segunda-feira, 9 de julho de 2007

«Amor a quanto obrigas»

O amor é uma das grandes benesses da vida, quando envolto em felicidade e partilha, que une dois seres em torno de um ideal comum, aliviando a alma das mágoas, proporcionando sorrisos rasgados, tornando-nos mais leves, como se caminhássemos sobre nuvens…
Mas, infelizmente, o amor nem sempre traz felicidade, transformando-se num monstro pavoroso, uma droga viciante que se inala com sofrimento e sem cura de desintoxicação…tornando tudo à volta manchado de dor e melancolia.
Um dia destes ia eu caminhando tranquilamente pela rua, quando me despertou a atenção um casal que seguia à minha frente, em gestos coléricos e gritos ruidosos. Ela caminhava a alguns passos distante dele, trazia raiva na voz e sobretudo revolta no olhar, que era negro e marcado pela força do amor brutal. Estava fora de si e gritava com o homem que seguia a seu lado «O olho pode deixar de estar negro, mas o coração, esse vai continuar!». Esta frase trespassou o meu corpo como uma seta, fazendo-me pensar se um amor destes que maltrata, amargura e vicia, presta para alguma coisa, levando à falta de auto-estima, à degradação dos sentimentos, à corrupção da alma.
Ele impávido, seguia descontraído, como se nenhuma daquelas acusações o atingisse. Em poucos minutos, ela desistiu de lutar e dera-lhe a mão, juntando o seu corpo ao dele, como se toda a tristeza se tivesse desvanecido de imediato…e a alegria do seu contacto a inundasse novamente. Ritual de amor-ódio que não termina, que corre ciclos intermitentes, que castiga o corpo e deixa dedadas no coração.
Esta dura realidade da violência doméstica, da amargura do sofrimento em silêncio, atinge não apenas mulheres, mas também cada vez mais homens, não conhece idades, nem condições sociais…e como tal devia ser denunciada, colocada na boca do mundo, porque o amor nem sempre salva e liberta,também mata…Há pois que fazer alguma coisa para ajudar a combater esta situação. Não podemos calar as sovas que o vizinho dá à mulher, cheio de álcool e de droga, os maus tratos que infligem a menores, apenas porque não nos queremos meter na vida alheia. Quando os direitos humanos não são respeitados não podemos ficar calados e agir como se não fosse nada connosco, principalmente quando esta realidade implica crianças inocentes que não têm culpa de terem nascido no seio de famílias com tão poucos laços afectivos. Para que esse silêncio possa ser quebrado, deixo aqui o contacto da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), que tem vindo a lutar contra este pesado flagelo da violência conjugal e familiar.
Em caso de necessidade, a APAV, existe para isso mesmo: para ouvir, aconselhar e apoiar, escutar de forma atenta e interessada, informar e aconselhar sobre os nossos direitos e a forma como poderemos exercê-los.
Esclarecem e acompanham no relacionamento com as autoridades policiais e judiciárias, orientando e ajudando nas diligências a tomar. Ajudam a Vítima e seus familiares a superar o sofrimento da vitimação. Apoiam e encaminham para aos apoios sociais existentes. Prestam apoio emocional, jurídico, psicológico e social a quem é vítima de crime e a seus familiares, desenvolvendo um processo de apoio qualificado. Os serviços de apoio prestados a cada vítima são gratuitos e confidenciais.
«O silêncio não ajuda, ele é, muitas vezes, cúmplice dos actos violentos. Se presenciar, suspeitar, ou for vitima de alguma situação de desrespeito pelos direitos humanos, não hesite, contacte o gabinete de apoio à vitima mais perto de si, ou ligue o número único 707 20 00 77 »
Serviços centrais de Sede
Rua José Estêvão 135 - A -Piso 1
1150 - 201 LISBOA
telf 21 358 79 00
fax 21 887 63 51
dias úteis:10H00 -13H00 / 14H00 - 18H00
http://www.apav.pt/apav.html

2 comentários:

Anónimo disse...

Bravo Ana, fiquei emocionada com seu relato sobre a vida de um casal que por acaso encontrou na rua. Quantos casais entre paredes sofrem esses e outros maltratos. Quantos aparentemente se mostram felizes e no fundo vivem um dia a dia de amargura e dor, com troca de palavras que vão aos poucos minando, o coração de quem só amor dedicou. Destruindo por completo o vaso de afectos que existe dentro de nós. Apenas fica uma pergunta que amor é este que cala, que consente, que finge, que suporta, e ainda assim continua dando sempre dando, até se esgotar essa fonte dentro de nós?
Será que há alguma arte mágica que defina este maldito amor? sim maldito, porque este amor é maldito.

Quando eu digo este e outros poemas , faço-o em nome de todas as mulheres e homens que sofrem a humilhação de serem tratados abaixo de cão por aqueles a quem entregaram seu corpo, sua alma, sua própria vida .

Eu quero, eu quero soltar este grito sofucado.
Molhar meu rosto com a lágrima da alegria.
Dizer o verso pelo tempo apresionado.
E gargalhar por enfim chegar o dia.

Continua amiga, não cales , para que todos nós entremos nessa onda de denuncia, e o nosso grito seja o grito de todos nós.
Bem-hajas aquele abraço da amiga certa. Rosa

Anónimo disse...

Parabéns Ana, escreves muito bem e com sentimento. Continua com o bom trabalho. Beijos grandes Sandra Afonso