sábado, 25 de agosto de 2007

25 de Agosto de 1988

Dia 25 de Agosto é um dia para não esquecer jamais, jamais… Cada ano que passa parece mais distante, mas a recordação essa não morre, aviva-se em cada lembrança, em cada pormenor daquele dia tão cruel, tão triste e desolador, seguramente um dos piores da minha vida, que deixaria marcas para todo o sempre, não só em mim e na minha família, como também em muitos outros lisboetas que viveram esse dia fatídico.
Eram 5 e meia da manhã quando comecei a ouvir explosões no ar. Como tinha adormecido tarde a ver um filme de guerra, pensei que era sonho ou ainda aquele filme cheio de bombas e tiros. Mas, o barulho persistia, cada vez mais forte, cada vez mais perto. As sirenes começavam-se a ouvir, era grave o que estava a acontecer sem dúvida. Acorremos à varanda do andar de baixo, e nem quisemos acreditar no que víamos… o Grandela explodia por todo o lado, as labaredas eram grandes, e as explosões dos perfumes e das garrafas de gás sucediam-se, (se não fosse uma catástrofe diria que seria um espectáculo de fogo de artifício, caindo do céu fagulhas incandescentes).
Naquele momento, soubemos os quatro que a nossa vida estava a mudar, tudo a mudar em segundos… tudo a ruir…Numa fracção de segundos, a minha mãe, mulher valente e brava, subiu ao telhado para o defender, gritando aos vizinhos, que tirassem a roupa do estendal que começava a arder com as brasas que saltavam e caíam em qualquer canto. Eu enchia alguidares de água sem parar, para a minha mãe molhar as telhas que começavam a ficar quentes e com fagulhas a cair por todo o lado. Não havia tempo para chorar, eu para dentro pensava, “vai tudo correr bem, de certo é só o Grandela a arder, não haverá consequências maiores”.
Eram 6 da manhã, quando voltámos à varanda e vimos o que não queríamos ver, agora também o Chiado estava em perigo e o panorama era cada vez mais perigoso e dramático. Nessa hora, a minha mãe não pensou em mais nada, mandou-nos vestir, a mim e à minha irmã, não havia tempo a perder. Telefonou a uma amiga que vivia em S. Cristóvão, perto da rua do Mercado de Chão de Loureiro, enfiou-nos todo o ouro que possuía e mandou-nos ir.
Àquela hora as ruas ainda eram escuras, a electricidade tinha sido cortada, só se viam as labaredas e os vultos dos edifícios. Sozinha com a minha irmã pela mão, eu seguia assustada, mas segura que tudo havia de resolver-se, não queria acreditar na tragédia que via. O coração pulava e só pensava nos meus pais que tinham ficado a defender a casa e na pobre cadela, a Diana, que com os nervos não parava de ladrar e de tremer.
Em S. Cristóvão, vimos o incêndio no topo do mercado, que tem uma boa vista para a cidade. O fogo aumentara e propagava-se vertiginosamente. Eram oito da manhã, quando o fogo atravessou cada janelinha dos armazéns do Chiado, onde eu ia tantas vezes, desde menininha. Quando vi as pequenas janelas arderem como as velas de um bolo, confesso que perdi a esperança e aí chorei, chorei muito, porque pressenti que ia ficar sem casa. Por outro lado, preocupava-me o facto dos meus pais nunca mais chegarem…
Por volta das 9h, eles chegaram com a cadela pela mão. Pareciam dois mendigos… com a roupa do corpo, perdidos de angústia e vencidos pelo cansaço. Traziam no rosto, as marcas do desconsolo e da impotência. Mulher de vontade férrea, a minha mãe não abandonou um só minuto a sua missão, tendo sido arrastada pelos bombeiros a sair de casa, pois o fogo aproximava-se já muito. Conseguiram salvar a televisão, os pássaros, a cadela e pouco mais…
Nestes momentos de aflição, passam-nos tantas coisas pela cabeça, que aquilo me incomodava era além de tudo o resto, o facto de não ter conseguido salvar roupas, fotografias e sobretudo os livros escolares do 9º ano, que o meu pai acabava de comprar. Pensava onde iria morar, o que iria ser de todos nós, que rumo seguiríamos daí por diante.
Mas, tal como tem acontecido noutras circunstâncias, houve um anjo da guarda, e eu quero acreditar nisso, que nos salvou. O fogo destruiu a habitação de várias pessoas, chegou mesmo a matar um bombeiro, mas parou nas escadinhas de S. Francisco, antes de pegar ao quarteirão do meu prédio, no nº59, da Rua Nova do Almada. Quis Deus que o vento mudasse e o fogo não chegasse às Finanças, nem ao Tribunal, o que teria transformado aquele incêndio no mais desastroso de sempre, com proporções muito maiores, pois os documentos que albergavam seriam a acendalha ideal para o inferno.
Na baixa, esta ferida levou tempo a sarar, quase 12 anos. Hoje que se completam 19 anos do incêndio, podemos dizer que pouco sobrou daquelas cinzas, daqueles destroços, daquele cheiro insuportável a queimado que durante tanto tempo se manteve e se entranhou nas nossas narinas. Desde aí, não posso ver incêndios, até porque no Chiado onde vivi mais nove anos, existiram outras ameaças, outros pequenos fogos, que nos obrigaram a sair no meio da noite, sempre à espera de não voltar.
Hoje, o Chiado continua a ter vida, um pouco diferente é certo, mas o importante é que está vivo, e continua a ter o seu charme. Tal como o nome do café situado neste local, também eu o quero gritar bem alto «Amo-te Chiado!»
Fotos do «Blog do Tinoni»
http://casadotinoni.blogspot.com/2007/08/o-incndio-do-chiado.html
e do blog «A Defesa de Faro»
http://adefesadefaro.blogspot.com/2007/06/incndio-chiado-1988.html

4 comentários:

Anónimo disse...

Olá Ana,

Um dia muito triste para lisboa e para os lisboetas....

:-(

beijos
Sandra

Anónimo disse...

Dizem que Deus só põe à prova os fortes, porque sabe o que eles conseguem aguentar.
Não sei se servirá de consolo ou se se dizem estas coisas para explicar o que de mau nos acontece.
Não sei, mas mesmo que assim seja...não me parece justo.
bjs,
gm

Anónimo disse...

Um dia triste de facto..mas para mim um grande dia...enquanto o chiado ardia eu nascia :D beijos

Anónimo disse...

Olá,
Sim, foi de facto um dia muito triste, não só para os Lisboetas, como também para o país! Afinal de contas estava a ser engolida pelas chamas uma das zonas mais bonitas e históricas de Lisboa! É verdade que toda aquela zona está totalmente recuperada, há muita vida lá, mas por aquilo que ouvi dizer (eu na altura tinha 7 anos)perdeu um pouco da identidade que tinha. Bjo.