segunda-feira, 14 de julho de 2008

O Circuito ao Sul –II

Tal como adivinhara no dia anterior, o amanhecer foi duro. Não é todos os dias que me levanto às 5 e meia da manhã, tomo o pequeno-almoço às 6h e saio para passear às 7h, mas a verdade é que valeu bem a pena.
À entrada do hotel de Tozeur, já nos aguardavam os jipes 4x4, onde iríamos fazer o percurso durante a manhã.


O primeiro local de paragem foi o fabuloso oásis de Montanha Chebika, próximo da fronteira com a Argélia. Instalado em pleno terreno árido e rochoso, este oásis é repleto de vegetação de palmeiras, nascentes e cascatas. Às oito horas da manhã, aquele cenário era profundamente religioso, a luz de um amarelo ténue batia nos rochedos, enchendo-me de energia por dentro. Não fora o facto de estar entre um “rebanho” de espanhóis, apetecia-me ter ficado um pouco mais para absorver a atmosfera daquele lugar ora inóspito e estrondoso, ora salpicado por palmeiras verdejantes, onde a água das nascentes possuía um tom verde turqueza, reflectindo as cores da montanha. A aldeia aqui existente encontra-se hoje em ruínas.
Conforme caminhávamos, iam surgindo crianças de todos os lados, pedindo-nos para lhes comprar colares, feitos provavelmente por elas mesmas face à sua fragilidade, ou para lhes oferecermos chicletes, pulseiras, etc... Naquele momento, não pude esconder a tristeza, por não trazer comigo coisas vulgares e tão simples, como pastilhas elásticas, rebuçados, canetas, qualquer coisa que lhes pudesse iluminar aqueles rostos tão marcados pelo isolamento geográfico e pela carência. Apesar da insistência, não lhes pude dar nada do que me pediam, e para não ter de correr o risco de comprar a um, ter de comprar a todos, acabei por fazer um esforço e não comprar nada.
Subimos ao alto de uma das montanhas por caminhos um pouco irregulares, e pudemos contemplar lá no topo, a imensidão do extenso vale que nos rodeava, um amplo mar de terra solitária que se perdia no horizonte, com um ou outro oásis a cortar a monotonia da paisagem dourada. Este é um daqueles lugares que nos faz sentir pequenos e questionar o sentido que damos à vida… Tudo ali é tão diferente da nossa vida quotidiana, dos nossos stresses, das filas de trânsito, das correrias para o trabalho, ali inspira-se serenidade e paz, embora também solidão.


Saí dali com o espírito alimentado e com o corpo em ebulição por saber já o que me esperava um pouco depois. Percorremos alguns quilómetros até sairmos da estrada de alcatrão e não tardou a que o jipe guinasse a condução para a estrada batida, de areia. Era ali que começava a aventura do dia, a grande e emocionante aventura.
À medida que avançávamos para a extensa planície desértica, os balanços e solavancos do carro aumentavam, com terreno irregular e por vezes pedregoso. Ao longe avistávamos camelos selvagens que se passeavam lentamente por aquelas terras de ninguém. A velocidade do jipe ia aumentando, os motoristas faziam perseguições aos outros carros do circuito, fazendo ultrapassagens como se de uma corrida se tratasse. A dada altura, a paisagem começou a mudar. A planície deu lugar a altas dunas encorpadas, aproximando-nos do local onde foi rodado o filme «Paciente Inglês». O ambiente dentro do jipe estava eufórico e as gargalhadas iam subindo de tom, conforme começávamos a descer as dunas, saltando do lugar a todo o momento, em risadas que se misturavam com o pânico e o medo. À páginas tantas, o guia que seguia connosco no jipe, pediu-nos que olhássemos para o lado para vermos um animal, e quando me apercebi dessa sagaz manobra de diversão, já nós estávamos no ar, tendo acabado de fazer uma espécie de looping numa duna. Foi o princípio daquilo que seria uma sucessão de loucas descidas a pique, havendo dunas com mais de 20 ou 30 metros. A adrenalina estava no máximo.
No meio daquele deserto, onde não se via e ouvia ninguém (com excepção dos nossos amigos espanhóis), ainda pudemos sair para tirar umas fotografias. Quando dei por mim, estava já uma mota a aproximar-se com vendedores de colares. Parecia quase uma anedota, como no meio do nada eles aparecem.
O ar estava quente e o ar quase irrespirável, mas ainda deu para sentir aquela areia fina entre os dedos e para descobrir o cenário do primeiro filme da saga da «Guerra das Estrelas», agora em completo abandono. Não há dúvida que Georges Lucas teve olho para a coisa, pois aquela paisagem é tão despojada de vida humana, que se aproxima a uma visão de um planeta abandonado, algures na galáxia. De repente quase nos sentimos transportados para dentro da acção do filme de ficção científica, só nos faltava mesmo a caracterização.

De regresso ao hotel de Tozeur, onde voltaríamos para almoçar, pudemos contemplar em Nefta o oásis de Corbeille.
A tarde foi dedicada ao percurso para Douz. Eu estava verdadeiramente cansada nesse dia, adormecendo a cada momento que fechava os olhos no autocarro. No caminho, pudemos admirar o imenso lago salgado, nesta altura do ano seco, de Chott el Jerid. Neste lago originam-se as famosas rosas do deserto, uma formação dos cristais de sal, em forma de flor, normalmente com tonalidade acastanhada. Ao longo da rectilínea e infinita estrada que atravessava o Chot el Jerid acumula-se uma crosta de cristais de sal, que apesar de parecer branca, tem tons de verde, laranja e rosa devido aos diferentes constituintes do sal.


A chegada a Douz ocorreu cedo e deu para aliviar o cansaço na fabulosa piscina do hotel, pois o calor apertava e havia que estar fresca à noite para o desejado jantar berbere.
Trajada a rigor, com um vestido vermelho árabe e turbante azul, fornecidos no hotel, aproveitei para desfrutar bem do jantar, sentindo bem cá dentro o som dos instrumentos da percussão e da flauta, dos interessantes tocadores que nos receberam alegremente no recinto ao ar livre em que decorreu a animação do jantar.
Tenho consciência, que assistimos a mais um produto pré-fabricado para turista ver e sei que aquele folclore foi mais o nosso do que o deles. Apesar disso, foi a simpatia e a forma carinhosa com que nos receberam que me sensibilizou e que fez com que aquela noite também tenha sido especial para mim. Havia algo mágico no ar, na música que tocavam, nas suas danças. Naquela noite, recordei com saudade os meus tempos de estudante de antropologia, em que delirava com outras culturas… naquela noite, eu fixei o meu olhar naquele ritmo contagiante, na sua gastronomia, nos seus olhos misteriosos e nos seus sorrisos.





Ali em Douz, mesmo às portas do Sahara, naquela noite berbere, senti por instantes a vontade de deixar tudo para trás e ficar por lá a descobrir o seu viver, para além do folclore comercial destes produtos turísticos.
Quando cheguei ao hotel, tive consciência que este deveria ter sido o melhor dia da viagem e na verdade não me enganei. Um dia cheio de emoções, de alma alimentada… Só ali percebi melhor porque gostava tanto de uma música da Mafalda Veiga, com uma estrofe lindíssima, que não me saiu da cabeça o dia inteiro: «…fica tão fácil entregar a alma a quem nos traga um sopro do deserto»!

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