sábado, 4 de agosto de 2007

Em véspera de viagem…

Finalmente de férias, finalmente sem horários, sem compromissos inadiáveis. Contudo, existem preparativos que têm de ser feitos, principalmente quando se está em vésperas de fazer uma viagem de 11 dias pela Europa e de autocarro.
Um dos dramas do costume é a arrumação da mala, o que pôr nela, como arrumar as roupas dobradas e ajeitadas para que haja lugar para mais alguma coisa à última da hora. É fundamental levar na bagagem literatura que dê para as horas mortas, encher o mp3 de boa música e claro os guias de viagem, principalmente os das cidades de Praga e Viena, onde iremos ficar mais tempo.
Viajar tem esse lado curioso, é que não conseguimos desprendermo-nos completamente das nossas coisas e por isso vamos sempre tão carregados... Invejo os aventureiros que partem com tão pouco na mochila, apenas o mínimo dos mínimos...

Em tempo de ida de férias e partida, deixo-vos um poema do Fernando Pessoa sobre este drama de fazer a mala e de partir…com uma nostalgia que porém não sinto, pois viajar para mim é descobrir, é partilhar e nisso a alma alivia-se, não sofre. Boas Férias! Quando regressar partilharei as aventuras e os locais que mereceram maior interesse! Até meados de Agosto!

«Grandes»
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes –
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos; minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que não perdesse.
Hoje não me resta, em véspera de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,

Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)

Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com a arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem).

Acendo um cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens,
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ter que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro.
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho de arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas, também toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir e arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la;
Hei-de vê-la levar de aqui,
Hei-de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto.
Salvo erro, naturalmente.

Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale a arrumar a mala.
Fim.


Álvaro de Campos

3 comentários:

Anónimo disse...

Amiga, desejo-te umas óptimas férias.
Não vou dizer para aproveitares bem, porque sei que vais aproveitar ao máximo, vais estar atenta a todos os pormenores e vais voltar com uma alma nova e mais rica.
Quando voltares, cá estarei a preparar (espero) as minhas férias.
BEIJOCAS PARA AS DUAS!
gm

oasis dossonhos disse...

boas férias, companheira do sonho!

Anónimo disse...

olá amiga,

Desejo-te umas optimas férias...
Fico à espera... das fotos e dos teus comentários...
beijos
Sandra