quarta-feira, 12 de setembro de 2007

«Fui Camponês, fui caixeiro»

Porque este blogue é um espaço que pretendo plural, onde penso abordar variados temas, sobretudo os que dizem respeito à Etnografia e Antropologia, gostaria de fazer aqui referência a um livro de cultura popular alentejana que acaba de ser editado pela Junta de Freguesia de Santana de Cambas. Reunindo as poesias de João Gonçalves Carrasco, a recolha, selecção e texto de José Rodrigues e do meu amigo Luís Filipe Maçarico, este pequeno livro é o testemunho vivo de uma voz que se calou em 2006, com 102 anos de idade.
Trata-se de uma recolha parcial das poesias de João Carrasco, de Santana de Cambas, homem simples, de escassas habilitações literárias, de ideais e convicções fortes, que ocupava o seu tempo livre versejando.
«O ideário de João Carrasco é o de um homem que estando bem com a sua consciência, se sente fustigado pelas agruras da vida em tempo de salazarismo e franquismo, mostrando-se à medida que os anos passam desencantado com o rumo voraz da existência moderna, adversa aos valores anti-fascistas que o moldaram». (Luís Maçarico, p.14)
Após a leitura deste livro apetece saber mais sobre a vida deste homem, mais da sua poesia simples e humana. Pena é que autores como estes tenham tão pouco interesse para as grandes editoras, pelo que a sua tiragem é bastante limitada. Deixo-vos com um dos seus versos.

«Em Tempos na Minha Aldeia»

Recordo com Saudade
Os cânticos da minha aldeia,
Quando à noite a mocidade
Cantava depois da ceia

Quando em grupos bem treinados
Todas as noites pelas ruas,
Cantavam entrelaçados
Todas as penas suas

Era o vício de cantar
Cada qual como sabia
Esquecendo, para não pensar
Os sofrimentos do dia

Não obstante a miséria
Em que o trabalhador vivia,
Apesar da magra féria
Nem tanto as penas sentia

Em grandes grupos unidos
Entoavam as suas canções
Fazendo ouvir os seus gemidos
Davam alívio aos corações.

Recordá-los outrora assim
Em tempos já tão distantes
E reviver para mim
Como eu vivia dantes

Com a fuga prá cidade
O tempo tudo mudou
Foi-se embora a mocidade
Aqui só velhos deixou

Hoje resta a Saudade
Dos tempos já tão distantes
Por não haver mocidade
Para se viver como antes.»

1 comentário:

oasis dossonhos disse...

Um agradecimento por esta lembrança, pela análise, pelo destaque. É uma honra!
Assim que apareceu este artigo, divulguei-o pelos amigos, para saborearem a tua escrita.
Beijinhos
Luís