quarta-feira, 4 de julho de 2007

Porto, Fotografia e Liberdade….

«Fotos, vejo-as por todo o lado, como cada um de nós hoje em dia; elas vêm do mundo para mim, sem que eu as peça; são apenas "imagens", o seu modo de aparecimento é o das mil e uma proveniências (ou dos mil e um destinos)», Roland Barthes.

No passado fim-de-semana fui ao Porto. Sempre que a disponibilidade permite rumo até à cidade invicta. Gosto de apreciar o Douro numa esplanada da Ribeira, contemplar as pontes, as caves do vinho de Porto, arregalar o olho à Serra do Pilar, caminhar e perder-me nas suas ruelas. Isto tudo porque há 10 anos vivi lá e aprendi a descobrir o ritmo da cidade ao mesmo tempo que ia conquistando os primeiros momentos de liberdade e independência. Fora a primeira vez que me achava sozinha numa cidade que não a minha, entregue ao meu destino, e com uma responsabilidade em mãos: ensinar!
Tudo no Porto me recorda esse tempo da Faculdade de Belas Artes e do desafio que representou para mim ensinar pessoas quase com a mesma idade do que eu e possivelmente com mais experiências de vida do que a minha, que acabava de me licenciar em Antropologia, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Lisboa.
Nessa altura em que leccionava no Porto, as aulas ocupavam-me apenas uma parte do tempo, pelo que o restante era ocupado a descobrir a cidade, assinalando com ávida satisfação, num mapa da cidade que possuía, os lugares que ia conhecendo em cada dia que passava. Depressa o mapa foi ficando com outra mancha gráfica, de círculos e sublinhados, o que significava o progresso do meu conhecimento da cidade.
Agora, cada vez que volto, gosto de trilhar os mesmos percursos, de rever amigos, sobretudo das pessoas com quem partilhei esses meses esplendorosos, e ver coisas novas, ver espectáculos, exposições, etc.
Neste fim-de-semana, o tempo foi curto, mas valeu a pena… Não fui a muitos museus, mas fui a uma exposição de fotografia no Centro Português de Fotografia (recém fundido na Direcção Geral de Arquivos) que apesar de muito singela, me despertou curiosidade e interesse. Intitulava-se «Por teu livre pensamento» e foi inspirada num poema de David Mourão Ferreira. A exposição exibe várias fotografias do jovem fotógrafo João Pina, nascido em Lisboa, em 1980. Este começou a documentar a vida de ex-presos políticos portugueses no ano 2001, estendendo actualmente esse projecto à escala mundial.
Este trabalho desenvolvido por João Pina, relembra assim que dias em que a liberdade de expressão era utopia e quem aspirasse a dizer o que pensava era “enjaulado” e barbaramente torturado, ficando privado dos seus direitos de liberdade.
Este trabalho de João Pina é de facto, um roteiro da memória, representando quatro décadas de luta contra a ditadura. É interessante verificar o retrato dos ex-presos políticos no momento da detenção e compará-los com os retratos actuais, verificar o modo como o tempo passou por eles e os marcou. Faz-nos reflectir sobre o seu sacrifício, sobre o padecimento que sofreram para que hoje nós pudéssemos ter liberdade de expressão. São verdadeiros «heróis», mas esquecidos, ignorados… e afinal tanto a eles devemos…
Projectos como estes são sempre bem-vindos, para que esta memória negra nos sirva de lição e não seja esquecida, para não se repetir. Infelizmente as gerações mais jovens desconhecem essa realidade e tomam tudo por garantido, não dando valor às benesses que hoje temos principalmente e a mais importante: a Liberdade! Há pois que estar alerta, para não nos deixarmos mais amordaçar!...
«Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar.»
Poema: David Mourão-Ferreira

1 comentário:

oasis dossonhos disse...

Este poema arrepia, é preciso não esquecer o quanto se sofreu neste canto do mundo, para não voltar a acontecer.
Sabes, estou preocupado com os novos delactores, com as injustiças terríveis que estão fazendo a professores com cancro, obrigando-os a trabalhar, em vez de terem a reforma, face a tantas dificuldades fisiológicas e psicológicas que essas pessoas, naquele estado, sentem.
Estou angustiado com o retrocesso em relação a gerações que lutaram para termos uma vida mais digna.
Estou chocado com as atitudes arrogantes de quem governa.
Não há cosmética que esconda a prepotência.
Abraço
Luís