quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Férias


Era Agosto novamente e Mariana sabia o que se aproximava, sentia o coração apertado e uma leve sensação de tontura cada vez que se lembrava que aquele era o seu último dia de trabalho antes das férias. Para a maior parte dos mortais esse era um dia para festejar, para cantarolar e para sair de cima dos ombros o peso da rotina estabelecida, mas para Mariana férias não era sinal de descanso.
Todos os anos por esta altura ela e a sua família, (marido, os três filhos, os sogros e os cunhados solteiros), alugavam uma casa em Ferragudo, durante três semanas. Nesse período, Mariana não parava um segundo. Levantava-se às oito da manhã, preparava o pequeno-almoço para todos, vestia as crianças e dirigia-se à praia. Como se não bastasse tinha de aturar as acusações da sogra, a indiferença do sogro, os disparates e bebedeiras do cunhado, as neuroses da cunhada, a apatia do marido, o desconsolo de se sentir só. Cada dia era uma aventura, e para se evadir um pouco da sociabilidade familiar, Mariana refugiava-se na cozinha, onde cozinhava e lavava loiça sem parar. Por outro lado não tinha grandes opções, uma vez que as mulheres da família eram pouco dadas às lides domésticas e aos dotes culinários, preferindo ficar a beber o seu aperitivo na sala e cortar na casaca da vida alheia, comentando as novidades do jet set das revistas sociais.
Á mesa, as refeições eram sempre um verdadeiro desafio, as conversas amenas e alegres acabavam geralmente em confusão e em maus entendidos, em palavras que se diziam sem se querer. O tópico de assunto preferido era a divisão das despesas das compras, pondo-se em causa o que tinha sido comprado, a qualidade e as marcas dos produtos, se o camarão era de 1ª ou 2ª, se era de S. Tomé ou do Senegal, discutindo-se o talão do supermercado ao pormenor.
O som elevado da televisão era a banda sonora constante, o que misturado com as vozes ruidosas dos seus habitantes, tornava o ambiente insuportável. As crianças, essas eram um doce, mas ao longo do dia iam ficando mais cansadas, mais rabugentas, investidas de uma energia que se recarregava indefinidamente. Era vê-las pular sem parar, trepar pelos armários, espalhar pimenta pelo chão, gritar convulsivamente, querendo chamar a atenção: «Mãe! Mãe! olha o mano, está tirar-me a boneca! Mãe… quero um gelado! Eu quero!!! Mãe, compra-me a barbie do supermercado…»
Á noite, por vezes, conseguia ter a casa só para si. Alegando uma poderosa dor de cabeça, que frequentemente era bem verdadeira, deixa-vos ir passear pela praia, ou até ao Casino da Praia da Rocha. Nesses breves momentos, depois de deitar as crianças, sabia-lhe bem sentir o silêncio da casa, fechar os olhos e poder respirar fundo, sem ver ninguém por perto, mas esse instante durava sempre tão pouco…
A meio da noite, o silêncio era geralmente interrompido pela entrada abrupta do cunhado solteiro, que costumava chegar sempre um pouco “entornado”, depois de percorrer ritualmente as raves e festas das localidades próximas. Fazia sempre algum alarido quando entrava, por não reconhecer bem os cantos à casa, tropeçando nas cadeiras, vomitando até no sofá da sala, onde dormia.
A tudo isto Mariana assistia, contando os dias numa contagem decrescente que nunca mais acabava. O marido, pouco afectuoso, vivia num mundo à parte, satisfazendo-se com partidas de cartas com o pai, partidas de futebol e a playstation que tinha trazido com ele. Quando chegava à hora de deitar, já não havia beijos, nem palavras de ternura, nem mesmo sexo, até porque com a família dele toda ali em peso, não havia nenhum afrodisíaco que fizesse funcionar a química do amor.
Chegada a Lisboa, no dia 31 de Agosto, após uma fila de duas horas na ponte 25 de Abril e de uma viagem em marcha lenta de mais de 4 horas, Mariana voltava feliz, pois sabia que tinha cumprido o seu papel de boa esposa e de boa mãe. Tinha uma família, que amava e a quem se dedicava de corpo e alma, e que em breve voltaria ao seu ritmo e rotina normal. Ela voltaria ao trabalho no escritório, o marido voltaria às vendas de material hospitalar, e os filhos iriam de novo para o colégio. Não haveria tempo para dúvidas, nem desilusões, tudo se encaixaria novamente, nessa paz suportada pelos horários e pelos hábitos enraizados. Quanto aos sogros e aos cunhados, voltaria a estar com eles no próximo natal, onde os sorrisos seriam mais uma vez encenados e as conversas talhadas a cinzel. Por ora, sabia bem regressar!

1 comentário:

Anónimo disse...

Olá amiga,

Infelizmente o retrato de algumas mulheres portuguesas :-((((, o viver de aparências, o morrer um pouco todos os dias... uma historia triste...mas verdadeira

beijos
Sandra