domingo, 8 de julho de 2007

«Navegar é preciso...»

Terra de marinheiros, de gerações e gerações ligadas ao mar, de bravos conquistadores e navegadores que deram nome a partes do mundo, o gosto de navegar deve ter-nos ficado no sangue. Talvez por isso, tenha descoberto recentemente um interesse por passeios em embarcações tradicionais no Tejo.
Meios de transporte de pessoas e mercadorias, “varinos”, “fragatas” e “botes de fragata” possuíram outrora um papel fundamental, assegurando a ligação entre Lisboa e a Margem Sul do Tejo.
No Seixal estas embarcações transportavam sobretudo géneros agrícolas e hortícolas, das quintas da região, que garantiam a subsistência da capital, lenha e outros produtos essenciais. Nos começos do século XX e até metade do mesmo, estas embarcações transportavam também cortiça das industrias transformadoras, como era o caso da Mundet no Seixal, sendo estas que traziam o produto acabado para Lisboa.
A partir dos anos 50/60, o uso destas embarcações começou a decair, em virtude dos ecos da modernidade e do progresso. A utilização de barcos de passageiros mais velozes, seguros e confortáveis, a construção da Ponte sobre o Tejo e a generalização do transporte rodoviário foram alguns factores que contribuíram para o seu desuso.
Por isso, estas embarcações rapidamente se transformaram numa memória de tempos de trabalho, de labuta, e sacrifício, dos homens do rio, de um tempo em que o Tejo era a sua morada e o pulsar da vida das comunidades ribeirinhas…
Como acontece com tudo, a modernidade ditou a sua ruína, aos poucos estas embarcações foram votadas ao abandono, constituindo um elevado encargo para os seus proprietários, devido aos elevados custos de manutenção dos mesmos, à escassez de estaleiros que fizessem estes trabalhos, a falta de pessoal especializado, as elevadas despesas de contribuições portuárias…. entre outros aspectos… Como consequência do progresso, as margens ribeirinhas e praias da margem sul do Tejo, foram-se enchendo de embarcações abandonadas, de cascos apodrecidos pela acção do tempo, foram sendo incendiados por mãos assassinas e vândalas que os consumiram e deles deixaram cinzas. Quem se passear pela Arrentela, pode ver ainda vestígios da fragata “Cravidão” junto do Núcleo Naval, incendiada nos anos 80, que causam verdadeiro dó de alma, por ver aqueles restos mortais ainda de pé, resistindo, tentando não apagar a memória dos tempos triunfais.
Hoje, os poucos exemplares existentes, são verdadeiras peças museológicas, pertencendo maioritariamente a autarquias, que as promovem turisticamente e para fins lúdicos.
O Ecomuseu Municipal do Seixal dispõe ainda de três exemplares, o bote de fragata “Gaivotas”, o varino “Amoroso” e o bote de fragata “Baía do Seixal”, que actualmente se encontra em funcionamento. Adquiridas como embarcações de tráfego local já desactivadas, a sua incorporação no EMS destinou-se a preservá-las e a reactivá-las, como embarcações de recreio, mediante algumas adaptações que não alteram a sua estrutura. Entre Abril e Outubro de cada ano, aproximadamente, segundo as condições atmosféricas, as embarcações tradicionais do EMS são utilizáveis pelo público, efectuando passeios no Tejo.
Sempre que haja oportunidade, gosto de poder fazer alguns destes passeios, geralmente com temáticas próprias, desde a aprendizagem de técnicas de tripulação destas embarcações, a destinos como o Ginjal, a Cova do Vapor, ou Belém.
Desta vez, o passeio enquadrava-se nas festas do colete encarnado, em Vila Franca de Xira. A partida ocorreu por volta das 12.30, no antigo cais do Seixal, no rio Judeu. Os participantes levavam farnel, boa disposição e espírito de aventura, o que nestas ocasiões é sempre necessário.
De vela erguida, aproveitando o vento que soprava, o barco caminhava silencioso pelas águas, com uma calmaria relaxante, que nos fazia perder a noção do tempo… afinal há quanto tempo estaríamos a navegar vendo a mesma paisagem, há minutos ou horas? Pouco importava, ali não havia pressas de chegar, não havia stress, nem correrias, o que importava era navegar tranquilamente. Estes momentos fazem-nos lembrar de como seriam as deslocações no rio antigamente… lentas, sem a prisão do relógio, apenas com o vento a comandar, a força das marés e das condições atmosféricas.
Após, chegarmos perto da ilha do Rato, nas proximidades do Montijo, encontrámos outras embarcações tradicionais de vela erguida, canoas, botes de fragata, varinos… Vinham alinhados da Moita, muitos do Centro Náutico Moitense, seguindo para a regata que rumaria até Vila Franca de Xira. Como o “Baía do Seixal” onde seguíamos não ia em competição, o nosso percurso foi mais calmo e deu para apreciar as outras magníficas embarcações com mais contemplação, verificando as estratégias utilizadas por cada uma delas para chegar em primeiro lugar ao destino. Como se tratava de uma regata sem percurso estabelecido cada uma devia escolher a melhor forma de lá chegar.
O dia estava radioso, o brilho do Tejo reflectia como prata o sol que se espelhava nas águas. E Lisboa, essa estava repleta daquela luz branca e azul que dela emana em dias soalheiros e aprazíveis, tornando-a ainda mais majestosa, desejável e a magnífica capital que é.
Após o encontro com as diferentes embarcações, o silêncio do rio foi substituído pelo som do motor. O percurso era longo e o vento começava a mudar, por isso a vela foi recolhida, tornando a viagem um pouco mais sonora do que o desejável, mas não havia outras alternativas e a nortada também não ajudava… (não há dúvida que antigamente a vida não seria fácil! Sem motor e sem vento de feição… as curtas distâncias deveriam parecer enormes…).
Rumando para norte, passamos por Santa Apolónia, o Parque Expo, a Ponte Vasco da Gama, admirámos o estuário do Tejo, as lezírias e alguns flamingos que lá se encontravam ao longe…
Chegámos ao destino por volta das 18.30 e aventura chegara ao fim.. Em Vila Franca de Xira, as festas do colete vermelho começavam a ficar ao rubro. No jardim, um grupo de rap cantava entusiástico, apesar da fraca audiência. Junto à estação, as ruas principais estavam vedadas para a célebre largada de touros. Os mais afoitos e destemidos encontravam-se já preparados na arena, aguardando com ansiedade a vinda dos bois. O ambiente era festivo e convidativo ao exagero, típico das festas ibéricas, onde o consumo excessivo de álcool associado ao risco da largada dos bois e a folia são os ingredientes necessários para uma festa de arromba.
Com o passeio terminado, foi tempo de rumar a Lisboa, mas desta vez de comboio, o “Baía do Seixal” ficou em Vila Franca de Xira para participar nas festas do colete encarnado, juntamente com as outras embarcações acostadas no cais.
Quem quiser desfrutar de uma experiência destas, que considero verdadeiramente interessante, deve consultar a programação do Ecomuseu Municipal e não perder a oportunidade de se fazer ao rio, pois como diz o poeta «navegar é preciso!…»

Ecomuseu Municipal do Seixal
http://www2.cm-seixal.pt/pls/decomuseu/ecom_hpage

«Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
Navegar é preciso; viver não é preciso".
Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou:
Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso.
Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.
É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. »

Fernando Pessoa
Nota de Soares Feitosa
"Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu

4 comentários:

Ana M disse...

Visitei mais uma vez o teu blog, tu és uma verdadeira "bloguista".Para cada mensagem fazes uma investigação cuidada e forneces sempre imensa informação sobre os temas ques escreves, estás de parabéns. Contigo estou sempre aprender, és um poço de cultura.

Anónimo disse...

dddddff

Anónimo disse...

Parabéns amiga, estás no bom caminho...sê senhora da tua vontade e escrava da tua consciência.
Recorda que as flores do futuro estão nas sementes de hoje! E, que os anos ensinam muitas coisas que os dias desconhecem.

Da tua amiga Jaqueline Alves

Anónimo disse...

A Câmara Municipal de Chaves vai recriar a VI Edição da Feira Medieval, nos dias 08 e 09 de Setembro.
O certame vai constar de:
- Cortejo Medieval;
- Mercado Medieval (artesãos locais, nacionais e espanhóis);
- Cetraria (falcoeiros de Évora);
- Torneios Medievais (Cavalaria do sagrado Portugal, Setúbal);
- Música Medieval e Tradicional (Gaiteiros de Pontevedra, Espanha);
- Danças Tradicionais Medievais Cristãs e Muçulmanas (Gil Teatro de Alcochete);
- Artes circenses;
- Parque Infantil Medieval;
- Concerto de Música Medieval, dia 08 (Jogralesca de Óbidos);
- Fogo de artifício, dia 09 (bonecos em movimento).

Jaquelina (responsável pelo evento medieval)