quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Janeiras na Cova da Piedade

Na noite fria do dia de Reis, as Janeiras ouviram-se na Cova da Piedade, assim como em outros locais do concelho de Almada.
Numa altura, em que andamos tão esmorecidos com as notícias que a toda a hora inundam os telejornais, sabe bem momentos como estes passados com alegria e convívio bom e salutar.
O serão teve ligar na Cooperativa de Consumo Piedense, com a representação da Junta de Freguesia da Cova da Piedade e apresentação do seu presidente. Entre os grupos convidados para cantar as Janeiras encontravam-se o Coral Cante Novo, da Costa Azul; o Grupo de Danças e Cantares de Soito da Ruiva de Pomares, Almada; o Grupo de Música Tradicional Portuguesa Comtradições; o Grupo Coral Etnográfico Amigos do Alentejo do Clube Recreativo do Feijó; o Grupo Etnográfico da Cova da Piedade e o Grupo de Cantadeiras da Alma Alentejana.



Estas Janeiras, tiveram para mim um significado especial, porque me recordaram da época em que acompanhava o Grupo Coral Amigos do Alentejo do C.R.F. nas suas actuações, por ocasião da realização do meu trabalho de dissertação de tese de mestrado em Antropologia, e das Janeiras de 2001 em que também estive presente com eles. Fez-me lembrar também as Janeiras no Cercal do Alentejo e dos cantes entoados no Largo dos Caeiros (centro do mundo daquela pequena localidade), pelo grupo coral do Cercal, junto da fogueira em labareda.
Em Almada, o cante das Janeiras[1] marca sem dúvida o calendário das iniciativas anuais dos Amigos do Alentejo do C.R.F. No entanto, esta não é uma actividade desenvolvida única e exclusivamente por este grupo, no Concelho de Almada, já que é organizada a nível camarário, envolvendo outras colectividades e associações. É uma tradição inventada, comum a outros grupos musicais da localidade, desde grupos folclóricos e etnográficos, a tunas universitárias ou grupos corais.
Coincidindo normalmente com o dia de Reis, ou um pouco antes, o grupo faz uma breve digressão por algumas autarquias e colectividades do Concelho de Almada. As modas geralmente cantadas pelo grupo nesta ocasião são O menino Jesus e Três Cavaleiros. São extremamente cadenciadas e arrastadas, distinguindo-se das outras modas que integram o seu repertório.[2]
Pelo facto de ter podido estar na presença deste magnífico coral, sem desprimor para os restantes, foi para mim uma noite verdadeiramente bem passada, pois tive a oportunidade de rever aquela gente sempre maravilhosa e pela qual eu tenho verdadeira estima e amizade. Só por isso já valeu a pena!

[1] Antigamente, as Janeiras costumavam cantar-se no Alentejo no último dia de Dezembro, enquanto que os Reis só se cantavam, geralmente, no dia 6 de Janeiro.

[2] Como o afirma Monarca Pinheiro, ” Os Reis (...) têm uma musicalidade diferente. São majestosos, solenes, lentos e graves. Ouvindo-os tem-se a sensação agradável de que se assiste à passagem dos Régios cavaleiros, a caminho de Belém, em camelos de passos lentos”. Monarca Pinheiro (1999) Altos Silêncios da Noite Minhas Vozes Vão Rompendo, Évora, Câmara Municipal de Èvora, p.43.

2 comentários:

Elisabete disse...

Gostava de ter também este tipo de sentimentos em relação ao "meu terreno" de tese de mestrado... Desde que terminei que não sinto vontade de o revisitar. É óbvio que encontrei pessoas boas pelo caminho e sobretudo considero aquele terreno como tendo sido a melhor aula da minha formação em Antropologia mas teve aspectos penosos que não me deixam saudades. Às vezes pergunto-me se fiz bem em ter ido trabalhar num terreno tão estranho à minha actividade profissional porque agora poderia rentabilizar melhor os resultados da pesquisa mas, de facto, a minha consolação foi a de que aquele terreno foi uma grande lição e de que eu sentia que precisava daquele tipo de desafio antropológico, isto é, de por uma vez estar num ambiente que me era estranho, com pessoas que não as da minha cultura, vivendo uma realidade sócio-económica que felizmente não é a minha. Para além disso, por vezes é preciso fazer algo diferente para nos (re)confirmar que o que fazemos é afinal o que mais gostamos de fazer! Alguns antropólogos mais puristas e, a meu entender, de visões mais idílicas com certeza que censurariam estas minhas palavras sobre o meu terreno mas eu identifico-me com uma posição mais pós-moderna de explicitação das condições do trabalho de campo. O facto de não morrer de saudades daquele terreno não implica que não tenha feito o meu trabalho com seriedade e para mim isso é o que conta!

oasis dossonhos disse...

Um muito bom ano de 2009 com saúde e criatividade. O blogue da Aldraba mudou de endereço.
http://associacaoaldraba.blogspot.com/