida física de um povo ou com a sua experiência social. Daí que a maior parte dos filmes etnográficos realizados se interessem muito pelo mundo em “extinção”, pela valorização e preservação do exótico, “viajando” até aos paraísos perdidos das “sociedades primitivas”.

Nesta perspectiva, o filme etnográfico partilha com a Antropologia um interesse comum: o conhecimento de outras culturas e civilizações, de certos aspectos característicos das mesmas (cerimónias, rituais, identidades colectivas), sua compreensão e divulgação.

Desde os primórdios do filme etnográfico que esta ambição de dar a conhecer o desconhecido e desvendar outras realidades foi um imperativo.
Nannok of the North, de Robert Flaherty, realizado em 1922, foi provavelmente o primeiro filme etnográfico a abordar contextos primitivos, nomeadamente a vida tradicional esquimó. Neste filme podemos verificar uma tentativa de observar as atitudes e comportamentos que na figura de Nannok, personagem indígena escolhida, representaria este grupo étnico.

Outra das possibilidades do filme etnográfico, e muito considerada pelos antropólogos, é a utilização da imagem enquanto complemento da teoria.
Foi neste sentido, que a Antropologia Visual, enquanto disciplina académica se desenvolveu (principalmente na América, na Universidade da Califórnia), na medida em que as imagens colhidas no campo ilustravam a realidade que as monografias escritas retratavam.
Todavia, só se pode falar de filme etnográfico quando essas imagens são elaboradas, montadas, de forma a constituírem um todo, deixando de ser um mero material “bruto” que em si corresponderia ao equivalente das notas do diário de campo.
Na escrita, como na imagem, pretende-se a concepção de um “mundo de representações”, uma elaboração de um modelo cultural, embora com leituras diferentes.

O valor do filme reside assim, no facto de poder explorar os vários níveis da experiência humana, com uma simultaneidade que é impossível nos estudos escritos. Numa simples cena, por exemplo é possível observar não só os detalhes físicos de um ritual, mas também o seu sentido psicológico e o seu significado simbólico.
Por outro lado, o filme proporciona o desenvolvimento da Socio-Línguistica e da Cinestesia, abordando aspectos da linguagem não verbal, como os gestos, as atitudes corporais, as posturas, as emoções e permite desvendar aspectos não visuais da cultura, como é o caso dos valores, das crenças e das representações.
Apesar da importância da imagem, o filme não exclui o documento escrito , nem vice-versa, pois, para se compreender o que se observa é necessário que haja um conhecimento prévio, sistematizado, de forma a dar sentido ao que se vê.
No entanto, para muitos autores, entre eles David MacDougall, o filme etnográfico não tem de ser forçosamente antropológico ou realizado em contextos “longínquos”, já que o aspecto intercultural do filme etnográfico não é sempre essencial. Muitos filmes etnográficos podem mesmo abordar as sociedades modernas e industrializadas, reflectindo sobre as nossas próprias “vivências”. O que se torna importante é , essencialmente, o sentido com que os realizadores examinam e retratam aspectos das suas próprias sociedades , de acordo com a forma e contéudo, e que têm paralelo com os utilizados no filme etnográfico. É o caso, por exemplo, de Wieseman ou Rouch, entre muitos outros realizadores, que tentam filmar a sua própria realidade, através de gestos quotidianos dos actores sociais.
Por outro lado, o filme etnográfico pode dividir-se em algumas categorias: imagens em bruto de material etnográfico para investigação; filmes destinados a audiências especializadas e académicas; filmes que destinando-se a uma audiência generalizada, podem englobar-se numa categoria mais geral do documentário; filmes etnográficos para a televisão; filmes educativos, reportagens com interesse antropológico, entre outros.

A definição de filme etnográfico é assim complexa porque permite a criação de fronteiras que, afinal, são arbitrárias. Seja como for, a excessiva generalização da mesma pode ser perigosa, na medida, em que pode confundir o filme que dá conta de padrões culturais com os filmes que se fazem, por exemplo em Hollywood.

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